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Ataques, fantasias e Sócrates. O que disse Santana Lopes nas entrelinhas

Este artigo tem mais de 3 anos

A descodificação do discurso de candidatura de Santana Lopes. Os ataques violentos a Rui Rio, as fantasias sobre o seu próprio currículo e as memórias sobre a derrota com Sócrates. Por Miguel Pinheiro

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JOSÉ COELHO/LUSA

JOSÉ COELHO/LUSA

Rui Rio fugiu do Porto e apresentou-se em Aveiro, Santana Lopes fugiu de Lisboa e apresentou-se em Santarém. Mas as semelhanças acabam aí. Como Santana se esforçou por mostrar, os dois são muito diferentes. A acreditar nele, de um lado está o guardião da memória do partido, que esteve sempre presente; e, do outro, o oportunista que “virou a cara” ao partido e foi “dar o braço aos seus adversários políticos”. Nos seus ataques Santana, que quer “um PSD mais PPD”, acabou por cair em fantasias sobre o seu próprio percurso. E lembrou os seus confrontos com José Sócrates.

O discurso de Pedro Santana Lopes está a itálico e a interpretação e o comentário estão a amarelo:

“Senhor presidente da Câmara Municipal de Santarém (…)”

Pedro Santana Lopes começou o seu discurso a enumerar, de forma exaustiva, os cargos de todos os presentes: presidentes de câmara, presidentes de junta, deputados, dirigentes da JSD, dos TSD e das Mulheres Social-Democratas, e membros de comissões políticas distritais e concelhias, além do presidente da comissão de honra da sua candidatura, Rui Machete. Não foi uma preocupação de protocolo - foi uma forma de mostrar que tem consigo o aparelho do partido, e a História do partido também.

“Nós mudámos a data desta apresentação por razões que foram tornadas públicas. (…) Todos sabemos como estamos ainda devastados, e estaremos, porque é uma tragédia difícil de recompor, pela cicatriz profunda que deixa na alma nacional”.

Logo a abrir, uma referência à tragédia dos incêndios. E a utilização nada inocente da palavra "alma". Há dias, o Presidente da República também a usou, no seu discurso sobre os fogos, dizendo que "o fundamental é o que vai na alma de cada uma e de cada um dos portugueses".

“Falemos do PPD/PSD. Eu disse num congresso em 2005, quando cessei funções, que iria andar por aí. Nunca pensei que essa frase fosse tantas vezes citada, mas hoje quero dizer que estou aqui e vim para clarificar. Quero unir, como diz o lema de campanha, mas quero unir depois de clarificar. O PPD/PSD precisa disso e Portugal também. Aprendi em 2004 e 2005 que a legitimidade do voto não se herda, conquista-se. E por isso também estou aqui.

Em 2005, a frase "Vou andar por aí" foi entendida como uma ameaça (pelos inimigos de Santana) e como uma premonição (pelos amigos). Uns e outros vêem agora que se cumpriu a promessa que estava implícita nessa declaração: depois de "andar por aí", Pedro Santana Lopes voltou a "estar aqui". E, desta vez, não pretende cometer os erros do passado. Quando Durão Barroso o convidou a assumir o Governo em sua substituição, Santana insistiu que preferia ir a eleições - mas o futuro presidente da Comissão Europeia não o deixou. E Santana sabe que esse foi o começo da sua fragilidade, e da sua queda. Agora, quer fazer as coisas bem feitas.

“Quanto a 2004 e 2005, vou propor um pacto: eu não falo no passado, não vou falar, não vou comparar as causas da dissolução do Parlamento nessa altura com os factos e os acontecimentos que se seguiram, uns conhecidos na época outros conhecidos mais tarde, outros admitidos posteriormente e à espera de julgamento”.

