Mireia Belmonte tem 26 anos, que a cara de miúda continua a esconder bem, e já é considerada a maior nadadora espanhola de sempre. Aliás, e no desporto do país, só mesmo Rafa Nadal consegue atualmente ter mais destaque do que a campeã olímpica no Rio de Janeiro, que este ano foi aos Campeonatos do Mundo ganhar um ouro (200 metros mariposa) e duas pratas (1.500 metros livres e 400 metros estilos). Em julho, numa entrevista ao El Mundo, pediram-lhe uma opinião sobre o que se passava na Catalunha mas a catalã nascida em Badalona não se atirou para fora de pé. “Não gosto de opinar sobre isso, digo sempre que Catalunha é Espanha”, resumiu.

A Madame Butterfly, alcunha que recebeu pelo domínio na mariposa, representa aquilo que o país toma como exemplo: a história de uma menina que foi para as piscinas por causa de um problema de saúde, que evoluiu de forma humilde e a fazer sacrifícios, que se tornou campeã mundial e olímpica, que continua a frequentar a licenciatura em Publicidade e Relações Públicas, que chegou a heroína mantendo uma vida “normal”. E é também por ter noção daquilo que representa que nunca abdica do “politicamente correto” nesta questão. “O que digo sobre as pessoas que assobiam o hino? Que todos são livres para se expressarem como quiserem, mas uma coisa é desporto e outra é política. Não acredito que se possam juntar”, salientou numa clara separação das águas.

Mireia Belmonte ganhou um ouro e duas pratas nos últimos Mundiais de natação, na Hungria (Adam Pretty/Getty Images)

A Catalunha tem um peso enorme em Espanha a nível desportivo, também por culpa dos Jogos Olímpicos de Barcelona, que revolucionaram por completo o fenómeno no país (só para se ter ideia do “salto”, a delegação espanhola passou de um ouro e quatro medalhas em 1988 para 13 ouros e 22 medalhas em 1992). E uma importância que supera, largamente, a realidade que tem sido discutida em torno do futebol. Mas, tal como Mireia, muitos outros desportistas catalães evitam pronunciar-se sobre a possível declaração unilateral de independência. E a melhor explicação veio de Piqué: “Independência? Não posso pronunciar-me sobre isso porque os futebolistas têm uma imagem global. Há um problema em Espanha que vai mais além e é preciso diálogo”.

Marc Márquez, o prodígio de 24 anos do motociclismo que venceu em 125cc e 250cc e é atualmente tricampeão mundial de Moto GP, é outro bom exemplo. Nascido em Cervera (Lleida), recusa abordar o assunto também porque a eventual independência da Catalunha terá efeitos indiretos sobre si, como explica o Diário Gol. “Tudo o que se está a passar afeta-me como cidadão mas não entendo o suficiente para emitir uma opinião, prefiro guardar para mim”, disse. Mas o que está aqui também em causa? Como grande parte das receitas do próprio e da Honda advêm dos fãs e do merchandising, tomar partido poderia trazer dissabores.

Marc Márquez, tricampeão mundial do Moto GP, lidera de novo o campeonato deste ano (JAVIER SORIANO/AFP/Getty Images)

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Assim, todas as posições centraram-se apenas no referendo de 1 de outubro: de Piqué a Xavi (que agora joga nas Arábias), passando pelos irmãos basquetebolistas Pau e Marc Gasol ou pelo motociclista Pol Espargaró, foram muitas as vozes que defenderam a realização da consulta popular conforme tinha sido marcado e condenaram de forma veemente a atuação das forças policiais nesse dia. Mais do que isso, pouco ou nada. Mesmo havendo plena noção da influência da Catalunha nas principais equipas espanholas.

Do basquetebol (metade da equipa que foi terceira classificada no último Europeu é catalã: Guillem Vives, Pau Gasol, Marc Gasol, Ricky Rubio, Juan Carlos Navarro e Pierre Oriola) ao andebol (seis dos jogadores que estiveram no derradeiro Mundial nasceram na Catalunha: Valero Rivera, Víctor Tomás, Joan Cañellas, Viran Morros, David Balaguer e Adrià Figueras), passando pelo hóquei em patins (onde, à exceção do Liceo, todas as equipas de topo são catalãs) e pelas modalidades individuais (o tenista Marc López, o canoísta Saúl Craviotto, o lutador de taekwondo Joel González ou a supracitada Mireia Belmonte, todos medalhados nos últimos Jogos Olímpicos), a Catalunha mantém uma enorme preponderância no desporto espanhol a todos os níveis.

Piqué, o catalão que cria tempestades com o que diz e passa entre os pingos da chuva no que faz

No futebol, o “peso” até é menos vincado: em comparação com a equipa de 2012 que se sagrou bicampeã europeia, saíram das opções Valdés, Xavi e Fàbregas (Puyol tinha-se reformado antes) e entraram Bartra, Sergi Roberto e Deulofeu, olhando para todos os jogadores que participaram na qualificação para o Mundial de 2018. Piqué, Jordi Alba e Busquets mantêm-se seis anos depois nas escolhas do agora selecionador Julen Lopetegui.

Assim se explica que, no vídeo que foi feito antes do referendo, as únicas personalidades do mundo do desporto que deram a cara pela independência foram sobretudo ex-atletas e atuais treinadores, à exceção da velejadora Natalia Vía-Dufresne (medalha de prata nos Jogos de 1992 e de 2004). Anna Tarrés (natação sincronizada), Salva Maldonado (basquetebol) ou Sergi Ten (voleibol de praia) foram outros dos participantes. Porque, seja por questões de imagem ou de ordem financeira, têm mais a perder do que a ganhar. E porque, de forma concreta, é nesta altura impossível alguém competir no que quer que seja como catalão e não como espanhol (como o Comité Olímpico Internacional e várias federações já vieram explicar).