O telefonema começa assim, sem rodeios. “Vai mas é passear, pá. Não brinques comigo.” Jérôme Palatsi ri-se sem parar e recusa-se a falar mais. Digo-lhe que não, não sou o seu amigo. “É como lhe digo, chamo-me Rui Miguel Tovar e trabalho em Lisboa.” Palatsi recua. “A sério? Tens a voz igual à de um amigo meu. Julguei que fosse uma brincadeira.” Nada disso, Jérôme. A brincadeira é mais a sua praia. Para já, é o único guarda-redes a marcar em duas jornadas seguidas no campeonato. E a jogar fora, em 2000-01.

“Primeiro em Braga, depois em Aveiro, com a U. Leiria. Lembro-me bem. Sabes, eu nunca fui nada de especial com os pés, então segui a carreira de guarda-redes. Mas como gosto de jogar lá à frente. Então, nos treinos, punha-me a tentar fintar o pessoal e a rematar à baliza, para ver se gostam também. Na hora dos penáltis, eu arriscava o meu pontapé. Em Braga, já não sei o que se passou para eu marcar aquele penálti. Acho que o Òscar, o marcador oficial, estava de fora [sim, foi suplente não utilizado, embora tenha marcado dois golos nas duas primeiras jornadas, o primeiro de penálti ao Boavista, o outro de bola corrida ao Benfica, na Luz], e não havia um segundo batedor. Então, avancei eu, em acordo com o treinador [António Sousa]. Na jornada seguinte, outro penálti e eu fiz mais um golo.” E porque não há continuação? Resposta tímida, a sussurrar: “Falhei um”.

Próximo capítulo: o terceiro golo de Palatsi no campeonato, já pelo Vitória SC, treinado por Jorge Jesus. E este não foi de penálti, mas sim um remate de baliza a baliza. “No dérbi com o Moreirense [1-1 em Março de 2004], quis colocar a bola num avançado, mas ela foi, foi, foi, ajudada pelo vento, até que entrou. O Ricardo, aquele da seleção angolana no Mundial-2006, foi traído pelo meu remate colocado [mais risos, e nada de nos mandar à fava]. Sabes outra coisa, sempre quis entrar na história. E se entrei na história por ter marcado em duas jornadas seguintes, também aqui entrei na história.” Então, porquê? Palatsi tem a resposta engatilhada. “É verdade que marquei um golo de baliza a baliza, mas também sofri um. Sabes por quem? Pelo Moreirense, vê lá a ironia.”

Pronto, pronto, serve isto para introduzir o tema Machado vs. Jesus. Como assim? O tal golo de baliza a baliza em Março 2004 é um Moreirense-Vitória SC. Siiiiiim? O Moreirense de Machado e o Vitória de Jesus. Oooooooh, agora sim, faz-se luz. É o primeiro jogo de uma era interminável, sem fim à vista. Acaba 1-1. O primeiro golo é o tal de Platasi. Quem responde a esta brincadeira? Um tal Armando, ex-Vitória. Ele há coincidências, de facto. Daí em diante, Machado e Jesus andam pegados. De braço dado com a história. Em fevereiro 2006, a União Leiria dá 4-1 ao Nacional, na Choupana. Aos 34 minutos, já há 3-0. Seguem-se três empates seguidos, todos 1-1 (Académica-Belenenses em Fevereiro 2006, Braga-Belenenses em Setembro 2006 e Nacional-Braga em Abril 2009).

De repente, 2 no totobola com golo de Cardozo no Nacional-Benfica em março 2010. Nesse mesmo ano, já em setembro, a primeira e única vitória de Machado, ao serviço do Vitória. Edgar 1-0, Saviola 1-1, Rui Miguel 2-1. É o fim da picada e a terceira derrota do Benfica nas quatro primeiras jornadas do campeonato 2010-11. Jesus endireita-se e nunca mais é apanhado em contrapé. Por Manuel Machado, queremos dizer. Em fevereiro 2013, o 2-2 na Choupana é salpicado de vermelhos “proençais” (Cardozo e Marçal aos 90′, Matic aos 90+2′). Em março 2014, um penálti de Candeias atiça o Benfica. Vale a pronta reação de Lima, Rodrigo e Garay, 3-1 ao intervalo. Na segunda parte, 3-2 de Djaniny e 4-2 de Garay. No jogo seguinte, em novembro 2014, mais do mesmo: 1-0 do Nacional (Edgar Abreu) e cambalhota resultadista do Benfica (Salvio e Jonas). Já este ano, a 13 fevereiro, o 11.º jogo entre Machado e Jesus para o campeonato e a maior goleada de todas: 4-0, com dois penáltis. Nenhum deles de Palatsi.

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