É a primeira referência a José Sócrates, haverá outra mais à frente. A mensagem de Santana Lopes é clara: abateram o seu Governo por motivos espúrios para depois o substituírem por um primeiro-ministro que acabaria por ser acusado de corrupção passiva. Quando Santana e Sócrates se enfrentaram em campanha, o caso Freeport já era notícia (daí a referência aos factos "conhecidos na época"), mas não teve consequências eleitorais.

“Não vou comparar as circunstâncias dos governos que se seguiram, o que aconteceu, quer os governos imediatamente seguintes, quer os governos mais próximos ou o atual. Faço uma breve sugestão: assumam para todos aquilo que muitas vezes vejo escrito e vejo dito ao longo destes anos: ‘Ai, se isto fosse com o Governo de Santana Lopes’. Sigam esse mandamento. E por isso queria encerrar aqui essa referência ao passado, peço que todos tenhamos decoro e contenção. Eu por mim assim o irei fazer.

Santana Lopes sabe que o seu período como primeiro-ministro é a sua maior fragilidade. E sabe, ou presume, que Rui Rio, ou alguém por ele, aproveitará todas as oportunidades para lembrar os erros, os equívocos e as trapalhadas desse governo. Por isso, deixa já uma defesa e um aviso. A defesa: vejam o que veio a seguir a esse governo. O aviso: tenham "decoro e contenção".

“Somos um partido decente, um partido que honra a sua História, o seu património, os seus feitos, os seus momentos melhores e menos bons, mas que se honra, nomeadamente, do trabalho de salvação nacional feito por Pedro Passos Coelho e pelo seu governo. Por isso mesmo é preciso fazer esta clarificação. (…) O que digo agora e vou dizer nos próximos meses é o que sempre disse. Não o digo por ter entrado em campanha para a presidência do PPD/PSD. Não venho negar o que disse antes, não venho negar o que sempre tivessem dito de mim e eu nunca tivesse desmentido. Venho assumir quem sou e o que fui até hoje. Defendi ao longo destes anos o trabalho de Pedro Passos Coelho. Mesmo quando mais ninguém no espaço público dos chamados analistas ou comentadores o fazia. Fi-lo com honra e com sentido de responsabilidade perante o país”.

É o primeiro ataque frontal a Rui Rio. Santana acusa-o pelo que fez no passado: criticar, diretamente ou através de pessoas próximas, o trabalho de Passos Coelho. E pelo que faz hoje em dia: elogiar o ainda líder do partido só "por ter entrado em campanha para a presidência do PPD/PSD". Os passistas já deixaram várias vezes o alerta: quem criticar Passos não terá o seu apoio, nem o seu voto, nem o seu controlo do aparelho. Por isso, Santana Lopes lembra e insiste que Rui Rio foi sempre um crítico do atual líder. Não que ele próprio tenha sido um passista empedernido, mas, com a desistência de Luís Montenegro, tornou-se no mais próximo disso que existe na atual corrida.

“Nunca fui para a Aula Magna fazer sessões com o Bloco de Esquerda ou com Mário Soares”.

Regressa uma velha obsessão: José Pacheco Pereira, amigo e apoiante de Rui Rio. Santana não perdoa as suas críticas constantes ao partido e lembra que, em novembro de 2013, Pacheco Pereira participou numa iniciativa na Aula Magna que juntou militantes do PS, do PCP e do BE debaixo da figura tutelar de Mário Soares, contra o governo de Passos Coelho. Nem sempre este confronto saiu bem a Santana. No congresso do PSD de março de 2010, propôs que os estatutos criassem uma sanção contra os militantes que assumissem posições contra "as directrizes" do partido nos dois meses anteriores a uma eleição. Ficou conhecida como "a lei da rolha" e toda a gente sabia que se destinava a calar Pacheco Pereira. Ele não se calou e a "lei da rolha", que chegou a ser aprovada, sucumbiu à sensatez e ao bom senso. Não se percebe porque é que, hoje, Santana dá importância suficiente a Pacheco Pereira para o referir no discurso de lançamento da sua candidatura.

