Aviso: esta crónica é um exemplo de péssima qualidade de informação, já vai perceber porquê. O debate por uma vez até estava a correr bem a toda a gente, coisa rara nos últimos tempos, quando o primeiro-ministro se lembrou desta frase. Foi mesmo antes do encerramento do quinzenal, quando respondia ao PS, o momento da sua habitual tática parlamentar para mandar recados aos adversários sem ninguém responder. Desta vez o destinatário nem estava no hemiciclo. A frase era sobre a tragédia dos incêndios e foi esta:

Um dos maiores problemas do país é a péssima qualidade da nossa informação, que só acorda para os problemas a meio das tragédias, esquecendo-se habitualmente do problema na hora certa de prevenir que a tragédia possa vir a ocorrer.”

Este primeiro-ministro que acha o jornalismo péssimo — porque acorda a meio das tragédias e se esquece da hora de prevenir –, é o mesmo primeiro-ministro que não acordou para o problema a meio da primeira tragédia. Que não preveniu a segunda tragédia. Que manteve contra a sua própria vontade e sabe-se lá em que condições pessoais uma ministra sem capacidade para prevenir a tragédia seguinte. E que só agiu depois da tragédia se repetir, com mais de 100 mortos no currículo, com um conselho de ministros especial marcado e a demissão da ministra forçada pelo Presidente da República.

António Costa respondia ao deputado socialista José Miguel Medeiros, de Leiria — que fez uma longa intervenção sobre o incêndio no pinhal — e que foi o coordenador do grupo de trabalho parlamentar para a reforma da floresta. É neste contexto, de os jornalistas não terem ligado ao que se estava (ou não estava) a passar no dito grupo de trabalho, que surge a apreciação do primeiro-ministro. A culpa, portanto, é da comunicação social, que não dá a devida atenção à prevenção dos fogos, mas sim à tragédia.

Mas já que o primeiro-ministro falou na “péssima qualidade” da informação, convém recordar um artigo certamente de “péssima qualidade” publicado pelo  Observador em agosto de 2016. A peça versava o conteúdo da tese de mestrado de Ascenso Simões, hoje deputado e ex-secretário de Estado de António Costa na Administração Interna, com o título Uma visão holística na segurança: Defesa da floresta 2003/2007, onde o socialista fazia um mea culpa porque o seu Governo tinha apostado no combate aos incêndios e não na prevenção. Oito anos depois, e muito antes da crise que se viveu no último verão, Ascenso Simões defendeu que a opção de António Costa “se tratou de um erro grave”. Questionado pelo Público para comentar a conclusão da tese do seu antigo secretário de Estado, o gabinete do primeiro-ministro respondeu apenas: “O primeiro-ministro não comenta teses académicas.”

Fica assim comprovado que um dos problemas do país e sobretudo dos incêndios é mesmo o jornalismo. Não houve mais ninguém que se esquecesse do problema quando tinha altas responsabilidades políticas “na hora certa de prevenir que a tragédia pudesse vir a ocorrer”, para usar as palavras de António Costa.

Mas vamos encarar este desabafo do secretário-geral do PS com uns olhos mais benévolos. No fundo, o primeiro-ministro está a pedir-nos ajuda para continuarmos a fazer bom jornalismo, duro, sério, escrutinador e a denunciar os problemas do país — que, pelos vistos, se forem identificados pela imprensa serão resolvidos pelo Governo.

Tem razão: ainda na semana passada o Governo anunciou 18 milhões de euros de investimento na reparação da Ponte 25 de Abril, exatamente um dia antes da revista Visão sair com uma notícia sobre um relatório que apontava para os riscos que corria aquela infraestrutura. Obrigado à Visão. E obrigado ao Governo por ter reconhecido ali, com a antecipação de 24 horas, a ótima qualidade da informação produzida por jornalistas portugueses. O jornalismo aposta na prevenção. E o Governo atua para evitar a tragédia. É o mundo perfeito.

