O ano de 2017 vai ser recordado, como 2003, como um dos piores anos em termos de devastação florestal e perda de vidas humanas relacionadas com os incêndios. Enquanto se discute a reforma da floresta e os problemas que levaram a tragédias como Pedrógão Grande, nas escolas e faculdades portuguesas há quem esteja a trabalhar em projetos promissores.

Eis alguns casos de inovadores portugueses que querem evitar os incêndios — ou atenuar as suas consequências — com robôs inteligentes e sensores camuflados capazes de alertar ao mínimo sinal de fumo.

Um sensor criado por jovens do secundário em Oliveira do Bairro

Em Portugal, este ano, já arderam cerca de 75 mil hectares de floresta, “um número alarmante” para Diogo Albuquerque. O jovem de Oliveira do Bairro juntou-se aos colegas Vitaliy Davydovych e Samuel Santos para “desenvolver um projeto que fosse além do currículo académico do 12.º ano” e, assim, surgiu o Smoke The Fire, um sensor que pode ser colocado no topo de árvores e postes e alertar as autoridades, em tempo real, de uma ocorrência de incêndio.

A ideia valheu-lhes o primeiro lugar da 4.ª edição do prémio FAQtos, promovidos pelo INOV-INESC com o Instituto Superior Técnico (IST), que destacam a “aplicabilidade real do projeto e a atualidade do tema”.

O protótipo do dispositivo.

Com a orientação do professor de Física, Joaquim Almeida, estes três alunos da Escola Oliveira do Bairro, em Aveiro, criaram o sensor com o propósito de “minimizar a incidência de incêndios em Portugal”. Como? Através de um aparelho que deteta partículas e poeiras onde é colocado e que “envia as coordenadas espaciais e temporais do local do incêndio para os bombeiros ou algum intermediário”, explica Diogo Albuquerque.

Além de comunicar ocorrências em tempo real, o Smoke The Fire envia um duplicado das informações para o servidor do projeto, disponibilizando-as em tempo real num mapa interativo. O aparelho utiliza um LED que emite luz na gama do espetro infravermelho. Por sua vez, a luz é “refletida na poeira e recebida num fotodíodo, que determina ou não a existência de poeiras [de fumo] na atmosfera”.

A intenção é colocar o dispositivo no topo de árvores e postes de eletricidade. Mas será camuflado: por um lado, para não ser roubado ou vandalizado por incendiários e, por outro, para manter “o ecossistema equilibrado de modo a que os animais não interfiram com o sistema”.

Os alunos ainda não passaram à efetiva aplicação do projeto, mas já realizaram um simulacro de incêndio em parceria com os Bombeiros Voluntários de Oliveira do Bairro e o resultado foi muito positivo: a resposta do dispositivo foi quase imediata e permitiu “a ação dos bombeiros numa fase precoce do incêndio”.

Além do primeiro lugar no prémio FAQtos, estes três jovens já são reconhecidos no estrangeiro, com uma menção honrosa arrecadada no “Ciencia En Acción”, que decorreu em Espanha e que os “incentivou a aprimorar a ideia para que pudesse ser posta no mercado”.

O grupo está, também, a trabalhar num projeto chamado ProperAir, uma pulseira inteligente capaz de detetar gases constituintes da atmosfera e “alertar o utilizador para potenciais gases perigosos para a saúde humana”, explica Diogo, acrescentando que pode ser direcionado, por exemplo “a mineiros, trabalhadores das petrolíferas e bombeiros”.

Uma floresta inteligente

Uma ideia semelhante partiu do projeto SmartForest, e garantiu à equipa o prémio Ericsson no Big Smart Cities. Trata-se de uma rede de sensores autónomos, também colocados em árvores, “que estão constantemente a recolher e a enviar dados ambientais para um sistema central, assim que a informação chega é processada, analisada e disponibilizada para o utilizador”, explica Eduardo Henriques, um dos co-fundadores do SmartForest.

A intenção é ajudar a mitigar as consequências dos fogos florestais, nomeadamente através da predição e deteção precoce dos mesmos (…) Pretendemos produzir uma solução de baixo custo e sem necessidade de infraestrutura tradicional (cabos de eletricidade, cabos de rede, postes).”

A diferença está na capacidade e na implementação: os sensores deste projeto não detetam só partículas de fumo, mas também fatores ambientais que possam determinar situações meteorológicas adversas (nomeadamente a humidade do ar e a temperatura). Estes dados são recolhidos numa plataforma, adaptada a cada cliente.

O serviço terá um custo de implementação, “variável dependendo da área, da capacidade, de uma série de fatores”.

A equipa por detrás do SmartForest reconhece a aplicabilidade da ideia e a sua diversidade — pode, por exemplo, ser utilizada na agricultura. Contudo, todos têm empregos e a dedicação ao projeto é feita nas horas livres. Da mesma forma, o SmartForest não recebe quaisquer apoios financeiros, sem contar com o prémio de 2.500 euros angariado no Big Smart Cities.

É tudo feito por nós, no nosso tempo livre. E sai do nosso bolso”, garante Eduardo.

Se o SmokeTheFire se concentra apenas e só na prevenção e combate aos incêndios, os sensores da SmartForest podem ser aplicados em qualquer panorama de gestão de território florestal, público ou privado: “Neste momento estamos focados neste problema dos incêndios, mas a plataforma é flexível o suficiente para outras utilizações”, garantiu Eduardo.

A equipa espera ter um protótipo funcional e em fase de testes até ao final do ano e, para isso, já fez contactos com entidades que gerem o espaço florestal como, por exemplo, a Tapada de Mafra.

“Porquê arriscar a vida?”

E se os alunos da secundária de Aveiro desenvolvem um sensor, os universitários vão mais longe. Uma equipa da Universidade de Aveiro desenvolveu a HART – Human Aid Robotic Technologies, uma empresa que desenvolveu um protótipo de robô “para ajudar em cenários de catástrofe, em cenários que apresentem riscos para o ser humano”. O trunfo deste robô é a capacidade de “sensorização do ambiente” e a criação de um modelo visual, explica o CTO da empresa, Pedro Martins.

A ideia surgiu quando pensaram em cenários de catástrofe: “Porquê arriscar a vida no reconhecimento do interior de um edifício?” O HART será capaz de ser utilizado e inserido em situações desconhecidas ou perigosas, de forma a reconhecer o ambiente que o rodeia, os obstáculos, e apresentar um modelo simples e informativo do cenário às autoridades.

O robô vai ser apresentado em outubro (Crédito: HART)

O HART utiliza sensores de humidade, temperatura, deteção de chamas e monóxido de carbono – até aqui tudo normal. A diferença é marcada por um sensor LIDAR – um sensor ótico ” que mede a distância entre dois pontos, usando um laser”, esclarece Pedro. A equipa desenvolveu um sistema rotativo que integra este laser para ” renderizar da forma mais fiel possível um modelo 3D” do que o rodeia.

Esta imagem mostra um dos testes do sensor LIDAR (Crédito: HART)

Em situações de incêndio urbano (ou até mesmo florestal), o HART poderá ser útil em zonas de perigo ou difícil acesso, dando às autoridades uma imagem daquilo que os espera. O projeto continua a ser desenvolvido e melhorado e vai ser apresentado no Techdays, de 12 a 14 de outubro.

Texto editado por Edgar Caetano