“Nunca fui para a Associação 25 de Abril ouvir elogios de Vasco Lourenço na altura em que o partido salvava Portugal da bancarrota. Nunca fui para a Fundação João Soares, com audiências de outros partidos, com nenhum companheiro de partido (só com um ex-companheiro de partido que agora disse que admitia regressar numa determinada situação), quando o PPD/PSD estava a chegar ao momento de conseguir a saída limpa, no termo da ajuda externa, dizer, cito, que ‘a democracia está mais difícil, estamos a caminho de uma ditadura corporativa’ e fazer coro com os grandes adversários do meu partido. Nunca o fiz”.

Em dezembro de 2013, Rui Rio participou de facto num almoço na Associação 25 de Abril. Falou mais do regime do que do governo, mas, realmente, é incontestável que apareceu ao lado de Vasco Lourenço (um velho e persistente adversário do PSD). Foi aí que fez uma sugestão que ficou na fronteira entre a polémica e o absurdo: "E se a abstenção elegesse cadeiras vazias no Parlamento?". O "ex-companheiro de partido" a que Santana se refere é António Capucho, que afirmou há dias admitir voltar ao PSD se Rui Rio vencer.

“É aqui que importa fazer a clarificação. (…) Nunca vim para clarificar como desta vez. (…) Acreditando que o meu partido não se entrega nas mãos daqueles que, quando mais precisou dos seus militantes, lhe viraram a cara ou foram dar o braço aos seus adversários políticos”.

Entre os "laranjinhas", é um argumento certeiro. A militância não perdoa deslealdades e Santana recorda que Rui Rio e alguns dos seus apoiantes afastaram-se (ou, pior, combateram) o partido no tempo de Passos Coelho.

“Quando apregoamos a transparência, temos que a praticar, nas palavras, nos sentimentos, nas emoções, nas propostas, nas ideias. É isso que procuro fazer. As águas turvas, as águas estagnadas, os equívocos, sempre serviram mal as pessoas, os seres humanos, os cidadãos, os povos. Por isso mesmo, é bom lembrar que procurei ao longo da história do partido aceitar os desafios que me foram feitos. (…) Desde Francisco Sá Carneiro para seu assessor jurídico e para depois deputado em 1980; de Francisco Pinto Balsemão para membro do Governo, um que entendi não aceitar, entendi que não era bom para o partido, e para a comissão política nacional, que aceitei; ou no tempo do governo Mário Soares/Mota Pinto, em que eu suspendi o meu mandato de deputado porque era contra o Governo do Bloco Central — não hoje, porque sou candidato, já naquela altura e ao longo da minha vida política; depois com Cavaco Silva, convidou-me para secretário de Estado da Presidência do Conselho, cumpri o mandato também, como tinha cumprido os anteriores; depois Cavaco Silva convidou-me para cabeça de lista ao Parlamento Europeu, aceitei, cumpri o mandato; em 1990, Cavaco Silva convidou-me para voltar ao Governo como secretário de Estado da Cultura. E a propósito de cumprir mandatos, ainda hoje sou o governante que mais tempo esteve à frente da área da cultura. Depois de 1995, Fernando Nogueira convidou-me para ser deputado por Lisboa, não pude, estava a dirigir uma instituição desportiva. E em 1997 Marcelo Rebelo de Sousa fez-me o desafio de ser candidato a uma câmara municipal. E fui, à Figueira da Foz, o PPD/PSD nunca tinha ganho, ganhámos e cumpri o mandato exactamente até 2001, altura em que Durão me desafiou a ser candidato à Câmara de Lisboa. Aceitei e, quando muitos não acreditavam, ganhámos. (…) Cumpri o mandato até ao fim interrompido pelas circunstâncias que conhecem, ter assumido responsabilidades no Governo. Em 2005, saí. Em 2007, Luís Filipe Menezes convidou-me para me candidatar à liderança do grupo parlamentar. Cumpri esse mandato. Em 2009, Manuela Ferreira Leite convidou-me para ser candidato à Câmara de Lisboa (…). Fiquei como vereador da oposição, cumpri o mandato, durante dois anos acumulando como provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa para as quais em 2011 Pedro Passos Coelho me convidou. E exerci as minhas funções durante dois mandatos e estava no terceiro.

