Cheong Seong Chang é analista do Instituto Sejong e um dos mais experientes na análise das entrelinhas políticas do regime norte-coreano, além de ser assessor do ministério da unificação da Coreia do Sul. Chang garante que o atual líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, “é muito distinto e muito mais perigoso que o pai” e que é bem capaz de “utilizar uma bomba nuclear, se a tiver”.
Em entrevista ao La Vanguardia, o especialista sul-coreano considera que o pai do supremo líder via no armamento nuclear uma alavanca nas relações políticas internacionais: “Kim Jong-il usava a pesquisa nuclear como um instrumento nas relações internacionais do país e como escudo à liderança da sua família. Inclusivamente chegou a dizer aos norte-americanos que estava disposto a abandoná-la”.
Contudo, a tática do filho revelou-se mais pragmática e menos especulativa. “O objetivo do filho passou a ser mesmo conseguir uma bomba nuclear. Por isso, não se sentou uma única vez para negociar com outros países”, explica Chang, que reforça: “É um homem muito perigoso que pode provocar uma guerra e, se conseguir a bomba, pode utilizá-la”.
Para Chang é ainda importante que a Coreia do Sul adote medidas mais firmes, de forma a não estar “à mercê dos interesses dos Estados Unidos e da China”. Para o sul-coreano a solução passa por dotar as forças armadas da Coreia do Sul de armamento nuclear. Explica ainda que a sua visão resulta da crescente insistência e impasse nas negociações: “Se Pyongyang chegar a desenvolver mísseis balísticos intercontinentais, nós [sul-coreanos] somos os mais ameaçados”. Recorde-se que a Coreia do Sul não tem armamento nuclear e que grande parte da sua capacidade de resposta militar é dependente dos parceiros estratégicos (como os EUA e o Japão).
As opiniões de Chang vão contra as do atual presidente sul-coreano, Moon Jae-in, que foi eleito com base numa campanha de reunificação e de diálogo com Pyongyang, mas não deixam de ser escutadas com atenção. É que Chang é assessor do ministério da unificação, um órgão sul-coreano criado para facilitar as comunicações com o Norte com vista a pôr fim às tensões entre os dois países.
Tudo depende da China. Se Pequim continuar a bloquear o embargo do petróleo ao regime de Kim Jong-un, a Coreia do Sul não terá nenhum remédio senão reforçar as suas capacidades militares”, avisa
Para o analista sul-coreano a única forma de interromper a tendência de conflito é através da pressão da comunidade internacional, descartando a teoria de que possa existir uma revolta interna: “Depois da morte de Kim Jong-il muitos disseram que o regime não duraria. Foi uma análise errada. Kim Jong-un contra com um forte apoio popular”.
Destaca ainda que a tática de agravamento de sanções (prática recorrente em resposta aos testes nucleares) pode resultar mas só se a China se aliar ao resto do mundo e bloquear todas as importações de petróleo para a Coreia do Norte.
Com sanções, as importações bloqueadas e os meios em escassez, “a população deixaria de apoiar o regime” e, logo a seguir, “o exército [principal pilar de Kim Jong-un] começaria a desafiar a ordem”. Apesar dos riscos e tensões em jogo, Chang acredita que a probabilidade de uma guerra na península coreana “é todavia muito baixa. Ninguém quer uma guerra”, explica.
Nesse cenário, Pyongyang poderia dar o primeiro passo, mas não teria capacidade de aguentar uma guerra de longa duração. Também os Estado Unidos poderiam lançar uma missão para assassinar o líder norte-coreano, mas a retaliação contra os aliados sul-coreanos e japoneses seria uma mancha difícil de apagar do currículo norte-americano.
Tudo isto dito numa altura em que as atenções se centram na escalada de tensões na península coreana e, paralelamente, em Washington. Esta terça-feira em Nova Iorque, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, apelou ao fim do uso e desenvolvimento de armamento nuclear. Criticou duramente as políticas de Pyongyang e, aos Estados Unidos, limitou-se a admitir que enquanto país detentor de armas nucleares “tem uma grande responsabilidade” na ordem mundial e deve fazer acompanhar-se de calma e ponderação. Minutos depois, o presidente norte-americano Donald Trump disse estar pronto para “destruir totalmente a Coreia do Norte” e o seu líder, Rocketman [homem-foguete].


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