Matt Hulse é britânico, mas vive em Pequim. Um dia, decidiu comprar o telemóvel com câmara fotográfica mais barato que encontrou na cidade antes de embarcar em mais uma viagem até à Coreia do Norte. Acomodado no hotel Yanggakdo International, um dos poucos em Pyongyang que aceita a presença de estrangeiros, Matt Hulse foi à janela do quarto. Quando olhou para baixo e viu as pessoas a atravessarem estradas, fazerem compras ou a trabalharem, lembrou-se de uma série fotográfica que um dia comprou num mercado menos de 10 dólares. Inspirado por ela, pegou no telemóvel para a recriar. Com isso, conseguiu ser o primeiro artista a ganhar o prémio Felix Schoeller com fotografias tiradas com um telemóvel.

Famoso por ser realizador de cinema, Matt Hulse tornou-se nesse dia “mais respeitador da arte da fotografia”. Com acesso a apenas um telemóvel e de lentes clip-on — que se encaixam junto à câmara –, Hulse repetiu a experiências um pouco por toda a Ásia, mas com especial afinco na Coreia do Norte, Hong Kong e Mongólia, conta a CNN. Diz que, para as tirar, nunca quebrou as regras de nenhum país. Apesar de as regras para as fotografias serem muito apertadas, Matt Hulse diz que nenhuma lei proíbe ninguém de tirar fotos a partir da janela e de um hotel. E que ninguém estranhou quando o viu de câmara apontada às pessoas: “Achavam que estava a fotografar a bela cidade”.

Há dois aspetos que tornam as fotografias de Matt Hulse tão enigmáticas: o ângulo e o preconceito. O ângulo porque Hulse procurou imitar o ponto de vista de um “sniper”: as fotografias não parecem ser tiradas com um aparelho fotográfico, mas sim com uma arma que ameaça quem aparece na mira. E o preconceito porque, segundo o artista, é a imagem misteriosa e indesvendável que temos da Coreia do Norte que torna as fotografias tão interessantes: “As pessoas nas fotografias não estão a fazer nada de errado, mas o ângulo e a ideia que temos destes países faz-nos pensar que algo de estranho se passa com elas”.

Veja as fotografias “voyeuristas” de Matt Hulse na fotogaleria.