Rio escolheu uma sala pequena, Santana tinha cerca de mil pessoas no Centro Nacional de Exposições, em Santarém. Rio fez declaração sem direito a perguntas, Santana respondeu a tudo o que os jornalistas perguntaram durante oito minutos, mesmo já após o final da sessão. Rio é a rutura com Passos, Santana elogiou o ainda líder. “O meu nome é Pedro Santana Lopes“, disse o candidato à liderança do PSD, com uma pausa para que a audiência percebesse que tem orgulho do que este nome significa para o partido. Assumiu o passado e disse que queria “clarificar” as duas opções dos militantes antes de unir o partido, porque há uma coisa que Santana nunca foi: igual a Rui Rio.

Para “clarificar” a diferença, Santana desafiou o adversário para 21 debates e explorou todas as fraquezas do adversário no partido, incluindo a maior de todas: a afronta de Rio ao ainda querido líder Passos. “Eu nunca”, foi dizendo Santana ao longo do discurso.

O discurso foi à Santana. O eterno enfant terrible do PSD começou por dizer que não lhe levassem a mal se tirasse o casaco durante a intervenção, devido ao calor. Aqueceu a sala, mas não chegou a tirar o casaco. Mesmo sem estar em mangas de camisa, esteve à vontade no tiro ao Rio. Santana lembrou que o antigo autarca do Porto ficou contra o PSD (e ao lado de Rui Moreira) quando Luís Filipe Menezes se candidatou à câmara da invicta em 2013: “Há uma coisa que eu nunca fiz, que é patrocinar movimentos para derrotar os candidatos do meu partido ou para os substituir por independentes“.

Santana disse ainda, numa alusão a Rio — e puxando dos galões de ter sido candidato pelo partido mesmo quando o ambiente não era favorável –, que regra geral está presente quando o partido precisa de si e não só quando precisa do partido. Lembrou que Rio abdica por vezes de participar na vida do partido, ao contrário de si que gosta de estar “presente nos Congressos” e que nunca deixou de “estar presente por pensar que ia ofuscar o líder do meu partido”. Foi esta a justificação do antigo autarca do Porto para faltar ao último congresso, em abril de 2016. Santana conseguiu ainda arrancar um aplauso estrondoso da sala, quando disse: “Eu nunca fui para a Associação 25 de Abril ouvir elogios de Vasco Lourenço na altura que o partido salvava Portugal da bancarrota.” Era uma alusão a um almoço-debate a que Rui Rio foi a convite do “capitão de abril” em dezembro de 2013. Para “clarificar”, Santana desafiou Rui Rio para 21 debates, pedindo aos presidentes de distritais que os organizassem: um em cada distrital (são 19) aos quais se juntam as duas regiões Madeira e Açores.

Mas foram mais as indiretas ao adversário. O candidato à liderança social-democrata lembrou que tudo o que defende agora, já tem defendido ao longo dos últimos anos e não apenas agora, por ser candidato à presidência do PSD. E aí, Santana decidiu assumir o legado de Passos Coelho, lembrou o “trabalho de salvação nacional” e recordou que defendeu “ao longo dos anos o trabalho de Passos Coelho, mesmo quando mais ninguém no espaço público, os chamados analistas e comentadores, o faziam.” No final do discurso — quando lembrou Sá Carneiro e Francisco Pinto Balsemão — fez questão de lembrar também Passos Coelho, como uma das grandes figuras da história do partido.

Santana aproveitou a boleia e criticou velhos inimigos: seus e de Passos. A Pacheco Pereira atirou uma farpa que já tinha lançado no último congresso do partido: “Eu nunca fui para a Aula magna fazer sessões com o Bloco de Esquerda“. Criticou também António Capucho (que prefere Rio) por ter andado com os socialistas, referindo-se ao “ex-companheiro de partido, que agora quer regressar”. A chegada de Santana ao CNEMA este domingo foi como habitualmente acontece nos congressos. Uma azáfama. Ao mesmo nível que um dia fez Capucho atirar: “Vem aí o jet set”.

Santana Lopes. As nove vidas do homem que queria ser tudo

O meu nome é Pedro Santana Lopes e assumo tudo o que fiz até hoje“, disse Santana. Sabe que é um sobrevivente, que teve várias vidas. E continuou, dizendo: “Mal daqueles que dizem que uma vez se é derrotado na vida, mais nenhuma oportunidade se deve ter. Sá Carneiro perdeu e ganhou. Mário Soares ganhou e perdeu. François Mitterrand, Chirac, entre outros. A vida é feita de vitória de derrota e de vitória outra vez”.

