457kWh poupados com o Logótipo da MEO Energia Logótipo da MEO Energia
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Logótipo da MEO Energia

Adere à Fibra do MEO com a máxima velocidade desde 29.99/mês aqui.

O mestrado sentimental de Luís Severo

Este artigo tem mais de 5 anos

Com um novo álbum, homónimo, e um concerto de apresentação no Teatro Ibérico, em Lisboa, o músico falou com Nuno Costa Santos sobre coisas de gente romântica e "boas companhias".

i

Francisco Aguiar

Francisco Aguiar

Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

E eis que, depois de Cara d’Anjo, de 2015, Luís Severo edita um segundo álbum no qual aprofunda a sua especialidade em canções amorosas e o seu talento para a composição. Se o primeiro disco daquele que já foi conhecido como Cão da Morte dava início ao romântico baile com temas como “Ainda é Cedo”, “Santo António”, “Canto Diferente” e “Nita”, o segundo é um mestrado sentimental, que se inaugura com uma canção de título inequívoco nos enunciados, “Amor e Verdade”. Mas já não há apenas sol nesta praia. Também se fala de avalanche e de medo. E de cidade.

Há aqui muito coração para distribuir, com Lisboa como cenário e como uma personagem de quem se fala e que nem sempre é tratada com o esmero que merece (“não há filho teu que não te vende”), feira na qual cada um tem de se habituar a defender. É um namoro urbano o que se propõe, algures entre a Alameda e a Penha de França, muita passeata de mão dada ao som de versos, ou floridos ou melancólicos, de um bardo romântico, alguém que percorre becos e praças debaixo de um céu de humores variados e envolto por um nevoeiro ocasional.

Mesmo que o segundo tema, com um ritmo que remete para uma fachadiana afro-xula, se chame “Planície (Tudo Igual”), é de referir que houve mudanças importantes na vida de Luís Severo e que estas tiveram reflexo neste segundo fôlego criativo a solo. O próprio, na primeira pessoa: “Mudaram algumas coisas na minha vida que penso terem influenciado o rumo do disco: deixei Odivelas e mudei-me definitivamente para Lisboa. Além disso, este foi um álbum gravado no único período em que estive exclusivamente a fazer música”. Foram várias as mudanças. Mudou de estúdio, de músicos de apoio, de meio de transporte. E de método para escrever as canções: “Passei a escrever ao piano, a escrever a música antes da letra”. É ouvir o bom resultado.

A capa do álbum homónimo de Luís Severo (edição: Cuca Monga)

Continua a ser, antes de mais, o sentimento amoroso que o inspira para a escrita de canções? “Sim, mas apesar de tudo acho que este disco já é um bocadinho menos centrado no amor que ‘Cara d’Anjo’. Claro que continua lá e com um peso muito forte. Mas já vai beber a outras águas, nomeadamente as águas da urbanidade, contextualizando mais o amor no espaço onde muitos de nós o vivemos”. Aquele que na jornada anterior disse ter uma “vida de escorpião” sente-se dividido quando tenta identificar a real intenção deste novo gesto: “Ainda hoje não sei se neste disco falo do amor como uma desculpa para falar da cidade, ou vice-versa”.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

O amor e a paisagem. E os passos em volta, grupo da editora Cafetra nomeado em “Escola”, o primeiro single, em que, depois de uma entrada melódica com violinos, se evoca o primeiro beijo, o frio de Santa Apolónia e ensinamentos primordiais:

“fui à escola aprender a estar sempre alerta/e a não confiar em ninguém”. A dado passo, depois de uma passagem de carta amorosa, desce sobre a letra uma súbita reguada de ironia: “a escola que é a melhor parte da vida/ mas só porque a vida é mesmo uma merda”.

Será mesmo assim ou fica bem na letra ser assim?

“Quando era criança e adolescente ouvia muitas vezes a frase: ‘Aproveita agora que estás na melhor parte da tua vida’. Eu não gostava nada da escola e desconfiava muito dessa afirmação. Agora, na idade adulta, olhando para trás, considero cada vez mais que a escola não é de todo a melhor parte da vida. E para mim só é possível achar isso se a vida estiver mesmo a ser uma merda”.

