Curiosidades Auto

A Nissan processa o Nissan. E a Nissan perde

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Confuso? A situação torna-se mais simples se lhe dissermos que a Nissan, fabricante de automóveis, processou Uzi Nissan, um israelita hoje americano. E, após oito anos em tribunal, a Nissan perdeu.

Um caso óbvio de David contra Golias opôs Uzi Nissan à Nissan Motors Company. Uma batalha com 24 anos, oito dos quais digladiados em tribunal, que só gerou perdedores, mas revelou carácteres

Muitos já se questionaram sobre o motivo que leva a que não seja possível adquirir um Nissan, ou até mesmo conhecer os novos veículos e as suas características, no site www.nissan.com. A história é longa, mas resume-se numa frase: porque este domínio não é da Nissan, a conhecida marca japonesa de veículos.

Um dos primeiros negócios criados por Uzi Nissan, na década de 80, já com o seu nome de família

Mas comecemos pelo início. Uzi Nissan é um israelita que emigrou para os EUA em 1980 e, desde então, tem criado uma série de pequenos negócios. Como normalmente acontece, utilizou o seu nome de família – ainda que algo raro, convenhamos – como base das denominações comerciais das empresas que registou e, a partir de meados dos anos 90, com o advento da Internet, criou um domínio com o seu nome.

Tudo correria sem problemas, não fosse o caso do seu nome de família ser igualmente o nome comercial da Nissan Motor Company Lda, empresa japonesa que fabrica de tudo um pouco, de automóveis a camiões e que hoje é controlada pela Renault, que detém 43% do capital.

Especialmente desde o início da batalha judicial, o site Nissan.com serve sobretudo para tornar público a guerra entre o Nissan e a Nissan

No início dos anos 90, Uzi criou a Nissan Computer Corporation e registou o domínio www.nissan.com em 1994, nos primórdios da Internet, através do qual vendia partes de computadores, de placas de computador a modems, passando por monitores e tudo o resto, como pode ver aqui.

A outra Nissan, a dos carros camiões e afins, queria utilizar o site nissan.com e, em 1999, as duas partes encontraram-se para tentar um acordo amigável, o que convenhamos faria sentido para ambos os lados: a Nissan ficava com o endereço que lhe dava jeito e o Nissan via a sua carteira ficar substancialmente mais recheada.

Oito anos em tribunal

Mas a conversa não correu bem, com o Nissan a querer manter o seu site associado ao nome da sua empresa, que tinha sido criada antes de a marca ter começado a vender os seus carros nos EUA como Nissan – quando Uzi iniciou os seus pequenos negócios, o construtor japonês comercializava os seus veículos como Datsun, o que fez até 1985. Instigado a avançar com um valor, para dar provas de boa fé, Uzi afirmou que só abriria mão do seu site por um valor tão elevado que desmotivaria a própria Nissan.

Perante isto, o fabricante de automóveis decidiu que, se era para gastar milhões, preferia investi-los em advogados. E vai daí ‘atiçou-os’ ao sr. Nissan em Dezembro de 1999, processando-o. Que ripostou, passando a vender carros no seu site (como pode ver aqui), isto enquanto o construtor exigia ao pequeno empresário 10 milhões de dólares por, basicamente, se chamar Nissan e ter criado um site com o seu nome.

Uzi provou em tribunal que, quando criou as suas pequenas empresas, que levaram ao site Nissan.com, a Nissan ainda vendia carros sob a marca Datsun

O primeiro embate em tribunal deu razão a Uzi, que assim ficou tranquilo em relação à propriedade do seu site, mas não poderia fazer o que muito bem quisesse, pois vender carros ou peças poderia prejudicar a Nissan, a dos automóveis. Ora Uzi é um homem “determinado” e, como tal, não gostou da vitória parcial, apelando da decisão. E regressou a tribunal com a ajuda da Public Citizen, uma associação de advogados não lucrativa em defesa do consumidor. Em 2004, o juiz deu-lhe razão.

David contra Golias

Porém, para a Nissan, esta decisão representava apenas mais uma oportunidade para continuar a “secar” o seu homónimo, uma vez que estava consciente de que os custos legais começavam a ser insuportáveis, e o poder económico estava claramente do seu lado. A marca recorreu ao Supremo, mas não com muito sucesso, pois a instância superior dos tribunais americanos não aceitou o caso e sugeriu que as partes se entendessem, o que se pode traduzir como “paguem lá ao homem e deixem-se de fitas”.

Desde então, o Nissan e a Nissan reuniram-se em mais duas ocasiões, e sempre sem chegar a acordo, nesta luta de David contra Golias. O David mantém o domínio, apesar de afirmar que a luta por aquilo que é seu já lhe consumiu cerca de 3 milhões de dólares, ao longo dos oito anos do processo (a digest.com resume aqui o conflito). É isto que o leva a concluir que, apesar de manter o domínio que sempre foi seu, dificilmente se considera um vencedor. Antes pelo contrário.

A digest.com tem assegurado a divulgação do caso, o que tem provocado inúmeras reacções negativas para a marca japonesa, pela forma como litigou. Outros casos existem, a começar pela Tesla, em que construtores conseguiram controlar os domínios que lhes interessavam, sem tanta publicidade negativa

A Nissan, pelo seu lado, também não ganhou. Além de ter perdido os milhões que gastou em advogados, continua sem o site que gostava de ter e tem agora cada vez mais potenciais clientes a criticar a forma dura e prepotente como litigou, assumindo-se como o Golias da história.

E, tradicionalmente, o público fica sempre ao lado do David, como se pode ver pelas mais de 10.000 mensagens publicadas no site www.Nissan.com. O tal que não pertence à Nissan, do qual lhe deixamos aqui uma pequena amostra, da página 1 e da página 505, de que juntamos um exemplo:

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