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Na final da Euovisão, em Kiev, Salvador Sobral afirmou, no discurso de vitória depois dos 758 pontos alcançados, que “a música não é fogo-de-artifício, é sentimento”, e foi isso que quis mostrar no sábado à noite no Marco de Canaveses: sem efeitos em palco, muito sentido de humor e a afinação do costume, o resultado foi um concerto que foi da improvisação nos temas jazz que compõem Excuse Me, álbum de estreia, à emoção de “Amar pelos Dois”, a do cantor e a do público, que nunca foi tanto como na noite fria marcoense, admitiu.

O concerto num palco ao ar livre, em Vila Boa de Quires, a sete quilómetros do Marco, já tinha sido marcada antes da inédita vitória portuguesa, garantiu a organização, e surgiu integrada no Festival Confluências, organizado pela Comunidade Intermunicipal do Tâmega e Sousa e que decorre de maio a julho em nove concelhos da região.

Aconteceu num pequeno palco montado junto à fachada das Obras do Fidalgo, uma fachada imponente do séc. XVIII que restou de um projeto inacabado do arquiteto António José de Vasconcelos de Carvalho e Meneses, considerado Imóvel de Interesse Público em 1977, com vários milhares de pessoas a assistir, de pé, sentadas ou empoleiradas no monumento.

Antes do intérprete de “Amar pelos Dois”, canção vencedora escrita pela irmã, Luísa, entrar em cena, já eram muitos os fãs que procuravam guardar o melhor lugar, depois da organização ter reforçado a segurança e ter garantido autocarros para transporte entre o centro do Marco e o recinto.

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Sentados num fardo de palha, à semelhança de muitos outros no recinto, estavam Nisa Oliveira, de 26 anos, Rita Silva, de 12, e Jaime Dias, de 28. Os amigos vieram do Porto para ver Salvador Sobral porque, conta Nisa ao Observador, já conheciam “algum do trabalho” do cantor. “Fiquei muito surpreendida quando vi que os irmãos iam concorrer, mas depois percebi que no novo formato do Festival da Canção faz sentido. Sempre tive curiosidade de o ver ao vivo”, adiantou.

Da rivalidade lá de casa à parceria de sucesso. A história dos irmãos Sobral

A jovem levou uma cópia do álbum de estreia, Excuse Me, que Jaime lhe tinha oferecido “no dia anterior, porque é a maior fã”, do autor e de “boa música”, explicou o amigo. “Ele respira música da cabeça aos pés”, suspirou a portuense, que já esperava muito público “por ser de entrada gratuita” e pelo impacto da Eurovisão.

Mais à frente, junto às grades que separam o palco da assistência, estava Márcia Teixeira, de 34 anos, residente no Marco de Canaveses, que trouxe “os filhos, sobrinhos, a irmã e o marido”, ainda que não conhecessem o trabalho de Sobral antes do sucesso. “Achámos bem vir assistir, tínhamos curiosidade e somos de cá”, apontou.

“Salvador! Salvador!”

O concerto, marcado para as 21h45, tardava em começar, mesmo com os cânticos de incentivo — “Salvador! Salvador! Salvador!” — vindos da plateia, de um cartaz a declarar amor ao músico e dos miúdos que acompanharam Márcia, que gritavam pelo músico lisboeta.

Com cerca de 35 minutos de atraso em relação à hora marcada, pelas 22h20, Salvador entra em palco como um herói, entre palmas e gritos e um público desejoso de registar o momento para a posteridade, de telefones em riste. Nada que alterasse a postura do cantor, de 27 anos. Um ‘blazer’ escuro, um sorriso fácil, a voz afinada e o divertimento de estar de volta aos concertos e ao jazz. E tudo o que o público esperava: as canções, as caretas, as danças e os saltos.

Solto e sem nervosismo aparente, o músico abriu com “Change”, do primeiro trabalho de estúdio, antes de passar do inglês para o espanhol com “Nada que esperar”. Só depois dos dois temas de Excuse Me é que saudou a plateia. “Olá”, bradou, recebendo resposta de um coro de centenas de fãs. “Jamais tive tanto público na minha vida! Caraças, porque será?”, brincou o jovem, que se fez acompanhar em palco por Júlio Resende, no piano, André Rosinha, no contrabaixo, e Bruno Pedroso, na bateria.

