Após quatro dias de audições, o fim de semana acabou por ser uma espécie de período de reflexão no julgamento de Larry Nassar, o antigo médico da seleção de ginástica norte-americana e da Universidade de Michigan State acusado de ter abusado sexualmente de pelo menos 150 atletas ao longo de mais de duas décadas. Sobretudo, numa perspetiva mais abrangente: quem foi ajudando o “monstro”, como tem sido descrito nos últimos dias, a manter-se à margem das queixas e polémicas durante tantos anos?

As primeiras cabeças já começaram a rolar, na USA Gymastics: esta segunda-feira, o presidente Paul Parilla, o vice-presidente Jay Binder e a tesoureira Bitsy Kelley apresentaram a demissão. “Apoiamos a decisão de renunciarem aos respetivos cargos e acreditamos que esse é um passo importante para nos movermos de forma mais eficaz no sentido de implementar as mudanças necessárias”, comentou Kerry Perry, que foi nomeada em novembro CEO da organização no intuito de proceder a uma profunda viragem na organização e na modalidade no país.

E esse continua a ser o grande ponto das audições, como se percebeu no quinto dia de julgamento e como se percebeu, sobretudo, na fortíssima mensagem deixada por Emma Ann Miller, de 15 anos.

Faça uma coisa certa por nós, conte-nos quem sabia e desde quando sabia. Diga-nos como e quando houve oportunidades para travá-lo. Faça do seu último ato público algo que possa realmente ajudar alguém. Todas temos noção de que havia mais pessoas de sabiam”, disse.

Mas houve mais, muito mais no testemunho da jovem ginasta. Até algo que poderia ser catalogado de insólito não fosse este um caso tão grave e negro para a ginástica e o desporto norte-americano. “O departamento médico da Universidade de Michigan State continua a cobrar-me consultas, a minha mãe continua a receber faturas das consultas onde era molestada”, divulgou, numa frase que deixou muita gente incrédula na sala.

“Serei possivelmente a última criança molestada por ele. E não estou sozinha, isto ainda não acabou. Pelo contrário, está agora a começar”, salientou, prosseguindo: “Estás a ouvir Universidade de Michigan State? Tenho apenas 15 anos mas não tenho medo de vocês. Não deveria conhecer o interior de um tribunal com esta idade, mas vou estar confortável. Não fui eu que escolhi as circunstâncias, foi Larry Nassar que escolheu, um empregado vosso durante 20 anos de abusos de crianças”, rematou Emma Ann, que teve uma consulta com o médico pouco tempo antes de ser detido no âmbito de um outro processo de pornografia infantil, citada pelo Washington Post. O The New York Times relata os outros testemunhos do quinto dia, entre antigas atletas e mães.

Lou Anna K. Simon, líder da Universidade de Michigan State, tem sido visada em alguns testemunhos (Scott Olson/Getty Images)

No seguimento do depoimento, a Universidade de Michigan State veio esclarecer em comunicado que não voltará a cobrar nenhuma consulta à mãe de Emma Ann, Leslie Miller, que também estava na sala. No entanto, e apesar da forte pressão externa para dispensar Lou Anna K. Simon, líder da Universidade, ainda não existe qualquer indicação nesse sentido, prevendo-se para as próximas horas uma declaração formal sobre o assunto.