A competição à direita e à esquerda

Adiante, porque esta era só uma frase e o debate levou mais de hora e meia. Estava a ser menos intenso e menos crispado que o costume, com o contributo do próprio António Costa, que anunciou uma boa decisão e sensata: a suspensão das multas pela limpeza das matas até final de maio. Fernando Negrão esteve melhor nesta segunda prestação do que na primeira. Assunção Cristas foi menos agressiva na linguagem do que antes do congresso do CDS onde disse que queria ultrapassar o PSD. E tanto o PCP como o Bloco protestaram por o Governo não lhes dar ouvidos e alinhar com a direita nas leis laborais — que será a luta interna da “geringonça” até ao fim da legislatura.

No PSD, era ansiada a prestação do novo líder parlamentar. Desta vez levou mais do que um tema e foi assertivo: os problemas nos concursos para os meios aéreos de combate aos fogos; as disparidades nos apoios às vitimas dos incêndios, a falta de orientação na limpeza das matas, mas também os problemas que afetam as pessoas no setor da Saúde e mais uma vez a questão do Montepio e da Santa Casa — o tema que tinha privilegiado há 15 dias. As respostas de Costa, mantiveram-se uns tons abaixo das que costumava dar a Hugo Soares, e não foram demasiado evasivas até tentar justificar com o Banco de Portugal uma questão que tinha a ver com a associação mutualista do Montepio que diz respeito ao ministério de Vieira da Silva. Negrão esteve bem ao assinalá-lo.

Costa deixou, porém, toda a gente a questionar-se quando fez uma estranha insinuação ao líder parlamentar do PSD: “Um dia havemos de descobrir o seu particular interesse em relação ao Montepio.” De que estaria a falar?

Ainda discutiriam o Benfica e as fugas de informação dos processos a partir do sistema informático da justiça. Entre considerações por serem do mesmo clube, Costa responderia: “Devemo-nos regozijar que, por uma vez, a violação do segredo de justiça foi fácil de descobrir.” Também não sabemos se foi uma insinuação. Diante do primeiro-ministro estava Fernando Negrão, o diretor da Polícia Judiciária que há 20 anos foi demitido pelo ministro da Justiça socialista Vera Jardim — num Governo de que Costa fazia parte –, por violação do segredo de Justiça no caso Moderna (embora as investigações judiciais viessem a ser arquivadas).

Na comparação à direita, Assunção Cristas foi acutilante sem ser agressiva. Não foi melhor nem pior que Negrão. E António Costa respondeu dentro do mesmo comprimento de onda, sem excesso de picardia. A presidente do CDS, que tem andado pelo terreno nas zonas dos fogos e que puxou para a equipa do seu programa a porta-voz das vítimas de Pedrógão Grande, fez nove perguntas sobre incêndios e uma sobre a Ponte 25 de Abril. Moderou o tom para parecer menos líder de um partido de protesto que um partido que aspira à chefia de um Governo?

À esquerda, manteve-se a luta do PCP e do Bloco que já dura há semanas no Parlamento sobre as lei laborais. António Costa anunciou que no dia 23 de março leva o banco de horas individual à concertação social — mas pelo menos os comunistas são historicamente contra as negociações com o patronato e querem as decisões tomadas no Parlamento. E voltou a garantir que vai promover a contratação coletiva e combater a precariedade. Mas os partidos mais à esquerda não se comoveriam, acusando  o PS de votar ao lado da direita quer em matéria laboral quer na regulamentação de transportes como Uber o Cabify.

Para Jerónimo de Sousa “entrámos numa nova fase da política nacional”. Para já, parece apenas uma proclamação retórica. A nova fase parece ser a do “aguenta”: os partidos de esquerda a susterem a respiração para ver se conseguem aguentar até ao final da legislatura mantendo as bandeiras ao alto, sem que o oxigénio da solução governativa se esgote e lhes asfixie as propostas políticas.