Os valores assustam: morreram 736 crianças por excesso de calor, ao serem abandonadas pelos seus progenitores, nos Estados Unidos da América, dentro dos veículos que as transportavam. Isto só nos últimos 19 anos. E esta média persiste, pois só em 2016 faleceram mais 39 inocentes e, este ano, já vai em 36 o número de óbitos, alguns dos quais deixados dentro de carros expostos ao sol propositadamente – o que obviamente é crime e há pais presos por isso mesmo –, mas a esmagadora maioria apenas por esquecimento.

Este número de casos deverá ser apenas a ponta do icebergue, pois a ele terão de ser somados os referentes às crianças salvas a tempo, bem como todas as restantes que, falecendo, são descobertas pelos próprios pais, longe da atenção dos media e de testemunhas.

Os EUA tentam aprovar uma lei que obrigue os construtores a desenvolverem tecnologias que impeçam os pais de esquecer os filhos dentro dos carros

A situação é de tal forma preocupante que o Governo americano se viu obrigado a tomar medidas, em forma de lei, denominada Hot Cars. A nova directiva tem ainda de ser discutida e aprovada, mas o objectivo é obrigar os fabricantes a investirem uns milhões largos para impedir os pais de se esqueceram dos filhos.

Tal como está prevista, a Hot Cars Act prevê um período de quatro anos para que os construtores cheguem a acordo e implementem sistemas que impeçam uma criança de ficar para trás esquecida. Os quatro anos são divididos em dois períodos de igual duração, o primeiro para decidir qual a melhor solução, para os dois anos seguintes serem utilizados para tornar as medidas obrigatórias em todos os carros novos em comercialização.

Este é apenas o calendário do mês de Julho, onde figuram os nomes das crianças que perderam a vida por excesso de calor dentro dos carros, por distracção dos progenitores. E todos os anos há, em média, mais 38 casos de morte

Até à nova lei estar em vigor, vale às crianças americanas algumas decisões dispersas, tomadas por alguns estados de forma avulsa, como os 15 minutos tempo limite para deixar uma criança dentro de um carro na Florida – estranha lei, tanto mais este estado, juntamente com o Texas, chama a si 25% de todas as mortes por hipertermia –, a decisão da Califórnia em considerar uma violação de trânsito abandonar uma criança com menos de 6 anos dentro de um veículo, ou o Tennessee e o Nevada, que consideram crime abandonar uma criança com menos de 7 anos no interior de um carro, quando isso não for seguro ou o motor estiver a trabalhar.

E na Europa como é?

Também há casos de hipertermia na Europa e se há boas notícias por um lado, há más por outro. Segundo a European Child Safety Alliance (ECSA), só em França e na Bélgica houve 26 casos detectados – mais uma vez, temos de ter em consideração os casos que não são detectados – de abandono de crianças dentro dos automóveis, sete das quais faleceram, um valor inferior ao americano, mas não tão inferior se considerarmos o número de habitantes, que nos EUA é de 323 milhões e que nestes dois países do Velho Continente não ultrapassam os 78 milhões (67+11). Feitas as contas, dá uma média de 29 fatalidades, contra as 38 americanas.

A Europa não está muito melhor no capítulo do abandono das crianças dentro dos carros, segundo a European Child Safety Alliance

Mas este valor ligeiramente inferior de mortes na Europa (calculada a partir apenas destes dois países), que é a notícia positiva, é ensombrada pela notícia negativa igualmente fornecida pela ECSA: 54% dos pais deixaram intencionalmente os seus filhos dentro do carro, com os restantes 46%, pura e simplesmente, a esquecerem-se deles. Este valor parece ser superior ao verificado nos EUA.

De caminho, a ECSA chama a atenção que, quando exposto ao sol, a temperatura dentro de automóvel sobe entre 10 a 15ºC em cada 15 minutos que passam, e que a temperatura do corpo de uma criança sobe três a cinco vezes mais rapidamente do que a de um adulto, devido à menor reservas de líquidos. Recorda ainda este organismo europeu que a hipertermia pode ter lugar num dia relativamente fresco (22ºC), pois isso não impede que os valores dentro do veículo atinjam rapidamente os 47ºC, salientando que se a hipertermia pode ter lugar após uma exposição de apenas dois minutos, a morte acontece em cerca de duas horas, mesmo com as janelas ligeiramente abertas.