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Vodafone Paredes de Coura

Benjamin Clementine: o “fim do mundo” e um cravo

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O artista britânico participou num conferência de imprensa onde falou do novo álbum, de guerras e "bullying". E disse que encontrou em Portugal "as pessoas que procurei a minha vida inteira".

Benjamin Clementine atua este sábado no palco principal do Vodafone Paredes de Coura

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Benjamin Clementine tornou-se, nos últimos anos, numa daquelas figuras míticas da música europeia. A história de como acabou por dormir nas ruas de Paris para depois ser descoberto por um agente que apostou nele, comoveu milhares, mas foi acima de tudo a sua música e o talento nato com que nasceu que convenceram multidões um pouco em toda a parte. O seu primeiro álbum, At Least For Now, recebeu em 2015 o prestigiado Mercury Prize e levou o músico e compositor britânico a todos os cantos do mundo. Desde então, passou por Portugal em várias ocasiões e, este sábado, regressa ao país para um concerto no festival Vodafone Paredes de Coura. A atuação acontece a pouco menos de um mês do lançamento do seu novo álbum, I Tell A Fly.

I Tell A Fly, com data de lançamento marcada para 15 de setembro, é muito diferente de At Least For Now, mas isso não é necessariamente uma coisa má. Desde 2015, Benjamin Clementine cresceu e a sua música tornou-se mais complexa, mais densa, e deixou de rodar em torno de si próprio. I Tell A Fly é, por isso, um disco sobre o presente, o “fim do mundo”, como ele próprio o descreveu durante a conferência de imprensa este sábado em no Centro Cultural de Paredes de Coura, durante a qual respondeu a algumas perguntas dos jornalistas. Há referências à guerra na Síria e metáforas que servem para descrever a situação atual que a Europa e o mundo atravessam. O piano, apesar de presente, afastou-se para dar espaço ao cravo, esse instrumento tão europeu que faz lembrar Bach e coisas de outros tempos.

“Quando falas sobre ti, sobre a tua história, se calhar depois está na altura de falar sobre outras pessoas e sobre tudo o que estamos a passar”, disse Clementine, referindo-se ao novo álbum

Em conversa com os jornalistas, Benjamin Clementine explicou que a ideia para o álbum surgiu depois de ter pedido um visto de entrada nos Estados Unidos da América. Isso fez com que se sentisse um “alien” e, então, começou a escrever como se o fosse de facto — “para gozar com o facto de ser chamado de alien pelos norte-americanos” e porque, em boa verdade, “somos todos aliens”. “Somos de toda a parte e não de um lugar específico.” Para conseguir transmitir o que lhe ia na cabeça, o músico começou por escrever uma peça de teatro, apesar de “ainda não ser um dramaturgo”. “Achei que a maneira de fazer as pessoas perceberem de onde é que isto vinha era escrevê-lo como uma peça.” Questionado por uma jornalista sobre se pretendia um dia dedicar-se ao teatro, Clementine admitiu que ninguém se transforma num dramaturgo num ano. “São preciso vários anos”, afirmou, acrescentando que admira autores como Samuel Beckett.

Ao contrário do que aconteceu com At Least For Now, em I Tell A Fly Benjamin Clementine não quis falar sobre si, sobre a sua história ou os seus problemas. “Achei que tinha algo para dizer”, afirmou durante a conferência de imprensa. “O primeiro álbum era sobre mim, a minha vida, e sobretudo sobre Paris. Era sobre o passado. Quando falas sobre ti, sobre a tua história, se calhar depois está na altura de falar sobre outras pessoas e sobre tudo o que estamos a passar.” Por essa razão, o novo disco fala sobretudo do presente, mas sem nunca enveredar pelos caminhos tortuosos da política. Para Clementine, é um álbum “muito humano”. “Falar de ‘paz’ ou de ‘guerra’ não é político para mim”, explicou. “Estou a tentar escrever qualquer coisa sobre o meu tempo, mas sem fazer figura de idiota. É isso que estou a tentar fazer.”

