Apontado como um dos principais males da indústria automóvel, responsabilizado por muita da poluição que os automóveis produzem, o motor de combustão a gasóleo está actualmente na mira não só de muitos governos, como também das instituições europeias. Do outro lado da barricada, surge, em particular, não só um dos motores do projecto europeu, a Alemanha, mas principalmente o fabricante germânico Mercedes-Benz. Porquê? Já lá vamos.

No seio da União Europeia, a Alemanha tem sido um dos Estados-membros que mais tem procurado travar os desejos de acabar com o diesel já assumidos por alguns países, como a França ou o Reino Unido. A começar e desde logo, devido ao peso que este tipo de veículos tem nas vendas de carros novos (entre 40 a 60%) e em termos de contribuição fiscal – não só para o governo federal, como também para os diferentes estados. Motivo pelo qual alguns estados terão, inclusivamente, já chegado a acordos de princípio com fabricantes automóveis como a Audi, a BMW, a Mercedes-Benz, a Porsche e a Volkswagen, comprometendo-se a não proibir a venda de veículos com motores a gasóleo, mas tão-só restringir a sua circulação nalgumas zonas. Em contrapartida, os construtores assumem o compromisso de envidar todos os esforços no sentido de reduzir, verdadeiramente, as emissões de gases poluentes.

Entre os fabricantes, a Mercedes-Benz surge como o construtor que mais se tem esforçado no sentido de alcançar plataformas de entendimento. Embora não tanto pelos milhões de euros que, a exemplo dos restantes concorrentes, poderá ser forçada a gastar na revisão massiva dos seus motores diesel, visando uma redução significativa das emissões de NOx, mas principalmente devido ao anúncio feito há não mais do que um ano, segundo o qual se preparava para investir 2,6 mil milhões do desenvolvimento de novos blocos turbodiesel. Investimento que, entretanto, já começou e que, como tal, a marca da estrela não pode agora permitir que, pura e simplesmente, seja deitado à rua.

Num evento recente com a imprensa, o CEO da Daimler, Dieter Zetsche, voltou a frisar que “o diesel é algo por que vale a pena lutar”. Afirmação que, no caso da marca de Estugarda e ao contrário do que acontece noutros fabricantes, encontra justificação não apenas nas vendas de veículos ligeiros, mas principalmente nos comerciais, autocarros e camiões – soluções de transporte em que, recorde-se, praticamente só existe o diesel e nas quais a Daimler é líder de vendas.

Aliás, sobre a Divisão de Camiões Daimler, importa não esquecer que engloba cinco marcas – Mercedes-Benz, Freightliner, FUSO, Western Star e BharatBenz -, as quais, só em 2016, facturaram um total de 33.817 milhões de euros, com um lucro antes de impostos de 1.948 milhões. Já a divisão de comerciais ligeiros, terminou o último ano com resultados de 12.835 milhões de euros, com um lucro antes de deduzidos os impostos de 1.170 milhões – uma subida de 33% face a 2015. Sendo que estes valores, basicamente, igualam em rentabilidade a divisão de automóveis ligeiros. Finalmente, os autocarros, garantiram à Daimler um lucro de 249 milhões de euros.

Somados os resultados destes três sectores, só a Divisão de Camiões Daimler representou, no ano passado, 36% do total da facturação com veículos (de fora ficam, por exemplo, os serviços financeiros) e 29% da totalidade dos lucros do grupo. Percentagens, sem dúvida, avultadas nos resultados de um fabricante que, claramente, continua a depender muito do diesel.

Assim e apesar de desafios já assumidos para o futuro, como é o caso, por exemplo, do investimento numa nova geração de veículos eléctricos, e apesar do mesmo Dieter Zetsche já ter afirmado taxativamente que está “convencido, tal como o resto da indústria automóvel, que estamos a caminho da mobilidade eléctrica”, a verdade é que, para o grupo Daimler, este é um trajecto que para ser feito, preferencialmente, com a companhia do diesel. Até porque, de todos os fabricantes alemães, é aquele que parece ter mais a perder com o seu desaparecimento.