Rádio Observador

IPSS

Raríssimas. Os dois lados de Paula Brito e Costa, segundo os funcionários

525

Há quem conte que exigia vénias. Mas também há quem garanta que só se tem visto o lado mau. O que se diz na Raríssimas da mulher que forrou paredes e portas com a própria imagem.

Paula Brito e Costa saiu da Casa dos Marcos sorridente e acenou aos jornalistas

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Estamos no último dia de outono. Paula Brito e Costa, presidente demissionária, mas ainda diretora geral da Raríssimas, aparece de manhã na Casa dos Marcos, acompanhada pelo marido e por dois seguranças que apresenta como “amigos”. Ao volante de um Mercedes, – o famoso BMW pertence à instituição e está estacionado à vista de todos – aparece no local de trabalho uma semana e quatro dias depois do início do escândalo.

Ninguém a viu. Ou, pelo menos, ninguém quer dizer que a viu. Entrou pela porta dos fundos – uma que nunca usava – e o rumor espalhou-se pelos corredores da Casa dos Marcos. “Começaram a dizer que a Paula andava aí, que agora já não é doutora Paula”, revela uma funcionária ao Observador. A polémica dirigente da IPSS fechou-se no gabinete e só reapareceu depois das cinco da tarde. Mas, entretanto, houve vida na Casa dos Marcos.

O lobby que foi batizado com o nome de José António Vieira da Silva, o atual ministro da Segurança Social que foi vice-presidente da assembleia geral e que tem estado, também, no centro da polémica, não espelha o escândalo que se passa e que tem sido o tema central de jornais, telejornais, reportagens e diretos. Respira-se tranquilidade e utentes, familiares e cuidadores cruzam-se entre conversas cordiais. A presença de Paula Brito e Costa não é uma ameaça fantasma. Mas a presença da “excelentíssima doutora Paula”, como exigia ser chamada, segundo uma funcionária da Casa dos Marcos, foi durante anos um desconforto visível.

Esta funcionária, que recusa dar a cara por temer represálias, só encontra uma explicação para a atitude da ex-presidente. “Ela esteve com a rainha de Espanha e a partir daí deve ter achado que é uma rainha também”, atira. Explica que não quer dar o nome porque muita gente “foi para casa sem ordenado e com um processo disciplinar”. Os motivos? “Uma cama mal feita, uma criança que se sujou a comer, um atraso numa atividade”.

Já Estela Carreira tem 68 anos e é voluntária na Casa dos Marcos há dois. Diz que quer falar porque “toda a gente só está a mostrar o lado mau”. Recorda que Paula Brito e Costa construiu a instituição sozinha e merece reconhecimento. Condena os meios de comunicação social porque “estão a fazer muito mal à senhora e errar todos erramos”.

Mas, para a funcionária crítica da Casa dos Marcos, não há lado bom. Aliás, há apenas um adjetivo para a presidente demissionária: “Ela é maquiavélica”. Começou a trabalhar nas instalações da Moita através de duas amigas que, entretanto, saíram da instituição pelo próprio pé por se recusarem a fazer a vénia a Paula Brito e Costa quando esta entrava. Trabalhavam na receção – ou melhor, no front office, como a ex-presidente exigia que se dissesse. A relação com os funcionários nunca foi simples. “Quando passávamos por ela nos corredores e dizíamos ‘bom dia, doutora Paula’, não respondia. Tinha de ser ‘bom dia, excelentíssima senhora doutora Paula'”, conta com um tom irónico.

O lobby de entrada da Casa dos Marcos tem o nome do ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social

Na Casa dos Marcos não é preciso ver Paula Brito e Costa em carne e osso. E de facto ela parece dominar tudo: as fotografias com Maria Cavaco Silva, a rainha Letizia e o papa Francisco multiplicam-se. E não é necessário olhar com muita atenção para reparar que uma imagem da cara da antiga presidente forra até uma porta.

Mas Estela pensa de maneira diferente. Segundo a voluntária, Paula Brito e Costa é uma mulher humilde que fala com todos os funcionários como se de família se tratasse. Conta, com ternura: “A senhora brinca no Natal, brinca no Ano Novo, confraterniza com a senhora da limpeza, a senhora da cozinha e as doutoras”. Estela Carreira não percebe, aliás, os ataques à pessoa que, de acordo com ponto de vista que defende, “colocou a primeira pedra da Casa dos Marcos e só era respeitada porque se dava ao respeito”. Destaca a afinidade e o carinho com as crianças, as famílias e os utentes. Mas está sozinha deste lado da barricada.

Paula, ao volante, e Nélson, de cara tapada

“Ela tratava os miúdos com desprezo, tentavam abraçá-la enquanto estava a almoçar e ela gritava ‘saiam daqui, estou a comer'”, recorda a outra funcionária. Faz uma pausa para sublinhar que o marido, Nélson Oliveira Costa, não concordava com a atitude da mulher perante os trabalhadores e costumava passear pela Casa dos Marcos para cumprimentar os que por lá andavam. Já o filho – a quem Paula Brito e Costa chamou no vídeo da reportagem da TVI “herdeiro da parada” – era “igualzinho à mãe”.

As horas foram passando e Paula Brito e Costa permaneceu nas instalações da Moita. “Ela é mulher para ficar aí a dormir”, disse a funcionária crítica. Nos prédios que circundam a Casa dos Marcos, as vizinhas comentam que vão alugar as casas para servirem de postos de vigia. É o assunto do momento.

Os trabalhadores – desde a receção aos cuidados continuados, passando pelo gabinete de comunicação – têm medo de perder o emprego. Acham que a Casa dos Marcos pode fechar portas. Estela Carreira garante que “a casa não fecha e sem a senhora não funciona”. A verdade é que vai ter de funcionar. Pelo menos durante 30 dias. Paula Brito e Costa foi suspensa pela direção da Raríssimas e vai ser investigada através de um inquérito interno.

Às cinco e um quarto da tarde, depois de manobras de diversão com dois carros, a ex-presidente da Raríssimas deixou a Casa dos Marcos. Saiu ao volante, sorridente, abriu o vidro e acenou de facto como uma rainha enquanto ao lado o marido seguiu de cara tapada. Paula Brito e Costa é a mulher do momento e não parece importar-se com isso.

(Texto editado por João Cândido da Silva)

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: mfernandes@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)