Exposições

A arte “Pós-Pop. Fora do lugar comum” em exposição na Fundação Gulbenkian

Duzentas e quinze obras, das quais cerca de vinte inéditas, compõem a exposição "Pós-Pop. Fora do lugar comum", inaugurada esta quinta-feira à tarde, na galeria principal da Gulbenkian.

Inácio Rosa/LUSA

Duzentas e quinze obras, das quais cerca de vinte inéditas, compõem a exposição “Pós-Pop. Fora do lugar comum”, inaugurada esta quinta-feira à tarde, na galeria principal da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Umas pernas em acrílico azul — “La place en marche”, de Lourdes Castro — ensinam o caminho da mostra, logo após a primeira sala onde se destaca um inédito de Teresa Magalhães, “Sem título”, um quadro com um automóvel Mini preto e uma mulher, sobre um fundo verde, que foi pintado em 1970, após uma viagem com amigos a Torremolinos.

“Quando Torremolinos estava na moda”, explicou a pintora Teresa Magalhães, sublinhando que “aquilo foi a realidade. Não foi inventado”. Dividida em três estações, tantas quantas as enormes ‘caixas negras’ que acolhem as obras, a mostra reúne obras de artistas plásticos nacionais e estrangeiros, e dedica-se aos desvios da Arte Pop em Portugal e Grá-Bretanha, produzida sobretudo, entre 1965 e 1975.

Numa altura em que se comemoram os 50 anos do Maio de 1968, em França, esta mostra constitui uma oportunidade para mostrar a criatividade de artistas plásticos portugueses, numa “época em que [em Portugal] tudo era cinzento”, como disse a pintora Teresa Magalhães à imprensa, durante a visita à exposição, numa alusão aos anos de ditadura e aos seus costumes. Obras de Fátima Vaz, “que morreu muito cedo” e a quem “não foi dado o relevo que merecia”, como referiu Teresa Magalhães, estão também patentes na mostra.

Luísa Correia Pereira, Maria José Aguiar (que vive retirada no Porto por iniciativa própria, mas que teve uma vasta obra nesta época), Menez e seu filho Ruy Leitão, que morreu aos 27 anos, são outros dos autores com trabalhos expostos. Uma tela de Bernard Cohen, diretor da Slade até 2000 quando se retirou da escola de arte de Londres, é outro dos artistas expostos, com uma obra que faz parte da coleção Berardo.

Realizada em colaboração com o British Council, que este ano perfaz 80 anos de presença em Portugal, a exposição exibe obras realizadas entre 1965 e 1975, quase coincidindo com o início da Guerra Colonial (em 1961, em Angola) e a revolução do 25 de Abril de 1974, como explicou Ana Vasconcelos, comissária da mostra, juntamente com Patrícia Rosas. “Pós-Pop. Fora do lugar comum — Desvios da pop em Portugal e Inglaterra, 1965-1975” exibe, assim, trabalhos de artistas ingleses e portugueses, sendo que muitos destes acabavam por ir para Inglaterra para fugirem da “asfixia” que era viver na ditadura do Estado Novo.

Manuel Baptista, Teresa Magalhães, José de Guimarães e João Cutileiro foram os artistas plásticos que acompanharam a apresentação à imprensa desta exposição, durante a qual explicaram algumas das obras escolhidas. Enervado e a necessitar “de respirar um bocadinho”, como disse durante a visita, o pintor Manuel Baptista falou sobre as suas obras, “A camisa” e “O envelope”. Dos muitos desenhos que fez em cadernos, quando esteve em Londres na década de 1960, Manuel Baptista retomou-os em 2011, para conceber os objetos na base da exposição “Forte escala”, para a Fundação EDP e a Fundação Carmona e Costa.

“A camisa” e “O envelope” são dois dos trabalhos que datam dessa altura e que estão inseridos nesta mostra. Entre as peças de José de Guimarães conta-se “Retrato de Família”, que pertence ao Museu de Serralves, e que surgiu da reconstrução de uma outra, realizada em Angola, em 1968. A peça esteve no “purgatório” 30 anos e agora está no “paraíso”, disse o artista durante a visita.

Uma escultura de Sérgio Pombo, que mostra um corpo humano fracionado em quatro partes, e, a seu lado, duas pinturas de Allen Jones e uma de Teresa Magalhães, são outras obras que se evidenciam na mostra. É também o caso de três peças inéditas de João Cutileiro, de cariz marcadamente erótico, e de um falo translúcido em resina sintética de Clara Menéres, de 1969, intitulado “Relicário”.

“Jaz morto e arrefece o menino de sua mãe”, uma escultura em gesso realizada por Clara Menéres em 1973, que se encontra no depósito do Museu de Fátima, constitui outra presença dramática na exposição. Trata-se da representação de um soldado morto na Guerra Colonial, em cima de uma urna metálica. A evocação prende-se à morte dos soldados, que morriam no cenário de guerra, em África, e também ao processo de sigilo com que a ditadura tratava as baixas, com o transporte das urnas durante a noite, para os locais de origem.

António Palolo, Paula Rego, John Furnival, Joaquim Bravo, Tom Phillips, Eduardo Batarda, Ana Vieira, René Bertholo, Ana Hetherly, Hein Semke, António Sena da Silva, Cruz-Filipe, Fernando Calhau, Sá Nogueira, José Rodrigues são outros dos artistas representados na mostra, que termina com uma obra realizada, em 1975, por Nikias Skapinakis, com o título “Delacroix no 25 de Abril em Atenas”.

Na visita à imprensa estiveram presentes a diretora do Museu Gulbenkian, Penelope Curtis, e Joan Bird, representante do British Council Europe. “Pós-Pop. Fora do lugar comum” fica patente ao público a partir de sexta-feira, 20 de abril, até 10 de setembro.

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