Benfica e Olhanense reencontraram-se esta noite no Estádio Algarve. E era incontornável recordar aquele jogo a 20 de abril de 2014, na Luz, naquele que foi o primeiro de quatro Campeonatos seguidos dos encarnados. Mas houve outro encontro recordado durante a semana: o 0-0 em 2011/12 na Primeira Liga, num confronto que colocou frente-a-frente Sérgio Conceição e Jorge Jesus, hoje rivais no FC Porto e no Sporting.

Emerson era então o lateral esquerdo das águias e, esta semana, em conversa com um jornal desportivo, recordou algumas incidências desse nulo que acabaria por penalizar o Benfica na corrida ao título com o FC Porto. E ainda hoje não esqueceu a “esfrega” que os jogadores levaram do presidente do clube, Luís Filipe Vieira, no final dessa partida. Mas o que é que isso pode ter a ver com o encontro de hoje, entre duas equipas com realidades diferentes e objetivos distintos (os algarvios estão no Campeonato de Portugal, o terceiro escalão)?

Aos 84 minutos, Tiago Jogo apanhou uma bola ali a jeito perto da área, descaído na direita, puxou a culatra atrás mas rematou muito por cima. Nas imagens seguintes, a Sport TV, que transmitiu o jogo, mostrava Luís Filipe Vieira a mexer-se na cadeira, desassossegado, a levar as mãos à cabeça. Isso significa que a vitória encarnada chegou a estar em perigo? Não. Nem se pode dizer que o Benfica teve de sofrer para ganhar. Mas, em parelelo, também não fez sofrer o adversário dada a sua natural superioridade. E esse foi o grande problema da equipa de Rui Vitória, que lançou Svilar e Douglas para as suas estreias, deu a titularidade a elementos como Krovinovic ou Gabriel Barbosa, mas não preteriu de pedras como Luisão, Grimaldo, Fejsa, Pizzi ou Seferovic.

Ficha de jogo

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Olhanense-Benfica, 0-1

3.ª eliminatória da Taça de Portugal

Estádio Algarve, em Faro/Loulé

Árbitro: Bruno Paixão (AF Setúbal)

Olhanense: Cléber Santana; Pedro Albino, Materazzi, Ivo Nicolau, André Dias; Tiago Jogo, Pedro Dias, Léléco; Januário (Rodrigo Parreira, 59′), Jefferson Encada (Mailo, 81′) e Galassi (Tiago Barros, 70′)

Suplentes não utilizados: Leandro Turossi, Pedro Caeiro, Fábio Felício e Hassan

Treinador: Bruno Saraiva

Benfica: Svilar; Douglas, Luisão, Rúben Dias, Grimaldo; Fejsa, Pizzi (Chrien, 66′); Krovinovic, Rafa (João Carvalho, 81′), Gabriel Barbosa (Diogo Gonçalves, 59′) e Seferovic

Suplentes não utilizados: Bruno Varela, André Almeida, Cervi e Raúl Jiménez

Treinador: Rui Vitória

Golo: Gabriel Barbosa (4′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Léléco (79′)

O encontro começou a um ritmo alucinante, com aquela velha máxima do ‘quem não marca, sofre’ bem latente para explicar os primeiros cinco minutos do encontro. O Olhanense beneficiou de uma oportunidade flagrante por Galassi, bem anulada por Svilar aos pés do avançado (2′); o Benfica respondeu de imediato: na sequência de um grande passe de Pizzi para as costas da defesa, Gabriel Barbosa teve um momento de Gabigol e, com um fantástico chapéu na área a Cléber (4′), inaugurou o marcador. Mais uma estreia, neste caso a marcar.

Galassi, logo no minuto seguinte, ainda voltou a obrigar Svilar para canto um cruzamento remate tirado após um livre lateral, mas o Benfica conseguiria mesmo agarrar no encontro e serenar os ritmos de jogo. Houve um remate de Rafa prensado na defesa visitada que levava selo de golo, após cruzamento de Douglas (12′), outro de Krovinovic a passar ao lado da baliza de Cléber (25′), mas os encarnados, que dominavam em todos os indicadores estatísticos, enfrentavam dificuldades para chegar à carreira de tiro e, de quando em vez, tinham de ver Jefferson Encada, extremo cedido pelo Sporting, a passar que nem uma mota por Douglas mas a falhar no último passe.

Na ponta final antes do intervalo, Douglas ainda teve um livre direto a passar perto do alvo (38′) e Rúben Dias, aproveitando uma bola que ficou a pingar na área, rematou isolado para uma defesa quase por milagre de Cléber (40′). A vantagem encarnada era justa? Sim, claro. Mas esperava-se mais do Benfica? Sim, óbvio.

Num discurso de confiança para dentro e acalmia para fora, Rui Vitória, no lançamento da partida, falara da importância das últimas duas semanas dedicadas às seleções para melhorar e corrigir alguns aspetos, da parte física à perspetiva técnica, passando ainda pela vertente tática e mental. Mas o que se viu foi um Benfica a assumir o domínio que lhe competia mas com algumas deficiências nos corredores laterais nas transições defensivas e dificuldades na criação de oportunidades no último terço. Seferovic, por exemplo, foi uma sombra. Mas não foi o único, longe disso.

O cenário manteve-se na segunda parte mas podia ter sido bem diferente: aos 51′, após mais uma correria desenfreada de Jefferson Encada a deixar para trás Douglas (bem a atacar, mal a defender nesta sua estreia onde andou ainda a apalpar terreno), Léléco surgiu isolado de trás a atirar muito perto do poste da baliza de Svilar.

Rui Vitória decidiu mexer. Lançou Diogo Gonçalves, retirou Gabriel Barbosa de campo. Estávamos quase a meia hora do fim. E o miúdo conseguiu dar um verdadeiro safanão no jogo, não só pelo míssil que enviou à trave de fora da área mas também, ou sobretudo, pela velocidade e esclarecimento que trouxe ao jogo ofensivo pelos corredores laterais. Chrien e João Carvalho, mais um miúdo da formação, tiveram outras entradas bem conseguidas, mas nada como o extremo que começou a cair em definitivo no goto após o último Mundial Sub-20. Mas o resultado não mais se iria alterar, apesar da crença algarvia em chegar ainda ao empate até ao último minuto de descontos.

Olhando para o que se passou em campo, o Benfica foi um vencedor justo e o Olhanense foi um digno vencido (aliás, joga demasiado futebol para não estar pelo menos na Segunda Liga). Mas percebendo as diferenças de valores e de orçamentos, aí pode dizer-se que os encarnados levaram apenas o resultado como ponto positivo da partida. Após duas semanas de trabalho intenso, esperava-se mais e melhor. Estará guardado para a receção ao Manchester United da próxima quarta-feira onde os encarnados estão proibidos de perder? A ver vamos. Porque mais uma derrota, que seria a terceira seguida, seria o equivalente a um quase certo afastamento da Champions. E a mais mãos na cabeça.