Santana Lopes passou uns longos e contraditórios minutos a tentar estabelecer uma fantasia e uma confusão. A fantasia: o facto de ter sido convidado para lugares por todos os líderes pressupõe uma relação de permanente fidelidade partidária. Como o próprio admite, não é assim: recusou um convite de Balsemão quando a AD pós-Sá Carneiro tremia, e chegou a suspender o mandato de deputado durante o período do Bloco Central, algo que não é consistente com quem agora critica os que alguma vez "viraram a cara ao partido". E esqueceu-se de lembrar que em tempos ameaçou mesmo abandonar o PSD para criar um outro partido com as iniciais do seu nome (PSL, Partido Social Liberal). A confusão: cumpriu, ou quase cumpriu, ou queria cumprir, todos os seus mandatos até ao fim. Como o próprio também admite, a verdade é que não cumpriu, o que tem sido usado por Rui Rio nesta campanha para o acusar de inconstância.

“Hoje, há até algum terrorismo aí nas redes de comunicação nova, onde dizem ‘Há 17 anos que ele não ganha uma eleição’. Pois, mas agora a poucas me tenho candidatado. Em 2005, quem ganharia a eleição com um golpe de Estado pela frente? E em 2009 enfrentei o presidente da Câmara de Lisboa só com dois anos de mandato”.

Duas infelizes escolhas de palavras. Uma: na atual campanha pela liderança do PSD há "terrorismo"? Outra: a derrota em 2005 explica-se por um "golpe de Estado"? E ainda uma infelicidade "intergeracional" (para usar uma das suas novas expressões preferidas): o candidato das novas gerações refere-se às redes sociais como "as redes de comunicação nova"?

“Quando o partido precisa de mim, regra geral estou presente, não estou presente só quando eu preciso do partido”.

Santana insinua que Rui Rio só aparece quando precisa do partido. E até lembra o congresso de 2016, a que Rio faltou para "não ofuscar" o líder com a sua presença. Mas sabe que tem um problema com esta argumentação: há poucos meses, recusou candidatar-se à Câmara de Lisboa e, com a sua longa hesitação, retirou margem de manobra a Passos Coelho, que acabaria por ter que escolher uma desastrosa Teresa Leal Coelho.

“Mesmo que algum mandato não tivesse sido cumprido, há uma coisa que eu nunca fiz: andar a patrocinar movimentos para derrotar os candidatos do meu partido, ou para os substituir por independentes ou por adversários de outras forças políticas.”

Depois da divagação anterior, assume a realidade, se bem que a custo, de não ter cumprido todos os seus mandatos até ao fim. E volta a atacar Rui Rio por falta de lealdade, lembrando o facto de ele ter criado e apoiado a candidatura do independente Rui Moreira, para conseguir impedir que o seu inimigo Luís Filipe Menezes fosse o seu sucessor na câmara do Porto.

“Eu não gosto de chamar a atual maioria de esquerda de ‘geringonça’. Não sei se repararam que eles adoptaram o termo, tenho o ligeiro pressentimento que acham que envolve algum carinho. (…) Para mim, eles são uma frente de esquerda com comunistas e com a extrema-esquerda, de que o PS se aproveita para governar com um programa que não é o seu. Chamá-los de geringonça é o que eles querem, acham que já permite disfarçar a realidade política. Francisco Sá Carneiro falou muitas vezes na bipolarização e António Costa quis fazê-la. Ele assumiu que queria governar à esquerda e tem que assumir as consequências inerentes. Nós temos é que preparar a alternativa.”

