É uma imagem de Paulo Novais, fotógrafo da Lusa. Mostra-nos Marcelo Rebelo de Sousa a abraçar uma idosa, uma entre muitas que viveram de perto o pesadelo dos incêndios de 15 de outubro. Foi à chegada à Câmara Municipal de Oliveira do Hospital, onde o Presidente da República pronunciou um discurso marcante, brutal mesmo, ao dar voz a exigências que o país fazia mas a que o Governo fazia orelhas moucas.

@Paulo Novais/Lusa

É uma imagem que se junta a muitas outras que nos ficaram na retina deste Verão infernal, mas é sobretudo uma imagem que revela o abismo de diferença entre a forma como o Presidente sente o país, vive o país, e o modo como o primeiro-ministro gere a agenda política.

Critiquei muitas vezes Marcelo Rebelo de Sousa. Julgo que o critiquei mais vezes antes de ele ser eleito do que neste ano e meio em que ocupa o Palácio de Belém. Duvidei da efectividade da sua “política de afectos”. Mas a verdade é que, desde que o país começou a ser confrontado com o drama dos incêndios, percebi que a atenção que deu ao problema, a insistência com que regressou, e regressou, às zonas sinistradas, a forma como fez sempre questão de se inteirar no local, junto das populações, dos seus dramas, revelavam o melhor lado de Marcelo.

Pude testemunhar um desses momentos quando o Presidente fez questão de se associar a uma pequena cerimónia que assinalou uma doação de accionistas do Observador destinada a apoiar uma das freguesias mais afectadas, a de Alvares, em Góis. Desde esse dia que fiquei com a certeza que o Presidente não iria deixar cair o tema das responsabilidades políticas. Nem o das compensações às vítimas. Temas que retomou entre sábado, durante um encontro organizado pela Associação de Apoio às Vítimas, em Pedrógão Grande, fazendo-o com particular veemência e assertividade. Mas continuando a não ser ouvido por quem tinha de lhe dar ouvidos.

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Nessa altura também pude testemunhar como se emocionava de cada vez que era confrontado com as histórias daquela gente esquecida, como se mostrou disponível para furar o programa e andar com elas pela aldeia, a ouvir as suas histórias, a confortá-las, e como o fazia naturalmente, sem teatro.

Há mais imagens de ontem de uma imensa intensidade. Nomeadamente o momento em que Marcelo se encontra com uma idosa, que chama pelo nome, ela larga dois baldes e se abraça a ele, agradecendo ao “senhor Presidente” a visita e chorando ter perdido um filho, “a luz da minha vida, a luz dos meus olhos”. Vale a pena ver o vídeo e, também, a fotografia que também fixou esse momento (acima, na fotogaleria).

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Contudo, foi a imagem de um outro abraço que me chamou a atenção. Porque mostra o rosto de Marcelo. Porque revela um homem que, para além de toda a sua frieza política, tem sangue a correr-lhe nas veias. O seu luto não se manifesta apenas numa gravata preta – o seu luto é evidente em cada pormenor do seu rosto.

Minutos depois, ao falar ao país, começaria por dizer que “o Presidente da República é, antes de mais, uma pessoa”. Parece evidente, mas não é. E não é porque todos tínhamos – temos – ainda na retina o rosto de António Costa na comunicação ao país que fizera na véspera. Ou a sua voz monocórdica e os seus olhos inexpressivos durante uma visita ao hospital de Coimbra onde estão algumas das vítimas dos fogos de domingo.

Não concebo a política e o serviço público sem sentimentos. Não a imagino construída apenas por cálculo, habilidades e cinismo. Não duvido que não é possível chegar ao topo do Estado sem ter aprendido alguma coisa com Maquiavel, mas não se pode ficar apenas por aí, não pode ser apenas um exercício de sobrevivência.

Fizeram-se muitas leituras políticas da insistência do Presidente em continuar a visitar as áreas sinistradas, em repetir as suas intervenções públicas, e muitas foram seguramente certeiras.

Esta imagem mostra-nos mais do que essas leituras políticas. Mostra-nos a pessoa que é Marcelo Rebelo de Sousa. E ainda bem que assim é.