Não fugiu ao passado. Nem aos tempos em que liderou um Governo considerado por todos desastroso: “Disse no congresso em 2005, que iria andar por aí. Nunca pensei que essa frase fosse tantas vezes citada. Estou aqui. E vim para clarificar. Quero unir. Mas quero unir, depois de clarificar. Aprendi em 2004 e em 2005 que a legitimidade do voto não se herda, conquista-se. E por isso, estou aqui.”

Sobre essa época, Santana “propôs um pacto, não de regime, mas um pacto de natureza secundária: Eu não falo do passado. Nem vou falar. Não vou comparar as causas da dissolução do Parlamento dessa altura, com os factos dos acontecimentos que se seguiram. Uns conhecidos da época, outros conhecidos mais tarde, outros admitidos posteriormente e à espera de julgamento. Não vou comparar as circunstâncias dos Governos que se seguiram.” Ou seja: lembrou que o seu Governo pode ter sido mau, mas o que se seguiu foi José Sócrates.

Em tom de brincadeira, mas de quem acredita que vai voltar a ser primeiro-ministro, Santana atirou: “Assumam para todos aquilo que muitas vezes vejo escrito e dito ao longo destes anos: Ai se isto fosse como Governo de Santana Lopes! Sigam esta expressão.”

Santana Lopes tinha começado a intervenção com uma palavra para as vítimas das incêndios. E não deixou de atacar Costa (embora não tanto como atacou Rio). O candidato à liderança do PSD assumiu que não gosta de chamar à solução de governo “geringonça”, já que os membros até usam o termo com “carinho”. Chama-lhe antes “frente de esquerda, que tem comunistas e a extrema-esquerda”. Já após a sessão, em declarações aos jornalistas, Santana criticou a “atitude do primeiro-ministro” ao falar no “erro de gestão emocional”, um “conceito que nunca tinha ouvido”, lembrando que o Governo ainda vai passar por várias provações ao longo do mandato.

Disse ainda, num rasgado elogio a Marcelo Rebelo de Sousa, que o PSD deve “sentir orgulho de Portugal ter o Presidente da República que tem”. E atira Marcelo contra Costa, já que “os Presidentes da República não podem ser oposição aos governos. Mas podem e devem ser a voz da consciência nacional, quando os governos não a ouvem.”

Santana foi corajoso ao dizer que não aceitará os chamados “paraquedistas” nas listas para as legislativas, o que pode fazer com que alguns notáveis possam ter de sair do Parlamento. Há figuras nacionais que por vezes, encabeçam os círculos noutros distritos por duas razões: mais-valia eleitoral, mas, acima de tudo, terem a eleição garantida. “Não pode haver, em cada círculo eleitoral, deputados de fora dos círculos eleitorais, tem de ser de cada círculo”, defendeu Santana. É uma posição que lhe pode custar apoios, mas mesmo assim foi aplaudido.

O candidato do PSD lembra que é falsa a ideia de que não chega ao fim dos mandatos. Lembra que o fez no Governo quando foi secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros de Cavaco Silva, como presidente da câmara da Figueira, da câmara de Lisboa, como vereador em Lisboa, como líder parlamentar e em várias outras circunstâncias.

O presidente da comissão de honra de Santana, o ex-líder do PSD Rui Machete, falou antes do candidato e solicitou um minuto de silêncio em memória das vítimas dos incêndios. Foi com essa homenagem que começou a sessão.

Rui Machete lembrou depois que “é preciso que os militantes ponderem bem o seu voto”, já que estas eleições são importantes “para o povo, para o sistema democrático” e “para o país”. Para o ex-ministro social-democrata, Santana “é o candidato com mais carácter e com mais carisma para liderar uma oposição eficaz ao executivo do PS, que é apoiado pelos partidos de extrema-esquerda.”

Machete fez alusão a Sá Carneiro, lembrando que Santana é “um militante de primeira hora” e que “o Francisco sempre prezou as qualidades do Pedro, considerando-o uma das esperanças do PSD.” O antigo presidente do PSD fala na “maturidade” que Santana que é uma garantia “para enfrentar as dificuldades com que o país infelizmente se depara”

Na sala esteve presente o presidente da distrital de Lisboa, Pedro Pinto, o vice-presidente da bancada parlamentar do PSD, Carlos Abreu Amorim, o antigo assessor de Cavaco Silva, Fernando Lima, o presidente da distrital de Santarém, Nuno Serra. No final do discurso, Santana prometeu que os próximos discursos não serão tão longos.

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