A investigação ao escândalo de corrupção na FIFA (por causa da atribuição do Mundial de 2018 à Rússia e do de 2022 ao Qatar) demorou longos dezoito meses e deu origem a um relatório de trezentas e cinquenta páginas elaborado por Michael Garcia, diretor da Comissão de Ética daquela organização. Os ex-presidentes do Comité, Cornel Borbély e Hans-Joachim Eckert, sempre se recusaram a publicar as conclusões de Garcia.

Nomeado em 2012 para o cargo, Michael Garcia concluiu a investigação em setembro de 2014 e resolveu demitir-se pouco depois, em dezembro. Garcia acusava a FIFA de ter “deturpação” o relatório por si elaborado — a FIFA, por sua vez, garantiria que “não foram identificadas irregularidades” quanto à atribuição dos dois campeonatos do mundo.

Esta segunda-feira, o diário alemão Bild divulgou parte do relatório. Não tardaria até que a FIFA resolvesse divulgá-lo na integra. “Os novos presidentes [da Comissão de Ética] solicitaram a publicação imediata do relatório completo para evitar a divulgação de qualquer informação enganosa”, pode ler-se num comunicado emitido pela organização.

Uma das principais curiosidades deste relatório é o envolvimento do príncipe William e do ex-primeiro ministro britânico David Cameron num esquema de troca de favores para que a Inglaterra viesse a organizar o Mundial 2018.

É certo que a Inglaterra perdeu para a candidatura russa. Mas não por falta de “contactos”. O “Relatório Garcia”, como é conhecido o documento, explica que Cameron e William tiveram, por exemplo, um encontro com a delegação da Coreia do Sul. Objetivo: trocar votos entre si para a Coreia organizasse o Mundial seguinte, em 2022. O regulamento da FIFA proíbe este tipo de encontros.

Mas a delegação britânica (encabeçada por William e Cameron) também se reuniu com o ex-presidente da Conmebol. Os votos dos países pertencentes àquela confederação seriam garantidos (na totalidade ou quase) se Nicolaz Leoz fosse condecorado com a Ordem de Cavaleiro do Império Britânico. Mais: Leoz queria encontrar-se pessoalmente com a rainha Isabel II. A proposta não foi aceite. Mas os ingleses contrapropuseram: aceitavam criar um torneio em Inglaterra ao qual atribuiriam o nome do ex-presidente da Conmebol.

Os ingleses são ainda acusados neste relatório de ter conseguido um emprego para o filho de Jack Warner, antigo presidente da Concacaf, em troca de votos. E conseguiram mesmo, em dois clubes: no Tottenham Hotspur, em Londres, e no Aston Villa, de Birmingham. A Inglaterra tentaria ainda garantir o apoio da Tailândia, aceitando que a seleção dos “Três Leões” jogasse contra aquele país num jogo amigável a realizar no estádio de Wembley, em Londres.