Na apresentação da sua candidatura, Rui Rio fez questão de dizer que "o PSD não é nem será um partido de direita". Santana fez o contrário: se as últimas eleições e a criação da "geringonça" provocaram uma bipolarização, e se o atual governo é de esquerda, então o PSD será "a alternativa", ou seja, a direita. Mais à frente, insistiu no ponto, lembrando que Portugal é o único país da União Europeia com um governo "apoiado pela extrema-esquerda". Com ele, o PSD será "um partido social-democrata", mas atenção: "Partindo não do marxismo, mas do humanismo, do personalismo e do liberalismo nas matérias em que o assumimos". É o único candidato ou protocandidato até agora a usar a palavra maldita que ficou colada a Passos Coelho: liberalismo (mesmo assim, apenas "nas matérias em que o assumimos").

“Esta maioria parlamentar é anacrónica. Quase todos os dias, ao mínimo problema, diverge, critica, alguns dos seus membros demarcam-se, afastam-se. Se fosse connosco, era provavelmente razão para se julgar que o Governo podia ter perdido a sua base parlamentar.”

Mais uma referência ao discurso de Marcelo Rebelo de Sousa sobre os fogos. Tal como defendeu o Presidente da República, Santana insinua que existem "equívocos" no apoio do PCP e do BE ao Governo. A moção de censura que será votada esta terça-feira servirá para acabar com esse "equívoco"?

“Um PSD cada vez mais PPD. O que é que isto significa? O respeito pelas nossas origens, pela nossa identidade, mas ao mesmo tempo a preocupação de sermos um partido cada vez mais popular, próximo das pessoas, que compreenda os seus anseios e os seus problemas. Popular porque rejeita o predomínio de castas ou de iluminados, ou de professores de ética ou de moral. Popular porque quer ser sempre o partido das bases.”

Já temos o "Presidente dos afectos", agora Santana quer o "partido dos afectos", "próximo das pessoas, que compreenda os seus anseios e os seus problemas". E ataca mais uma vez Rui Rio, que pediu um "banho de ética" e se vê agora reduzido à condição de "professor de ética ou de moral".

“Um partido que aposte na criação de riqueza, rejeitando o modelo de crescimento em que vivemos, o modelo dos 600 ou 700 euros para quadros licenciados, em que muitos têm que deixar o nosso país para procurarem remunerações condignas fora das nossas fronteiras.”

Santana ataca o Governo pela esquerda e faz lembrar a expressão do seu velho adversário Jorge Sampaio. Eis Santana Lopes na versão "Há vida para além do défice": "Consolidação orçamental? Sem dúvida nenhuma. Mas Portugal não se pode fechar em folhas de Excel, nem em visões miserabilistas, nem em resignação injustificada". O até há dias presidente da Santa Casa da Misericórdia quer ainda que o PSD "assuma e fale da solidariedade social", dos "cuidados continuados" e "dos cuidados paliativos". Quer ter uma "política fiscal atractiva", "favorecer a captação de talento" de estrangeiros e de portugueses que tiveram que emigrar, e contribuir para a "coesão territorial".

“O partido de que me orgulho quer afirmar a sua alternativa em relação ao PS deixando claro, e bem claro, que não sacrificaremos a importância da recuperação e do progresso de Portugal às migalhas a dar para contentamento dos parceiros de coligação. Não cederemos nas questões essenciais que respeitam ao ser humano, à sua formação, à sua maturação, à sua dignidade. Qualquer dia, só para o PS continuar no poder e fazer acordos à esquerda, já não será aos 16 anos, mas quem sabe talvez aos 15, aos 14, que as crianças e os jovens poderão tomar decisões fundamentais, gravíssimas sobre as suas vidas, sobre a integridade dos seus seres, prejudicando todos os princípios e valores em que acreditamos. Nós gostamos da sociedade em que nascemos e em que vivemos, somos insatisfeitos, queremos transformá-la, melhorando-a, mas não a queremos destruir.”