Para isso, decidiu recorrer um instrumento que nunca tinha utilizado antes — o cravo, presença constante ao longo do álbum. Sobre esta questão, Benjamin Clementine afirmou que a escolha se deveu ao facto de ser “europeu”. “Pareceu-me que a melhor maneira de escrever músicas, um álbum sobre o meu tempo era usar um instrumento como o cravo porque é um instrumento europeu”, disse. “Não me posso ficar pelas palavras, tenho de usar instrumentos que me ajudem a levar as minhas palavras para outro plano. Usei o cravo em músicas que falam sobre o que se passa na Europa. Senti que tinham de ter cravo.” Além disso, recorrer sempre ao mesmo instrumento — que neste caso é o piano — pode tornar-se aborrecido. “Temos de experimentar outras coisas”, brincou.

Benjamin Clementine falou com alguns jornalistas durante a tarde de sábado, no Centro Cultural de Paredes de Coura

Apesar da fama que alcançou nos últimos anos, Clementine admitiu que isso nunca pesou nas decisões que teve de tomar relativamente ao segundo álbum. A única coisa que teve na cabeça durante todo o processo era que tinha algo para dizer. Uma vontade que, mais uma vez, foi provocada pelo visa norte-americano. “Quando pedi o visa, isso desencadeou em mim uma vontade de dizer muitas coisas”, disse, explicando que quando isso acontece, é normal não nos preocuparmos com o que as outras pessoas pensam. “Só queremos deitar cá para fora.”

Falar de uma guerra para falar de outra

Em “Phantom Of Aleppoville”, quarto tema do novo álbum onde o cravo se mistura com a doce melodia do piano, Benjamin Clementine decidiu usar uma metáfora para se fazer entender — a metáfora do bullying. “Quis fazer com que as pessoas em Inglaterra e na Europa se conseguissem relacionar [com a guerra na Síria] através do bullying”, disse, acrescentando que o este é um problema sério em Inglaterra e que não consegue entender como é que muitos pais preferem não fazer nada em relação ao assunto. “Uma criança devia voltar para casa e sentir-se protegida e segura”, afirmou.

“As crianças são vítimas de bullying e vão para casa e não conseguem dizer nada aos pais. E não o dizem porque têm medo de ser repreendidos ou que os pais informem o diretor da escola. E, nesse sentido, isso também é bullying. Não há só bullying na escola, há também em casa”, acrescentou. Admitindo que foi também vítima de bullying quando era criança — algo que ainda hoje o assombra –, Clementine explicou que um dos seus livros favoritos fala do problema comparando-o a uma guerra, o que fez com que chegasse à conclusão que o tema seria uma boa forma de abordar a questão da Síria.

“Achei que se escrevesse uma música sobre o nosso tempo era melhor falar de crianças”, comparando o que se passa em Alepo com a questão do bullying, do qual muitas vezes não se consegue escapar. Nunca. “Ainda hoje, quando vejo crianças a um canto, fico com medo porque penso que eles podem rir-se de mim ou fazer-me alguma coisa. Muitas vezes passo para o outro lado do passeio, e tenho 28 anos”, confessou o músico. “Mesmo [que estas crianças] consigam escapar de Alepo, será que algum dia vão conseguir ter uma vida normal?”

Questionado sobre se pensou muito na sua infância enquanto compunha o álbum, Clementine admitiu que sim e que nem seria possível escrever alguma coisa que não significasse nada para si. “Queria que fosse pessoal, mas queria que as pessoas conseguissem fazer a sua interpretação da música. É óbvio que não poderia criar algo se não significasse nada para mim.”

“Começo a achar que encontrei [em Portugal] as pessoas que procurei a minha vida inteira”

Questionado sobre as expectativas que tinha em relação ao concerto deste sábado em Paredes de Coura, Benjamin Clementine defendeu que os britânicos são muito parecidos com os portugueses e que em Portugal existe uma cultura capaz de perceber a sua música. “Parece-me que a vossa cultura está cheia de música — de música sentimental, melancólica. É como se estivesses a ter uma conversa com quem está a cantar”, afirmou, acrescentando que começa a achar que encontrou entre os portugueses as pessoas que procurou a “vida inteira”.” Ficava muito contente por vir viver para cá”, disse entre risos. “Vocês percebem-me. É o que desejo que aconteça em cada sitio a que vou.”

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Texto de Rita Cipriano, fotografia de João Porfírio.
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