A principal causa da leucemia linfoblástica aguda (LLA) é genética, mas um sistema imunitário pouco estimulado por micróbios pode também justificar este tipo de cancro maligno. A proposta é feita por Mel Greaves, investigador no Instituto de Investigação em Cancro (Reino Unido), num artigo de revisão publicado na Nature Reviews Cancer.

“A ideia de que as infeções podem ser uma causa de LLA na infância tem cerca de 100 anos”, escreve o autor no artigo. Mas, até ao momento, todas as tentativas para encontrar essa ligação foram infrutíferas. Desde 1988, coexistem duas hipóteses que, na sua base, “propõem que a leucemia infantil pode surgir como consequência de uma resposta imunitária anormal a uma infeção comum”. Mel Greaves aproveita o artigo atual para reforçar uma destas hipóteses, a sua, e relembra que esta se foca num subtipo de LLA, o que está relacionado com as células percursoras (que vão dar origem) dos linfócitos B (BCP, sigla em inglês para B cell precursor). Mais corretamente um subtipo dentro deste subtipo.

Isto sugere uma mistura multifactorial de exposição a infeções, genética herdada ou constitutiva e acaso, com os padrões ou o momento da infeção nos primeiros tempos de vida. [Mistura essa] identificada como o componente crítico e um caminho potencial para uma intervenção preventiva”, escreveu Mel Greaves.

A leucemia linfoblástica aguda pode ter origem na fusão ou duplicação de genes durante o desenvolvimento embrionário, levando os investigadores a pensar que o tumor se pode formar ainda antes do nascimento da criança ou, pelo menos, as condições propícias ao desenvolvimento da doença estão presentes desde essa altura. Esta mutação embrionária não será, à partida, influenciada pelos fatores externos, mas estes fatores externos podem espoletar o desenvolvimento da doença depois do parto. Um desses fatores pode ser a infeção com microorganismos.

Desde o nascimento que a criança está exposta a micróbios, nem todos patogénicos, seja do ambiente em que vivem, do contacto com os irmãos, da creche ou adquiridos durante a amamentação. É esta exposição que vai ajudar ao amadurecimento do sistema imunitário. Os ambientes demasiados limpos, em que a criança não tem oportunidade de contactar com este tipo de alergénios, podem trazer mais desvantagens do que vantagens, admite o investigador.

A LLA infantil não é, provavelmente, a única consequência deletéria, não antecipada, para a saúde da falta de exposição a infeções durante a infância”, escreveu o investigador. “Existem associações epidemiológicas semelhante para o linfoma de Hodgkin em jovens adultos, assim como alergias e doenças autoimunes.”

A leucemia linfoblástica aguda é uma doença rara, com uma incidência mundial de duas em cada 100 mil crianças por ano. Ainda assim, LLA é o cancro pediátrico mais comum, representando cerca de um terço de todos os cancros infantis, com um pico de incidência entre os três e os cinco anos.

A doença é potencialmente letal, mas o sucesso dos tratamentos contra a LLA têm permitido a sobrevivência de cerca de 90% dos doentes. Apesar disso, os doentes não estão livres dos efeitos secundários associados à quimioterapia, daí que se mostre tão importante encontrar formas potenciais de prevenção da doença.