A improvisação teve papel de destaque em cima do palco, quer da parte dos músicos como do cantor, que não hesitava em brincar com o timbre de voz ou mesmo com as letras dos temas que ia desfiando, como em “Presságio”, poema de Fernando Pessoa musicado por Júlio Resende, faixa em que o público acompanhou verso a verso.

Famílias, crianças, casais e excursões de amigos, o sentido de humor de Salvador Sobral recolhia gargalhadas e aplausos a cada momento. Fez referência a críticas e às notícias sobre a condição de saúde, da roupa que trazia — “um dia visto calças que me sirvam” –, à provocação de, aqui e ali, entoar as primeiras palavras da canção vencedora da Eurovisão, que na verdade só viria a cantar no final. Além de comparar o público no Marco de Canaveses com a receção que teve no aeroporto de Lisboa à chegada de Kiev.

Não se cansou de apresentar a banda e de agradecer – André Rosinha escreveu com ele “Benjamim”, enquanto Júlio Resende coproduziu Excuse Me e partilha o projeto de rock eletrónico Alexander Search, ainda que sob o nome de Benjamin Cymbra. Tudo ao mesmo tempo que brincava com referências hip hop ou ia incluindo o refrão de “Amar pelos Dois” no meio de outras canções.

“Temos aqui uma coisa que vos vai agradar”

À medida que o concerto continuava, o charme de Sobral mantinha o público dedicado, como um maestro que organiza uma orquestra, emprestando frequentemente o movimento do corpo à voz na missão de dar vida a cada tema, como em “Loucura”, ou em “Benjamim”, onde liderou o coro no último verso, de difícil execução: “No corpo e na alma está o coração”, alinharam os mais devotos.

Antes disso, o cantor interpretou “Nem Eu”, tema da brasileira Nana Caymmi e que faz parte de Excuse Me, que Sobral e Caetano Veloso, um confesso admirador, interpretaram juntos em casa de Carminho na quinta-feira. Foi, aliás, um dos temas mais reconhecidos pelo público, que não se cansou de o aplaudir durante uma interpretação entusiástica da canção.

Durante a visita com irmã Luísa à Assembleia da República, Salvador Sobral tinha dito que não era obrigatório que o tema com que ganhou a Eurovisão fizesse parte das suas atuações. Pelas 23h30, mais de uma hora depois de ter pisado o palco pela primeira vez, o artista desfez o ‘bluff’ e revelou “Amar pelos dois”. “Temos aqui uma coisa que acho que vos vai agradar”, declarou, antes de se atirar à canção fenómeno, cantada no coro que se esperava, entre o público e o palco.

No final, Ana Pinho, de 39 anos, e Bruno Magoo, de 37, ambos marcoenses, estavam rendidos. “Foi espetacular. Cinco estrelas”, dizem, ao mesmo tempo, enquanto embalavam, no carrinho, a filha de 14 meses, Ariana, que “também dançou” ao som de Salvador.

“Tínhamos sabido do concerto através de um artigo no jornal, ainda antes da Eurovisão. Quisemos logo vir, mas poderíamos ter trabalho”, explicou Ana, que trabalha em teatro, enquanto Bruno é baterista, e que se manifestou “muito feliz” pela sua cidade ter conseguido “marcar este concerto antes do êxito todo”.

O concelho do Marco de Canaveses foi o primeiro a acolher a euforia pós-Eurovisão, ainda que distante de algumas previsões, que apontavam para 10 mil pessoas no sábado, mas o fenómeno de popularidade vai continuar por Portugal fora.

Depois da festa sem fogo de artifício e com uma assistência sem precedentes, seguem-se atuações no Centro Cultural do Cartaxo (26 de maio), no Centro de Artes de Ovar (27) e na Casa da Cultura de Ílhavo (a 10 de junho), todas esgotadas, além de uma dezena de outras datas na agenda.