Omar Alheib está há três meses em Portugal. Viajou de Génova para Guimarães para terminar o doutoramento em bioengenharia, que tinha começado em Itália. “Vim para a Europa pela via normal, de avião, não vim de barco”. Nem foi preciso perguntar. Como um reflexo, o estudante, de 34 anos, solta as palavras que passaram a acompanhar a apresentação “sou sírio”. A família ainda lá está, em Alepo, no coração da guerra.

Desde que deixou a Síria, há quase dois anos, para estudar na Europa, nunca mais voltou. “A minha mãe não faz ideia de quando nos vamos voltar a encontrar. E eu nem sequer posso ir à Turquia ou a outro país vizinho porque não é muito fácil deslocar-me”.

Encontramos Omar em Guimarães, numa das muitas salas de trabalho do centro de investigação 3B’s, da Universidade do Minho, durante uma visita do comissário europeu Carlos Moedas no âmbito do seu 3.º Roteiro para a Ciência. Ali, no norte de Portugal, a “guerra na Síria” parece um conceito abstrato, distante.

Rodeado de computadores, microscópios e outro material de laboratório, Omar ainda está a aprender a mexer-se no seu novo espaço e na sua nova cidade, onde agora vive com a mulher, muçulmana. “Ela anda coberta e as pessoas olham, mas são simpáticas e já nos aceitam como um deles”, diz. O casal também já se habitou à reação — sempre a mesma — quando dizem que vieram da Síria. “Aaahhh, da Síria”, respondem-lhe, de olhos abertos de espanto.

Omar Alheib

Omar Alheib, 34 anos, está há três meses em Portugal. Veio de Génova, Itália, para concluir em Guimarães o doutoramento

A formação académica e a adaptação a Portugal ocupam os dias de Omar. Mas o pensamento teima em voltar sempre às ruas onde cresceu.

Alepo é o sitio mais perigoso do mundo, de longe. A situação é muito difícil, é pior do que se vê na televisão.”

Omar sabe o preço a pagar pelo conflito. “O meu pai morreu há poucos meses. Teve um ataque cardíaco por causa da guerra e não havia hospitais. Ele simplesmente ficou na cama e morreu. Já tinha escapado a dois tiros de morteiro e teve sorte. Mas à terceira foi diferente”. Em Alepo não há luz, não há água, em certos dias não há sequer o que comer.

Omar tenta explicar o que é passar dias a ouvir bombas a rebentar, tenta pôr em palavras a sensação de acordar – numa situação em que acordar de manhã pode considerar-se um luxo – e perceber que a casa do vizinho, ao fundo da rua, agora não passa de entulho.

No início da conversa, o estudante diz-nos que preferia não falar de política. Mas é o próprio quem leva o tema para a crise sem fim à vista no seu país e, nesse exercício, as próprias histórias dos vizinhos e família vêm carregadas de política, quando Omar recorda a história do vizinho que perdeu a família às portas da Europa.

Há um médico, era meu vizinho em Alepo. A família dele morreu afogada no Mediterrâneo. A família toda. A mulher, os dois filhos. Morreram à frente dos olhos dele. Eu conheço-o”, diz, carregando as últimas palavras para que fique bem claro que ele e a mulher até podem estar a salvo, em Guimarães, a milhares de quilómetros de casa, mas a guerra síria está sempre presente.

A família do médico caiu do barco quando estava a caminho da Grécia ou de Itália. “Chamam-se salva-vidas, mas na verdade são o contrário, são barcos da morte”, desabafa. São três amigos de Omar em quase 8 mil pessoas que morreram afogadas no Mediterrâneo nos últimos três anos, segundo dados da Organização Internacional das Migrações.

Omar nasceu Alepo, a antiga capital do comércio na Síria. Depois veio a guerra. Há quem lhe chame guerra civil, mas o conceito está longe de ser consensual. Dessa cidade e dos seus cinco milhões de habitantes – “gente boa”, diz Omar – ficaram, sobretudo, memórias. Lembranças que aos poucos se vão desfazendo como as paredes das casas, esventradas pelas bombas dos aviões e pelos morteiros. “Estás a ver um bolo com as suas várias camadas? Agora imagina-as a virem por aí abaixo. É muito, muito comum. Quase não consegues encontrar uma rua sem que haja prédios destruídos”.

O investigador não está confiante no futuro do seu país e da sua cidade. Antes de estabilizar, a situação “ainda vai piorar”. Mas de uma coisa está convencido:

Não vai ficar melhor, isso não vai”. Ali não há lugar para otimismos. “Eu sou sírio e não consigo explicar a ninguém quão má é a situação”.

Com o Governo de Bashar Al-Assad de um lado, os rebeldes do outro e ainda os extremistas islâmicos do Estado Islâmico, há uma população encurralada e à beira do desespero. Qual é a solução para o conflito na Síria? “A melhor solução para isto é que as pessoas sejam sábias. Só precisamos que os líderes se sentem e falem. Caso contrário, uma coisa traz a outra e acaba tudo em explosões”.

O Observador viajou a convite da Comissão Europeia