Centenas de pessoas despediram-se hoje na cidade da Praia do antigo Presidente cabo-verdiano Mascarenhas Monteiro, numa cerimónia em que foi lembrado como um ‘gentleman’ e um construtor de pontes “talhado pelo destino” para servir Cabo Verde na hora exata.

A cerimónia de Estado decorreu no Palácio do Plateau, que acolhe a Presidência da República de Cabo Verde, na presença de altas individualidades, representantes do corpo diplomático e das organizações internacionais, além de familiares, amigos e cidadãos anónimos que quiseram despedir-se do antigo chefe de Estado, falecido na sexta-feira aos 72 anos.

O atual chefe de Estado com o mandato suspenso e recandidato às eleições presidenciais de 02 de outubro, Jorge Carlos Fonseca, falou na cerimónia na qualidade de amigo e em cumprimento do último desejo de Mascarenhas Monteiro.

No elogio fúnebre, Jorge Carlos Fonseca deixou de lado a faceta de Presidente e “respeitado estadista” de Mascarenhas Monteiro para falar diretamente para e sobre o amigo “Tony”.

Jorge Carlos Fonseca sublinhou o papel de “construtor de pontes” e “mediador” de Mascarenhas Monteiro, a sua frontalidade, convicções fortes, autonomia de pensamento e ação e atenção aos amigos.

Recuou ainda ao tempo em que trabalharam juntos, Jorge Carlos Fonseca como secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros e Mascarenhas Monteiro como secretário-geral da então Assembleia Nacional Popular.

“Recordo-te como o ‘gentleman’ quando partilhávamos o mesmo espaço de trabalho, o homem de fino trato, de voz poderosa, em quaisquer circunstâncias”, disse Jorge Carlos Fonseca.

“O estadista compenetrado e responsável, mas humilde e cultor de emoções, dialogante mas de decisões firmes, a pessoa de enorme coragem moral, mesmo em questões e decisões delicadas, o militante de permanente e olímpica dignidade”, acrescentou.

Mário Silva, outro dos amigos daquele que foi o primeiro presidente democraticamente eleito em Cabo Verde, fez votos, num testemunho extremamente emocionado, para que o exemplo de Mascarenhas Monteiro possa servir de exemplo para os jovens que hoje pensam dedicar-se à política.

Na cerimónia, que começou e terminou com a entoação do hino nacional de Cabo Verde pela banda militar, foi ainda proferida uma mensagem pelo Superintendente da Igreja do Nazareno em Cabo Verde e pronunciada a oração fúnebre pelo pároco da paróquia de Nossa Senhora do Socorro, na cidade da Praia.

Jorge Santos, presidente da Assembleia Nacional cabo-verdiana mas que assume atualmente o cargo de Presidente da República interino, defendeu ser “impensável” a existência da segunda república em Cabo Verde sem Mascarenhas Monteiro, considerando que ele foi um “homem quase talhado pelo destino para servir naquela hora exata o povo de Cabo Verde na busca de mais uma etapa fundamental do seu percurso histórico e de fundação de um novo regime político”.

Depois da cerimónia na Praia, o cortejo fúnebre com os restos mortais do antigo chefe de Estado percorreu algumas artérias da capital cabo-verdiana, seguindo depois para ser sepultado no cemitério de Assomada, cidade do interior da ilha de Santiago, capital do município de Santa Catarina, de onde Mascarenhas Monteiro era natural.

Jurista e magistrado, António Mascarenhas Monteiro foi o primeiro presidente da República de Cabo Verde eleito por voto direto e universal, em fevereiro de 1991, com o apoio do Movimento para a Democracia (MpD), tendo sido reeleito em 1996.