Os conselheiros externos da Food and Drug Administration (FDA), a empresa que garante o controlo alimentar e autoriza medicamentos nos Estados Unidos, aprovou um tratamento revolucionário que dá ordens genéticas às células do sistema imunitário para identificar e atacar um cancro. É a primeira vez que uma terapêutica que implica manipulação genética das células do corpo humano é aprovada por especialistas para combater o cancro, sublinha a Nature News. A FDA não tem de seguir os pareceres desses conselheiros, mas normalmente fá-lo. A seguir a ela, podem seguir-se outras empresas de aprovação de medicamentos na Europa.

Esse tratamento baseia-se numa antiga aposta do mercado dos medicamentos: a terapia CAR-T. O tratamento modifica as células T, um grupo de glóbulos brancos responsáveis pela defesa do organismo contra ataques externos, através da chamada “engenharia genética”. Primeiro, os médicos extraem células T dos pacientes e, em laboratório, limpam-nas. A seguir, é introduzido um vírus que leva à boleia moléculas que têm por função identificar as células cancerígenas. Essas moléculas, que são criadas especialmente para cada um dos pacientes, chamam-se recetores de antigénios quiméricos (CAR) e reduzem a capacidade que as células cancerígenas têm de escapar ao ataque do sistema imunitário. Isso é possível porque, no fundo, as células T sofrem uma reprogramação genética que lhes permite serem mais sensíveis a reconhecer o cancro e mais capazes de o atacar. Assim que essa modificação é feita, as células T reprogramadas são reintroduzidas no corpo do doente. Todo este processo demora, no máximo, 22 dias.

No caso específico do tratamento aprovado pelos conselheiros da FDA, a terapêutica utiliza um produto da Novartis com base em tisagenlecleucel, que trata crianças e jovens adultos com leucemia linfoblástica aguda. Num estudo com a participação de 63 pacientes em que se testou este tratamento, 52 das pessoas ficaram completamente curadas, o que simboliza 82,5% da amostra. Por este estudo não ter um grupo de controlo, não foi possível verificar se o cancro desaparece para sempre ou se há hipóteses de regressar, mas esta não é a primeira experiência com tisagenlecleucel com resultados animadores. Num estudo da Fred Hutchinson Cancer Research Center (EUA) que testou esta terapêutica em 35 pessoas com leucemia linfoblástica aguda, em 94% dos casos o cancro entrou em remissão. Noutro estudo, o tratamento funcionou em 80% da amostra de pacientes com linfoma não-Hodgkin. Mas em todas estas investigações, o número de pessoas testadas é baixo, o que condiciona as conclusões que se podem tirar delas.

Mas muitas outras dúvidas deixaram a FDA e os seus conselheiros de pé atrás quanto a este tratamento até agora. Depois de um teste feito com tisagenlecleucel em 2015, 47% dos doentes-cobaia apresentaram sinais de hipercitocinemia, uma reação inflamatória extrema que provoca febres altas e insuficiência dos órgãos, podendo conduzir à morte. Houve até registo de doentes que morreram com um inchaço grave no cérebro. Desta vez, a Novartis diz que esses problemas já foram contornados. A empresa admite que muitos dos pacientes tiveram convulsões e alucinações, mas apenas temporariamente. E os conselheiros da FDA concordam que “os benefícios da terapia CAR-T ultrapassam os seus riscos”.

Agora, a FDA tem dois meses para decidir se aprova ou chumba a terapia CAR-T. É o tempo que a comunidade científica tem para refletir sobre outros aspetos que ainda não têm resposta: os investigadores ainda não sabem se o vírus usado para introduzir a molécula nas células ganha ou não capacidade para se replicar e espalhar pelo corpo quando chega ao organismo do paciente. Também ainda não se sabe se, perante alguma falha em laboratório — por mais pequena que seja — o vírus pode atacar a célula-T e torná-la numa célula cancerígena. Mas acima de tudo, ainda é muito cedo para perceber se esta é uma terapêutica definitiva ou se o cancro pode voltar a uma pessoa supostamente curada.