Todos os versos desta canção, diz, são uma espécie de graça sobre “ser saudosista em relação a uma coisa que não foi especialmente boa, só porque já passou muito tempo e a distância adocicou o que resta das vivências”. A sabedoria servida com irónica temperatura.

[ouça aqui o álbum “Luís Severo”]

Até ao fim do álbum há duas canções que merecem uma referência conjunta, “Meu Amor” e “Boa Companhia”, intervaladas pela despreocupada “Cabeça de Vento”. Tratam do mesmíssimo apaixonado dossier em tonalidades diferentes. Diga-se que não é qualquer um que compõe, toca e canta um tema tão desprotegidamente romântico (muito para lá do título), que caminha sobre um trilho de piano, como “Meu Amor”. Magnífica cantiga, desenhada e interpretada com um despudor inocente, lembra uma noite em Janeiro, passeios e beijos a ver o castelo, mãos enlaçadas, “suspiros de paz”, “arco-íris para rever”, “carinhos que me deixam em flor”. Tudo o que muitos sonham e magicam mas só poucos se atrevem a dizer.

“Boa Companhia” é outra história dentro do romance. Tem a leveza de uma música dos Broa de Mel e é uma carta excelente para sacar em momento alto dos concertos. Se bem trabalhada pelas rádios, reúne condições para ser um hit de Verão. Estará Severo preparado para a eventualidade? “Sempre foi claro que a ‘Boa Companhia’ seria um dos singles deste trabalho. É uma canção que, através do arranjo feito em estúdio, ficou mais insuflada e contagiante. Gostava que fosse um hit, claro!”. Pratica uma fórmula de que gosta bastante: traz uma punchline na letra que serve para anular tudo o que foi dito antes.

“Dizer ‘és Boa Companhia’ depois de me referir a tantos problemas do quotidiano é uma forma de dizer que esses mesmos problemas pesam pouco ao lado de outras coisas, e que nisto das relações é bonito viver um dia de cada vez”.

A estas duas músicas também se pode encostar “Olho de Lince”, composição adequada para encerrar o baile. Traz, sem peso e até com sentido de festa, a consciência de que as mais sublimes benquerenças têm prazo de validade numa etiqueta oculta.

[o vídeo de “Boa Companhia”]

Um apontamento para a produção, muito cuidada, feita de arranjos e pormenores que se entendem melhor em audições atentas. O disco assinala uma mudança, aludida no início: a passagem de Luís Severo para o estúdio de Alvalade comandado por Diogo Rodrigues (baterista da sua formação ao vivo), no qual ensaia a banda Capitão Fausto. Luís sabia que Diogo iria gravar o disco consigo, mas sentia que faltava outra pessoa para os ajudar, para trazer ideias novas e romper as rotinas da dupla. E eis que chega uma oportuna cumplicidade com os celebrados Capitão Fausto.

“Lembrei-me do Manuel Palha (guitarrista da banda), que me impressionou bastante durante uns ensaios. Os três produzimos e tocamos a maioria dos instrumentos. O Francisco Ferreira, teclista, contribuiu fortemente para a massa de texturas. O Tomás Wallenstein tocou violinos e apareceu nas alturas certas para desbloquear impasses. A Violeta Azevedo gravou flautas e o Salvador percussões”. No fim veio o coro, formado por Teresa Castro, Bia Diniz e Manuel Lourenço. “Estes três compinchas foram incansáveis e acrescentaram um lado bem orgânico ao disco”. Construído ao longo de cerca de oito meses, Luís Severo, agora apresentado no Teatro Ibérico (dia 29), foi criado e produzido sem pressas, com assumida serenidade. “Alterámos coisas imensas vezes, fizemos e refizemos. Apesar de a última palavra ser sempre minha, o Diogo e o Manuel foram duas peças-chave”.

Nuno Costa Santos, 42 anos, escreveu livros como “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco” ou o romance “Céu Nublado com Boas Abertas”. É autor de, entre outros trabalhos audiovisuais, “Ruy Belo, Era Uma Vez” e de várias peças de teatro.

A página está a demorar muito tempo.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

Ofereça artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Este artigo só pode ser lido por um utilizador registado com o mesmo endereço de email que recebeu esta oferta.
Para conseguir ler o artigo inicie sessão com o endereço de email correto.