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Há coisas ainda mais estranhas em “Atlanta”

"Atlanta", a nova série de Donald Glover, estreia domingo, às 00h50, na FOX Comedy. Falámos com o ator Brian Tyree Henry, que interpreta o papel do Paper Boi.

Autor
  • Rodrigo Nogueira
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“Há tantas histórias por aí que têm de ser contadas”, diz Brian Tyree Henry ao telefone. Henry faz de Alfred Miles, ou Paper Boi, um rapper underground em Atlanta, a surreal, hilariante e ao mesmo tempo pungente e dramática criação de Donald Glover que chega agora à FOX Comedy. “Quer as pessoas queiram, quer não, há uma revolução em curso”, diz, referindo-se ao facto de a televisão de hoje estar cada vez menos centrada em homens brancos (mesmo que esse continue a ser o foco da esmagadora maioria das séries) e mais num espetro de realidades diferentes.

“Nem são só negras — São latinas, asiáticas… Precisamos todos de ser representados. Há tanto que pode ser aprendido se nos abrirmos e deixarmos essas histórias serem contadas”, adiciona. Como exemplo do que está a acontecer, dá não só a sua própria série, mas também Jane the Virgin, focada em personagens latinas, Fresh Off the Boat, sobre uma família de Taiwan que foi para os Estados Unidos da América nos anos 1990, e Insecure, centrada numa mulher negra de 30 anos.

Paper Boi é o primo de Earnest “Earn” Marks, o protagonista da série, um jovem ultra-inteligente que desistiu da universidade de Princeton. Não tem dinheiro e praticamente não tem onde cair morto, vai vivendo em casa da mãe da filha com quem tem uma relação intermitente e que, por ver o talento e reconhecimento do familiar, decide ser sua manager.

Earn é interpretado pelo próprio criador da série, um cómico que começou a notabilizar-se como parte da trupe Derrick Comedy, com sketches no YouTube. Escreveu para o 30 Rock de Tina Fey, faz comédia de stand-up e foi Troy na sitcom Community. Isto até se ter retirado nas últimas temporadas para se dedicar à carreira de rapper sob o nome Childish Gambino. Mas nem a música nem a personalidade de Paper Boi são parecidas com as de Donald Glover.

Apesar do sucesso no mundo das mixtapes, Alfred ganha a vida com a venda de marijuana (os problemas de dinheiro são transversais na série, de uma forma e detalhe que não são comuns na televisão). Apesar de o mundo o ver constantemente como alguém que corresponde aos estereótipos de gangsta rapper, com um exterior duro e colares de ouro, e se envolver por vezes em situações associadas a esse tipo de pessoas, Alfred é, como muitos rappers da vida real, uma pessoa sensível, inteligente, bem-falante.

Ele quer destruir estereótipos e estigmas que foram postos em cima dele”, diz Brian, “enquanto se habitua a uma fama que não pediu necessariamente”.

A série, passada na cidade da Geórgia que lhe dá o nome — e cujo historial no rap/R&B inclui nomes como OutKast, Goodie Mob, T.I., Killer Mike, Janelle Monáe ou Kelly Rowland –, segue, de uma forma pouco linear e com espaço para desvios, as aventuras e desventuras dos dois primos no mundo do rap, mas essencialmente o dia-a-dia e a vida normal a desenrolar-se sem pressas, de pessoas que raramente vemos assim na televisão.

Os desvios, que podem ser tão hilariantes quanto pungentes (afinal de contas, é uma série feita num mundo pós-Louie), incluem episódios dedicados a outras personagens, como por exemplo Vanessa “Van” Keefer (Zazie Beetz), a mãe da filha de Earn, e muitos momentos surreais, sobre a estranheza e bizarria da vida normal e real – algo de que Glover tem falado muito em entrevistas. De pessoas que desaparecem de repente a alunos da escola em whiteface com um olhar assustador, passando por um Justin Bieber negro, tudo se pode passar por aqui ao mesmo tempo que se tenta encontrar uma ligação forte à realidade e à humanidade.

O humor ajuda a sarar feridas que temos e o Donald criou este universo para nos rirmos do absurdo do mundo. Se pudermos rir com todos nós, conseguimos tudo”, diz.

A equipa de argumentistas, que inclui o irmão de Donald, Stephen, é toda composta por negros e o elenco principal também. “Há um elo de ligação comum entre as nossas histórias, todos queremos igualdade e sermos vistos e ouvidos e é gratificante fazer algo com uma equipa assim, isto é contado por pessoas que viveram o que vivemos, de forma genuína”. O foco da representação não cai, portanto, sobre nenhuma das personagens. Podem ser apresentadas todo o tipo de pessoas e não há o risco de alguém assumir que uma delas é representativa de toda uma raça.

Henry sabe o que isso é. Apesar de ter trabalho no teatro com elencos maioritariamente negros, em peças do dramaturgo Tarell Alvin McCraney, a sua carreira tem sido feita de participações pequenas em séries como Lei & Ordem, The Good Wife, Boardwalk Empire ou The Knick, ou peças como o musical The Book of Mormon, em que a maioria do elenco é branco e em que quaisquer minorias podem ser escrutinadas ou utilizadas como representativas de todo um grupo de pessoas.

Este ano, o ator fez alguns episódios de Vice Principals, a criação de Danny McBride e Jody Hill – dois homens brancos – para a HBO que recebeu algumas acusações de racismo por mostrar dois vice-diretores brancos de um liceu a tentarem derrubar a diretora negra, algo que nunca poderia acontecer neste caso, algo que nunca aconteceria noutro caso.

Henry gaba o trabalho de Kimberly Hebert Gregory, a atriz que faz de diretora, e diz que ainda assim “adora que estas séries nos tenham dado uma maneira e um ambiente para dizermos o que nos vai na cabeça”. No caso de Atlanta, diz que tem sido abordado por todo o tipo de pessoas que “nunca esperaria que fossem dar uma chance a uma série assim”, e que as representações que têm aparecido cada vez mais nos últimos tempos são “mais cruas e cheias de nuances”. Como Paper Boi e as personagens que o rodeiam em Atlanta.

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