Depois de uma passagem pela esquerda, o regresso do discurso à direita. Neste caso, à direita dos valores, que se arrepia com as "causas fracturantes" do BE, como a possibilidade de os jovens poderem pedir a alteração do seu sexo no registo civil a partir dos 16 anos. Mais tarde, Santana prometerá "assumir com galhardia" os "nossos valores", "não deixando aquilo que muitos hoje em dia pretendem consagrar, uma ditadura nos temas morais e éticos com origem nos sectores mais à esquerda".

“O meu nome é Pedro Santana Lopes, assumo tudo o que fiz até hoje, as horas melhores e as horas menos boas, as vitórias e as não vitorias ou as derrotas. Mal daqueles que dizem ou pensam que uma vez que se seja derrotado na vida, mais nenhuma oportunidade se deve ter. (…) Sá Carneiro perdeu e ganhou; Mário Soares ganhou, governou, perdeu, voltou a ganhar, voltou a perder. O mesmo com outros dirigentes europeus, Mitterrand, Chirac, a vida é feita de vitória e de derrota e de vitória outra vez.”

Santana volta às suas derrotas como uma obsessão. E compara-se com os grandes políticos portugueses e europeus, que também ganharam e perderam. Os tais "17 anos sem ganhar uma eleição" deixam-no, claramente, inseguro.

“Em Portugal ouvem-se os mais variados argumentos. Hoje em dia, até o da idade, ouvi o meu adversário no outro dia na televisão dizer ‘Pedro Santana Lopes é um pouco mais velho do que eu’. Tenho a diferença de um ano, julgo, ou nem isso, mas pronto, um pouco mais velho. Eu compreendo e não levo a mal porque o argumento tem sido usado à saciedade. A generalidade dos líderes europeus de hoje tem mais ou menos a mesma idade ou são mais velhos do que eu. A Áustria elegeu agora um líder com 31 anos, é um caminho também possível e bom. O Canadá tem um jovem primeiro-ministro. Theresa May tem 62 anos, Rajoy tem 63, a senhora Merkel 63. Macron é um caso à parte, tem 38, mas tem quem com uma idade mais avançada também esteja sempre ao seu lado.”

Desde que se soube que Rui Rio se encontrou numa quinta de Azeitão com vários barões do partido que os apoiantes de Santana têm tentado criar esta distância: Rio tem consigo as velhas gerações e Santana tem consigo as novas. Mas, na entrevista que deu à TVI, o adversário contra-atacou, e lembrou que até é mais novo do que Santana. Vê-se que o comentário picou: Santana Lopes vê-se agora na inusitada posição de convencer os militantes que não é demasiado velho. E nem resiste a uma boutade típica do enfant terrible do jet set: Macron pode ser mais novo, mas é casado com uma mulher bem mais velha. Mais tarde, insistirá que é "pai de cinco filhos, avô de quatro netos, divorciado mas bem na sua vida pessoal" e que quer "trazer as camadas mais jovens e dos 30 e 40 anos e fazer delas a base do trabalho" que vai realizar. Diz querer uma ligação permanente "às universidade" e à "geração das start ups e spin offs".

“Sou favorável à forte presença do Estado na Saúde, Educação, Segurança Social, mas espero muito dos privados e do sector social nesses três domínios. Sou intransigente na responsabilidade do Estado nas chamadas funções de soberania, prestigiando, valorizando e reforçando as nossas Forças Armadas, forças de segurança, os nossos diplomatas e os nossos serviços de informações.”

Ataca o Governo onde ele está mais frágil. Em vez deste longo parágrafo, bastaria usar duas palavras: "Tancos" e "fogos".

“O que está mal não é o povo, não são os portugueses, que muitas vezes trabalham mais horas do que outros, é o modelo de crescimento, e são algumas elites, políticas e económicas, que ao longo de anos, como hoje em dia se vê e eu denunciei em 2004 e 2005, trataram deles próprios e não trataram de Portugal e dos portugueses.”

