Num dia em que se falou sobretudo de guiões, cartilhas e cábulas, eis que tivemos um espetáculo daqueles que não precisa de explicação de explicação nem historial: percebe-se, de cabeça, que é bom. Com golos, com emoção, com incerteza, com intensidade, com muitos erros à mistura. O Benfica-Estoril mais parecia um caderno de classificados com uma das melhores ofertas futebolísticas que a temporada nos deu até hoje. No entanto, havia uma quadradinho dos anúncios que só podia ser solicitado por um – “Procura-se: bilhete para o Jamor”. Procura-se não, compra-se. Porque o que os encarnados mais têm de procurar é mesmo uma defesa. Esta noite, ela teve falta de comparência.

Comecemos por aqui para arriscar uma primeira explicação para tanto (inesperado) sofrimento do Benfica para passar este novo Estoril comandado por Pedro Emanuel, um expert em Taça de Portugal que já levantou cinco vezes o troféu entre títulos como jogador e treinador. Rui Vitória explicou, na flash e na conferência de imprensa, que não fez qualquer poupança mas sim uma mera gestão física de alguns elementos condicionados em termos físicos. Se foi gestão, foi de risco. Muito risco. Porque tão depressa podia ter dado para ganhar fácil como para sofrer calafrios. E exemplo paradigmático disso foram os prós e os contras de jogar sem uma unidade fixa na frente.

Ficha de jogo

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Benfica-Estoril, 3-3

2.ª mão da meia-final da Taça de Portugal

Estádio da Luz (Lisboa)

Árbitro: Rui Costa (Porto)

Benfica: Júlio César; André Almeida, Lisandro López, Lindelöf, Grimaldo; Samaris, Filipe Augusto (Pizzi, 56’); Carrillo (Salvio, 82’), Cervi, Zivkovic e Rafa (Jonas, 69’)

Treinador: Rui Vitória

Suplentes não utilizados: Paulo Lopes, Nélson Semedo, Luisão e Luka Jovic

Estoril: Luís Ribeiro; Mano, Dankler, João Afonso, Ailton (Kléber, 82’); Diogo Amado, Eduardo, Matheus Índio; Licá (Allano, 73’), Tocatins (Carlinhos, 46’) e Bruno Gomes

Treinador: Pedro Emanuel

Suplentes não utilizados: Thierry Graça, Joel, Diakhité e Mattheus

Golos: Bruno Gomes (31’ e 78’), Carrillo (33’), Carlinhos (46’), Zivkovic (54’) e Jonas (72’)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Allano (83’) e Carlinhos (90+3’)

Seja Jonas, seja Mitroglou, seja Jiménez ou sejam dois dos três, os encarnados não costumam permitir grandes oportunidades aos adversários porque têm os pesos-pesados da frente numa primeira fase de pressão logo à saída da área contrária, arrastando depois toda a equipa até encostar a linha defensiva quase ao meio-campo. Esta noite, o Benfica arriscou nos pesos-pluma: Zivkovic, Carrillo, Cervi e Rafa, todos titulares, todos em alta rotação. Cervi deixou a primeira ameaça aos cinco minutos, Rafa falhou isolado aos 14′ e o jogo parecia bom para aproveitar a subida posicional de um Estoril obrigado a marcar e que expunha algumas vezes as suas costas. No entanto, o golo nunca apareceu. E os visitantes foram eficazes: no primeiro remate enquadrado com a baliza de Júlio César, Bruno Gomes marcou um fantástico golo de fora da área ao ângulo (31′). Afinal, não seriam favas contadas.

No entanto, Luís Ribeiro, que tanto já tinha tirado, também deu uma goela que Carrillo aproveitou logo dois minutos depois: na sequência de um canto, Lisandro López cabeceou ao segundo poste, o guarda-redes dos canarinhos fez uma rosca ao socar a bola e, no meio da confusão, o peruano encostou para o empate de forma fácil. Mas não se pense que isso foi o calmante necessário para os visitados, que a quatro minutos do intervalo voltaram a apanhar um susto quando Júlio César fez a primeira grande intervenção num livre direto de Eduardo.

