A Biblioteca Nacional inaugura, na quinta-feira, uma exposição dedicada a Rudolf Nureyev, com peças pertencentes ao espólio do poeta e colecionador Alberto de Lacerda, um amante de dança, para quem o bailarino russo foi um “deus supremo”.

A mostra “Nureyev no espólio de Alberto de Lacerda”, que vai estar patente na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) até dia 14 de abril, contará com fotografias, cartazes, programas de espetáculos, livros e obras de arte, que o poeta, crítico de arte e colecionador Alberto de Lacerda (1998-2007) reuniu, a par de textos e poemas que escreveu.

Esta coleção “espantosa” é reveladora do “talento de colecionador” de Alberto Lacerda, mas também da sua “proximidade a uma arte exigente e difícil de acompanhar”, como é a dança, refere a BNP na sua página oficial.

“Alberto de Lacerda contava que, ainda adolescente, comprara num alfarrabista de Lourenço Marques um exemplar meio amarrotado da autobiografia de Isadora Duncan e que, a partir desse momento, algo de inesperado surgira na sua vida: a paixão pela dança”.

Uma forma de arte que o obrigou a deslocações e despesas, mas que lhe “trouxe indizíveis recompensas” e permitiu que reunisse e deixasse um legado, testemunha dessa sua paixão.

No seu diário, pode ler-se um escrito de 17 de Abril de 1978, de Nova Iorque, onde conta da sua chegada no dia anterior, e de ter passado “semanas especialmente difíceis”, com “nervos” e “ansiedade”.

“Um horroroso cansaço — geral: do espírito, do corpo. Espero que a minha vida assente sobre o ponto de vista da sobrevivência material e volte àquilo que é o seu centro: o amor, a poesia e a vivência do real e do autêntico. Vim a Nova Iorque (com grande sacrifício) não para me evadir, mas para reencontrar o real, o autêntico: neste caso, a dança, na encarnação suprema de Nureyev”.

O bailarino, nascido há 80 anos, em 1938, na antiga União Soviética, iniciou a carreira em Londres em 1962. Morreu há 25 anos, em janeiro de 1993.

Por essa altura, Alberto de Lacerda, que aí tinha chegado no início da década anterior, já se tinha relacionado com historiadores e críticos de dança, conhecido coreógrafos, dançarinos, gente pertencente a um mundo que nunca deixou de frequentar e que o inspirou até ao fim da vida.

Dessa forma, tornou-se um “espetador atento e privilegiado” da dança e, embora nunca tenha listado especificamente quais os bailarinos que mais o impressionaram, há testemunhos, do seu próprio punho, “que não deixam qualquer dúvida sobre quem mais admirou”.

No começo de 1991, numa carta dirigida a Luís Amorim de Sousa, escreveu: “A minha musa morreu. O pranto não cessa”.

A musa era a bailarina Margot Fonteyn e, para Alberto de Lacerda, Fonteyn e Nureyev eram a “evidência do sublime”.

O poeta chegou mesmo a afirmar que considerava Rudolf Nureyev “supremo”, tendo-lhe mesmo chamado “Deus supremo”.

No dia 6 de janeiro de 1993, quando registou no seu diário a morte do bailarino russo, voltou a referir-se a ele da mesma forma: “Morreu um deus. Nureyev morreu hoje em Paris”.

Uma semana mais tarde, deu mostras ainda, no seu diário, da perturbação que lhe causou a morte do bailarino e a forma como este foi uma inspiração até para a sua própria obra poética.

“A morte de Nureyev tem-me pesado muito. Vê-lo mais de uma centena de vezes foi uma grande inspiração na minha vida. Devo-lhe enormemente; e por certo, a minha poesia também”, acrescentando, numa outra passagem: “Jamais um bailarino foi tão plástico, tão proteico na apreensão e projeção do que na música é mais música, é mais irredutível a outra expressão”.