Segunda referência a José Sócrates (a "elite política"), a que se soma uma referência à "elite económica". Na sua visão da História, Santana "denunciou" tudo isso e o país não o quis ouvir.

“Não dirigi só um tipo de entidade, dirigi vários. Julgo que tenho algum mundo, não gosto de estar fechado entre portas, gosto de ir ter com pessoas. Sei falar e já falei, no tempo anterior de governo, com Gerhard Schroeder na sua língua natal ou com Vladimir Putin na mesma língua, porque viveu em Dresden muitos anos. Como falei com Tony Blair e falarei com Theresa May na sua língua natal, já que eles não sabem falar a nossa. E falarei, como falei na altura com Zapatero, com Rajoy ou com quem seja na sua língua natal.”

A primeira frase pretende marcar uma distância em relação a Rio: Santana já esteve à frente de autarquias, de secretarias de Estado e da Santa Casa; Rui Rio limitou-se a dirigir a Câmara do Porto. O que se segue é bizarro: Santana parece estar a defender que é o melhor candidato porque "tem algum mundo" (Rio será, presume-se, provinciano) e fala alemão, inglês e castelhano.

“Quero ir ter e sei estar com todas essas entidades mas gosto muito de estar com as bases do meu partido. Não faço desafios a ninguém, normalmente diz-se que aqueles que vão à frente não fazem desafios, estou convencido de que temos conseguido importantíssimas parcelas de apoio, mas gostava de sugerir que as distritais e os órgãos regionais organizassem, cada um, um debate, para os militantes poderem ouvir.”

Ao mesmo tempo que se coloca como favorito na corrida, lança um desafio a que Rio terá de responder: quer fazer 21 debates em todas as distritais do partido e nas regiões autónomas. Será que o adversário aceita?

“O PPD/PSD deve sentir orgulho de Portugal ter o Presidente da República que tem. Ninguém pode compreender sempre todas as atitudes de qualquer responsável político. Às vezes podíamos gostar de ouvir o Presidente mais distante do governo em funções. (…) Os Presidentes da República não podem nunca ser oposições aos governos. (…) Mas, podem e devem, ser a voz da consciência nacional quando os governos não a ouvem, como foi agora com a intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa depois destas tragédias.”

Santana Lopes, que almoçou com Marcelo em Belém antes de lançar a sua candidatura, tenta decretar a reconciliação do Presidente com a direita que o elegeu, usando para isso o discurso sobre os fogos. E marca uma diferença com aquela que foi a má relação de Passos Coelho com Marcelo Rebelo de Sousa: se for eleito, acabam os conflitos. Um detalhe, que não foi evocado mas que todos conhecem: Rui Rio e Marcelo não se dão.

“O PPD/PSD orgulha-se da sua história (…) Somos um partido que nasceu para ganhar, não nasceu para ser segundo de ninguém, ou para ser muleta de ninguém (…) Defendo pactos de regime, como o outro candidato à liderança. Mas pacto é pacto: é um ponto intermédio entre as posições de um lado e do outro.”

Mais uma referência à suposta inclinação de Rio para um Bloco Central. Santana não admite ser "muleta" do PS ou o "segundo" de António Costa. E "pactos de regime", só de igual para igual.

“Lembrar Francisco Sá Carneiro, lembrar o nosso outro fundador ainda vivo, Francisco Pinto Balsemão, e lembrar o atual presidente do partido, Pedro Passos Coelho. Termino como comecei: a hora é de clarificar para depois podermos unir. Equívocos não, disfarces não, dissimulações não.”

Um último aceno ao passismo: Santana coloca no mesmo altar Sá Carneiro, o seu ídolo; Balsemão, fundador do partido; e Passos Coelho. Tudo o resto são "equívocos", "disfarces" e "dissimulações".

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