Chegava o intervalo, chegava as mudanças. A equipa da Linha já estava de cartão bem preenchido, mas Pedro Emanuel arriscou fazer bingo e conseguiu: Carlinhos, que entrou para o lugar de Tocatins, demorou menos de dez segundos para aproveitar mais um erro da defesa do Benfica, desta vez a meias entre André Almeida e Lisandro López, e marcar o golo que empatava por completo as contas (os encarnados tinham ganho na Amoreira por 2-1 na primeira mão). Com os canarinhos, era cada tiro, cada melro. Bastava uma fisga para caçar a águia.

Os encarnados, que tinham marcado presença no Jamor pela última vez em 2014, chegaram dez segundos atrasados para o segundo tempo, mas nem por isso deixaram de reagir da melhor forma, com Luís Ribeiro a redimir-se do erro no golo de Carrillo para fazer duas defesas monstruosas a remates de Zivkovic e Cervi. Não foi à primeira, não foi à segunda, foi à terceira. E não foi a bem (jogadas coletivas), foi a “mal”: o extremo sérvio derivou da direita para o corredor central em fintas e disparou em arco ao ângulo para o empate que recolocava de novo o Benfica na frente.

Pizzi entrou em campo (Filipe Augusto saiu com queixas), Jonas ia a caminho mas a partida continuava a um ritmo louco. Não tanto a nível de qualidade ou intensidade, mas de oportunidades claras que iam sendo criadas e desperdiçadas: Carrillo, aos 61′, foi lançado em profundidade por Zivkovic mas o chapéu de fino recorte técnico bateu na trave de Luís Ribeiro; depois, aos 65′, foi Júlio César a defender duas bolas sem nota artística mas com alta nota de eficácia, evitando as tentativas com carimbo de golo de Carlinhos e Bruno Gomes. Estava mais do que visto que a bola do golo ia sair, só não se sabia para que lado. E Jonas respondeu facilmente a essa dúvida: na primeira ação ofensiva depois de entrar para o lugar de Rafa, recebeu um passe rasteiro de trivela de Cervi numa jogada que teve também Zivkovic para fazer o 3-2 à matador, logo ele que tem um histórico tão positivo contra o Estoril.

Se alguém pensou que estava descoberta a chave final do prémio, não demorou a rever a ideia: seis minutos depois, de novo após um mau alívio de Lisandro López, Matheus Índio ganhou a bola à entrada da área, fintou pela esquerda e cruzou rasteiro para Bruno Gomes fazer o que já tinha feito este ano em Alvalade e bisar: 3-3.

Voltava a ficar tudo em aberto e um golo do Estoril, que não marcava três na Luz há quase 70 anos, provocava a reviravolta completa na eliminatória. E ainda teve uma hipótese, aos 88′, mas o cabeceamento de Kléber acabou por ficar nas costas largas de Grimaldo, uma das poucas boas notícias de Rui Vitória sobretudo a nível de defesa após cinco meses de ausência. Ainda assim, o empate chegou ao Benfica, que não se livrou de duas ações raríssimas esta época: ter toda a equipa no seu meio-campo a defender e aproveitar as faltas laterais para congelar a bola.

Esta noite, os encarnados conseguiram juntar-se ao restrito lote de equipas europeias com mais de 100 golos na presente temporada, algo que aconteceu pela oitava vez. E cumpriram o principal objetivo, que era marcar presença na final da Taça de Portugal com o V. Guimarães, a 28 de maio. No entanto, não se livraram de alguns (ou muitos) calafrios numa eliminatória que parecia acessível e que assim não foi fruto da pior exibição da época a nível defensivo. E vão três jogos seguidos sem ganhar (e sem perder, só com empates), algo que não acontecia há três temporadas e que nunca tinha acontecido no reinado de Rui Vitória, que reencontra a anterior equipa no Jamor. Quem diria que aquele golo de Mitroglou na Amoreira que tanta polémica levantou viria a ser tão importante…