Depois de, há dois anos, ter escrito nove páginas na revista Visão sobre o caso judicial que envolve o ex-primeiro-ministro José Sócrates, com quem teve uma relação próxima, a jornalista Fernanda Câncio escreve esta segunda-feira um artigo de opinião no Diário de Notícias, onde procura justificar que não estava a par de nenhuma prática ilegal cometida pelo então primeiro-ministro nem antes nem depois de ter cessado funções porque, diz, Sócrates mentiu sempre — quer ao partido e ao país, quer aos que lhe eram mais próximos. “Independentemente de qualquer responsabilidade criminal alguém que age assim tem de ser persona non grata”, diz.

“Fingiu ante toda a gente que tinha fortuna de família, rejeitando até rendimentos a que tinha direito como alguém que deles não necessitava. Urdiu uma teia de enganos. Mentiu, mentiu e tornou a mentir”, escreve a cronista que foi ouvida como testemunha no processo Operação Marquês. Câncio referia-se ao facto de Sócrates ter recusado receber dinheiro pelo espaço de comentário que ocupou na RTP de 2013 a 2014, assim como recusou a subvenção vitalícia a que tinha direito por ter sido deputado desde 1987 (“e que agora está a receber”).

Não ter estes rendimentos e, mesmo assim, “tratar como insulto qualquer pergunta ou dúvida sobre a proveniência dos fundos que lhe permitiam viver desafogadamente”, mostram, segundo a jornalista, que “mentiu ao país, ao seu partido, aos correligionários, aos camaradas, aos amigos”.

E mentiu tanto e tão bem que conseguiu que muita gente séria não só acreditasse nele como o defendesse, em privado e em público, como alguém que consideravam perseguido e alvo de campanhas de notícias falsas, boatos e assassinato de caráter”, acrescenta.

Fernanda Câncio vai mesmo mais longe ao dizer que, ao enganar essas pessoas que estavam a defendê-lo “de boa-fé”, Sócrates acabou por as expor ao “perigo de, se um dia se descobrisse a verdade, serem consideradas suas cúmplices”. A ideia que defende é de que não é preciso esperar para que sejam apuradas “responsabilidades criminais” para que estas pessoas — amigos, pessoas chegadas, membros do partido –, façam um “juízo ético e político” sobre a sua conduta.

Segundo Câncio, que manteve uma relação afetiva com o ex-primeiro-ministro, os pagamentos do amigo empresário a José Sócrates que lhe terão permitido ter uma vida desafogada depois de deixar São Bento foram “cuidadosamente escondidos não só do país como dos próximos”.

É por isso que a jornalista termina dizendo que, apesar da importância que Sócrates teve no PS (foi o primeiro líder a conseguir uma maioria absoluta), “alguém que age assim tem de ser persona non grata“. Independentemente de quais venham a ser as decisões da justiça. No seu entender, para essa declaração de persona non grata basta aos membros do partido a ideia de que “andou deliberadamente a enganar toda a gente”.

A jornalista, referida várias vezes no processo do qual o ex-primeiro-ministro é o principal arguido devido à relação que mantinham, falou pela primeira vez do caso num artigo de nove páginas publicado na revista Visão, em maio de 2016. “Se fizesse ideia da relação pecuniária entre Santos Silva e Sócrates teria feito perguntas por considerar a situação, no mínimo, eticamente reprovável”, disse na altura.