A vitória de Rui Rio nas diretas do PSD já está a mexer com a bancada parlamentar do partido. Na ressaca das eleições, Sérgio Azevedo e Amadeu Albergaria, vices da bancada e apoiantes de Pedro Santana Lopes, decidiram colocaram os respetivos lugares à disposição. “Como é evidente, saber perder é saber tirar consequências”, chegou a justificar Sérgio Azevedo, no Facebook. No partido, há já quem sugira que Hugo Soares, apoiante de Santana nestas eleições, deve fazer o mesmo. O líder do grupo parlamentar do PSD, no entanto, já fez saber que não pretende fazê-lo.

De acordo com a agência Lusa, Hugo Soares deverá falar com Rui Rio nas próximas duas semanas. Até lá, o líder parlamentar do PSD mantém-se no cargo e não pretende colocar o lugar à disposição. Ele que, em entrevista à Antena 1, já tinha deixado um aviso velado a Rui Rio: eleito em julho de 2017, o seu mandato é de dois anos e quem elege a liderança do grupo parlamentar são os deputados — algo que Rio não é.

Nessa mesma entrevista, no entanto, Hugo Soares acrescentou que não há lideranças parlamentares contra “a vontade determinada do presidente do partido“, sobretudo se as linhas de orientação da futura comissão política forem “completamente antagónicas” com as da direção da bancada.

Seja como for, a decisão do líder parlamentar está tomada: não vai pôr o lugar à disposição; se Rio quiser afastá-lo, terá de assumir o ónus e começar a sua liderança à frente do PSD afastando um líder parlamentar recém-eleito.

Pressão sobre Hugo Soares aumenta. Marques Guedes e Fernando Negrão na calha

Apesar da convicção de Hugo Soares, a pressão para que o líder parlamentar do PSD deixe o cargo é real. Este domingo, o antigo presidente do PSD Luís Marques Mendes defendeu que o líder parlamentar social-democrata devia colocar rapidamente o lugar à disposição, uma vez que o partido elegeu um novo presidente, Rui Rio.

Julgo que o que se impõe é que Hugo Soares ponha de imediato o lugar à disposição para que o líder do partido pondere e dê um sinal: se quer mantê-lo ou se quer substituí-lo”, afirmou no seu habitual espaço de comentário na SIC.

Antes, em declarações à TSF, foi a vez de José Eduardo Martins, ex-secretário de Estado, apoiante de Rio e desde há muito distante da linha passista, sugerir que Hugo Soares devia deixar o cargo, lançando o nome do deputado António Leitão Amaro, apoiante de Rio, como alguém com potencial para liderar a bancada parlamentar.

Luís Marques Guedes, que chegou a ser líder parlamentar de Manuela Ferreira Leite, Fernando Negrão, que esteve com Santana Lopes mas é tido como alguém capaz de conciliar fações, ou José Matos Correia, que colhe algum favoritismo entre os apoiantes de Rui Rio, também já foram apontados como possíveis sucessores de Hugo Soares.

O atual líder parlamentar do PSD está numa situação particularmente delicada. Não só porque apoiou Pedro Santana Lopes, alguém que tinha o “caráter”, a “personalidade”, a “proximidade”, a “humanidade” e a “alma” para conduzir o PSD à vitória nas eleições legislativas em 2019, mas também porque perdeu em casa nestas diretas: apesar de apoiar Santana, Rui Rio venceu na concelhia de Braga, liderada precisamente pelo líder parlamentar.

Não foi o único, como recorda aqui o Expresso. Vários outros vice-presidentes do grupo parlamentar do PSD sofreram derrotas em casa: Miguel Santos, líder de Valongo, era coordenador da campanha nacional de Santana Lopes, mas perdeu; Nuno Serra, presidente da distrital de Santarém, idem; Carlos Abreu Amorim, deputado eleito por Viana do Castelo, apoiava Santana Lopes, mas no seu território venceu Rui Rio.

