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Rui Rio acabou de sentenciar a posição do PSD relativamente ao pacote de transparência que tem estado suspenso no Parlamento, à espera da sua chegada. Numa entrevista à Antena 1, no Congresso que formaliza a sua liderança do partido, Rio recupera a intervenção que fez no primeiro dia de trabalhos. “Vem lá bem desenhado como vou encarar o pacote da transparência”, diz. “Tem lá palavras como demagogia e populismo, que eu risco em absoluto, risco em absoluto”, garante o novo presidente do PSD. Se a esquerda quiser avançar com mais restrições para os deputados, terá de ser a esquerda a aprová-las. Mais: revelou que já tinha uma reunião marcada com António Costa.

Rui Rio recusa, para já, comentar quaisquer assuntos que estejam na agenda do dia. “Não falei nem vou falar de nada de conjuntura”, diz, reconhecendo que o tema da transparência na atividade parlamentar está “em cima da mesa”. O social-democrata que este domingo é aclamado líder do PSD falará “a seu tempo”.

Mas o véu que já foi levantando à margem do Congresso permite perceber que eventuais mudanças não contarão com o contributo do PSD. A expressão é clara: o ex-autarca risca “em absoluto” dedicar o seu tempo a assuntos que considera “populistas” e “demogógicos”. A transparência é um desses temas. Ou melhor, a forma como os temas do enriquecimento injustificado ou do lobby foram levados ao Parlamento não merecem o apoio de Rio. “Por aí já podem ter uma ideia de como vou encarar este dossier”, antecipa o novo líder do PSD.

A sintonia entre o líder do partido e o candidato a líder da bancada parlamentar parece estar garantida. Pelo menos num dos aspetos em causa. Fernando Negrão já se manifestou contra a exclusividade dos deputados – uma das ideias discutidas pela comissão eventual sobre esta matéria, a que o próprio Negrão preside –, considerando-a “uma partidarização das funções” dos parlamentares.

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Os trabalhos estavam suspensos desde o final de janeiro, a pedido do PSD, e até que as eleições internas no partido e a substituição de Pedro Passos Coelho estivesse formalizada. Com Rui em funções, o tema deve voltar à agenda parlamentar em breve.

Domingo, é dia de entronização. Segunda-feira, Rio entrará pela primeira vez na São Caetano à Lapa como líder de pleno direito. E a agenda para esse dia já tem um apontamento de relevo: “O primeiro ato na sede é ir ao senhor Presidente da República às duas e meia da tarde”, revela à Antena 1.

O encontro com António Costa também já está fixado, mas Rio empurra essa revelação para o gabinete de António Costa. “Está marcado, mas ele se quiser pode anunciar”, admitiu à rádio pública. Ao Observador, fonte de São Bento diz apenas que só revela a data do encontro “na véspera de a reunião acontecer”.

A história do primeiro dia e meio de congresso não escapará às negociações de nomes e posições nas listas entre os homens de Rio e Santana, primeiro, e entre os homens de Rio e os dirigentes locais, a seguir. Houve tensão, muitos avanços e recuos, ameaças de que o diálogo ia romper, revolta de quem corria o risco de ficar fora dos órgãos do partido. Esses episódios passaram à margem dos dois homens que disputaram a liderança do PSD.

“Tem de haver alguma habilidade” para gerir o pós-eleições. Mas, com Santana Lopes, “o entendimento foi fácil”, garantiu Rio. Havia “predisposição” para deixar claro que saíram “unidos das diretas”, sobretudo quando, desde a primeira hora, várias vozes se fizeram ouvir para começar a marcar terreno ao líder recém-eleito.

Para o seu mandato, Rio não prometeu mudanças de atitude. “Não quero ser diferente. A forma sensata é ser igual a mim mesmo. Serei sempre igual a mim mesmo”, garantiu à Antena 1. E Rio nunca será Marcelo. “Não andarei a tirar selfies, não é o meu género, mas tenho a minha componente afetiva para além da minha imagem pública”, diz.

Ainda na curta entrevista de 12 minutos à rádio estatal, Rui Rio volta a espreitar à porta que abriu no diálogo com o PS em relação a determinadas matérias: no sistema político, no Estado, na Justiça. “A predisposição do PSD para conversar sobre isso é total” porque “o pais precisa disto” e porque o país “está farto de marcarmos só as diferenças” e também quer o terreno comum. Esse diálogo, deixa claro, “não tem a ver com a formação de governos, tem a ver com trabalhar no Parlamento para fazer essas reformas”.

Esse trabalho não será feito em ano e meio, tempo que sobra até às próximas legislativas que Rio já disse querer vencer. Não há tempo. “Mas pode haver tempo para se darem os primeiros passos, para se assinarem declarações de intenções para pormos em andamento essa reformas”.