Escrevo 24 horas depois do acidente de avioneta que fez dois mortos em São João da Caparica. Já tinha contado – a quente, em rádios e televisões – a minha versão dos factos, mas ainda não tinha analisado com calma o que aconteceu, apesar de não conseguir pensar noutra coisa.

Eis o que vi: eu e o meu filho estávamos a jogar à bola com outro pai e uma criança sensivelmente da mesma idade. A maré tinha acabado de vazar e a areia molhada estava cheia de gente, embora não tão cheia quanto estaria num fim de semana. De repente, o outro pai, que estava de frente para a avioneta, fez um esgar de horror; pegou no filho ao colo e empurrou o meu para o mar. Virei-me e vi a avioneta a tocar terra. Imediatamente depois, atropelou alguém (vim a saber depois que era um homem de 56 anos) e a seguir uma menina, mesmo à minha frente. Não me lembro de ter corrido, mas sei que consegui afastar-me o suficiente para não ser colhido também. O Cessna C152 passou por cima do nosso campo de futebol improvisado e parou, finalmente, cerca de 50 metros por trás da baliza defendida pelo pai que tinha acabado de salvar o meu filho.

Como tantos outros banhistas, o homem saiu a correr da zona de banhos e abandonou a praia, provavelmente em estado de choque. Espero que leia este texto, porque não tive oportunidade de lhe agradecer – e não só por ter protegido o meu filho: se não fosse por ele, eu não estaria agora a tentar pôr as ideias em ordem, estaria certamente pior. A minha reação foi mimética: pegar no meu filho e fugir para os chapéus de sol. Depois, comecei a enviar mensagens a colegas jornalistas. Dar o alerta e oferecer o meu testemunho foi a forma que encontrei para processar o que tinha vivenciado, um contributo que me ajudou a enfrentar a impotência e a agitação sentidas na sequência do acidente.

Não acompanhei os momentos de tensão à volta da avioneta – vi-os mais tarde num vídeo amador, repetido até à exaustão pelas televisões. Entendo a indignação de alguns e aplaudo a intervenção do basquetebolista do Benfica, cuja simples presença e envergadura ajudaram a proteger os tripulantes. Graças, em parte, a ele, não houve mais tragédias.

Às tantas, os nadadores-salvadores, polícias e bombeiros que foram chegando à praia não tinham mãos a medir para evitar os mirones que se aproximavam, não só da avioneta, mas também dos corpos inertes. Mais estranho do que ver curiosos a fotografar cadáveres foi a indiferença com que muitos banhistas encararam a tragédia: namorados aos beijos a cem metros do local do acidente, pessoas a beber cocktails nos bares com vista para o Cessna…

Hesitei quando recebi um convite para ir ao Jornal das 9 da SIC Notícias, mas acabei por aceitar. Umas horas mais tarde, recebi – através do Facebook – o ataque de um “troll” (felizmente, único até à data) que me acusava de uma série de palermices. O mais triste é que o ataque, além de gratuito e desinformado, era muito mais absurdo do que aquilo que, alegadamente, pretendia denunciar. Eu tinha hesitado em ir à SIC porque falar é expor-se, e expor-se é sempre um risco. Mas também era uma forma de dar uma versão apurada dos factos, e a minha posição durante a aterragem dificilmente poderia ser mais próxima: em vinte anos de jornalismo, nunca tinha estado tão em cima do acontecimento – e espero não voltar a estar.

Por uma vez, assisti a tudo e acompanhei todas as fases da notícia. Na manhã seguinte, milhares de pessoas que não estiveram naquela praia – e não tinham estado perto de morrer – emitiam todo o tipo de opiniões contundentes sobre os tripulantes, a intervenção das forças de segurança e os serviços de emergência, a cobertura mediática e, pior que tudo, o discurso do pai da menina morta entrevistado em direto por uma televisão, menos de duas horas depois da tragédia.

Nestas alturas, é bom lembrar a regra de ouro da ética: não faças aos outros o que não desejas que te façam a ti – ou, neste caso, não digas dos outros o que não gostarias que dissessem de ti. É péssima ideia julgar ou avaliar o que um pai, naquelas circunstâncias, possa fazer ou dizer. O cunhado faz bem em tentar interromper a diatribe, porque receia que se possa virar contra ele, mas há poucas coisas mais humanas e mais naturais do que desabafar depois de uma desgraça, quando não há mais nada a fazer. Apesar da revolta e da dor, o pai consegue enumerar “os quatro objetivos” que tem na vida a partir desse momento – todos eles racionais, por sinal (não sei se errados ou acertados, mas no mínimo compreensíveis).

Uma das grandes questões a debater é, para citar este jornal, se a avioneta devia “aterrar no mar ou num mar de gente”. Mais uma vez, é arriscado julgar, mesmo tendo estado lá. Acredito que o tempo e a margem de manobra fossem mínimos, e entendo que a preocupação dos responsáveis pelo voo (tanto os tripulantes como os que estavam na torre de controlo) fosse encontrar onde pousar a aeronave em segurança. Mas as únicas opções eram o mar ou uma praia cheia de banhistas desprevenidos, e o que é certo é que, por mais pesadas que sejam as consequências para os ocupantes da aeronave, eles saíram ilesos e duas pessoas morreram – outra situação que levanta inúmeras questões éticas.

Eles, tal como eu, viveram para contar o que se passou. E só quem esteve lá pode entender o que se sente quando a morte nos toca, ou nos roça, tão de perto.