As ameaças de Rui Rio e o cerrar de fileiras da bancada passista

Quando entrou na corrida para a liderança do PSD, Rui Rio trazia atrás de si o lastro de alguém que, enquanto secretário-geral do PSD de Marcelo Rebelo de Sousa, combateu os interesses instalados no partido, ordenando uma limpeza dos cadernos eleitorais do PSD. Rio acabaria por sair, desanimado com Marcelo, que preferiu travar outras batalhas, e descontente com o PSD, demasiado rígido para mudar.

Assumindo-se como o candidato da rutura, por oposição a Pedro Santana Lopes, herdeiro do aparelho passista, Rio foi dizendo ao que vinha. “Santana Lopes é uma quarta opção de quem queria a todo o transe que existisse uma âncora contra mim. Queria que Passos Coelho continuasse, ele entendeu não continuar. Depois tentaram Luís Montenegro, depois Paulo Rangel, depois Santana Lopes, que aceitou. Se não tivesse aceitado, ainda haveria a tentativa de um quinto. É uma frente, não anti-Rui Rio, mas contra aquilo que pode ser um projeto que tenha mais mudança do que aquilo que querem“, chegou a dizer Rio, em entrevista ao Expresso.

A ameaça mais séria, no entanto, chegou no debate organizado pelas rádios TSF e Antena 1, depois de Miguel Relvas ter sugerido que o próximo líder do PSD estaria a prazo. “Se o clima dentro [do PSD] é já este, já com as rasteiras e com isto e com aquilo, estamos mal, e se eu ganhar vamos estar mesmo muito mal, porque não vou admitir uma coisa destas. Vamos acabar com estas pequeninas coisas partidárias como a entrevista do Miguel Relvas e de outros que nem têm coragem. Sei fazer isto, ando nisto há muitos anos. Deixe-me ganhar e vai ver como as coisas são“, disse Rio.

Na noite em que se tornou o novo líder social-democrata, Rui Rio não esqueceu os seus adversários e repetiu alguns dos avisos que foi deixando ao longo de toda a campanha. “O PSD não foi fundado para ser um clube de amigos, nem foi pensado para ser uma agremiação de interesses individuais“, afirmou Rio durante o discurso de vitória.

Ao herdar um grupo parlamentar maioritariamente passista, Rui Rio tem um grande desafio em mãos e será preciso um grande sentido diplomático para arrumar a casa. Até porque as tropas passistas já vão cerrando fileiras em torno de Hugo Soares. Paula Teixeira da Cruz, por exemplo, já veio lembrar que o grupo parlamentar do PSD manteve sempre a sua autonomia e defendeu que Hugo Soares tem todas as condições para se manter no cargo.

“A bancada parlamentar tem legitimidade própria, o líder parlamentar é eleito entre os seus pares e o atual líder parlamentar acabou de ser eleito com uma percentagem expressiva e por isso tem toda a legitimidade para continuar“, defendeu Teixeira da Cruz, em declarações à Lusa.

Para a ex-ministra da Justiça de Pedro Passos Coelho, que não apoiou qualquer dos candidatos à presidência do partido, seria até “muito estranha” a substituição de Hugo Soares, defendendo que o seu desempenho à frente da bancada lhe confere legitimidade política para continuar.

Carlos Costa Neves, ex-secretário de Estado dos Assuntos Europeus e antigo líder do PSD-Açores, aconselhou o presidente eleito a tratar a questão da direção da bancada com “algum cuidado” e “muita serenidade”. “O grande desígnio de quem ganha é reunir, no sentido de tornar a unir, e um dos elementos centrais é o grupo parlamentar, que está na frente do combate político”, afirmou Costa Neves, que apoiou Santana Lopes na disputa interna.

O deputado sublinhou que, além da direção da bancada, o grupo parlamentar já tem uma estrutura montada de coordenadores em todas as comissões, e que “seria bom não pôr em causa” uma direção eleita há cerca de seis meses. “Mas, seja qual for a solução, deve-se considerar a vontade do grupo parlamentar, a quem não se dá simplesmente ordens que em vez deste [líder parlamentar] será aquele”, alertou. Os avisos estão dados, resta saber o que fará Rui Rio.