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A associação norte-americana de defesa dos consumidores (o equivalente à “nossa” Deco) e os seus “Consumer Reports”, são tidos nos EUA como uma importante ferramenta para permitir opções/compras mais esclarecidas. Ora, os automóveis também não escapam às exigentes baterias de testes que o reputado organismo efectua. E, no caso da Tesla, quase que se poderia dizer que há ali uma relação de amor/ódio, pois da mesma maneira que no passado o Model S rebentou a escala pela positiva, agora a publicação não se inibiu de criticar duramente o Model 3. A ponto de não recomendá-lo.

Como é seu procedimento habitual, a associação adquiriu uma unidade para teste – em concreto, a versão Long Range de tracção traseira. Sucede que os testes mais pareciam uma montanha-russa, com altos e baixos. Se o eléctrico mais barato da Tesla impressionou bastante pela manobrabilidade, performance e autonomia (tendo percorrido 563 km com uma carga), já o mesmo não se pode dizer da travagem de emergência. A prova consiste num percurso em linha recta onde mal o velocímetro aponta a passagem dos 96 km/h (60 milhas por hora), o condutor trava de imediato, para se medir a distância percorrida até à imobilização total do veículo. Acontece que, se como Musk garante, ninguém agarra o Model 3 a acelerar, parece que a travar também não! Os especialistas da Consumer Reports conseguiram, efectivamente, alcançar o registo anunciado pela Tesla – 40,54 metros (133 pés). Mas só uma vez: na primeira tentativa. As seguintes divergiram todas da marca prometida pelo construtor, mesmo tendo os examinadores dado-se ao trabalho de repetir o exercício num outro dia.

Mais, para ter mesmo a certeza de que o Model 3 não era merecedor do nível “recomendação”, a Consumer Reports até alugou um outro exemplar. Só que o segundo carro, em vez de amenizar a situação, piorou-a. Nem à primeira, nem à segunda: os especialistas nunca conseguiram obter valores que se aproximassem dos prometidos pela marca. Resultado, imobilização total com uma média final de 46,33 metros, pelo que a pontuação atribuída ao eléctrico americano acabou por colocá-lo na liderança: é dos piores a travar, revelando uma (in)eficácia assustadora. Para se ter uma ideia, até uma pick-up como a Ford F-150 faz melhor, o que está longe de ser abonatório para o sistema de travagem do Tesla.

Com menor gravidade, mas ainda assim criticados, o excessivo ruído aerodinâmico, o desconforto do banco traseiro e a ausência de comandos básicos, o que na opinião da Consumer Reports pode contribuir para a desatenção do condutor.

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Tesla garante que é uma questão de software

Perante as críticas da Consumer Reports (CR) à travagem do Model 3, a Tesla contactou a publicação recordando que este tipo de medições dependem de uma série de factores, da temperatura ao estado do piso e peso a bordo, entre muitas outras. Mas perante a informação que foi utilizado o método SAE Internacional, os técnicos deverão ter reproduzido internamente o teste e chegado às mesmas conclusões.

A resposta à CR chegou pela boca – ou melhor pelo tweet – de Elon Musk, o CEO da Tesla, que afirmou que “o problema é fácil de resolver e que dentro de uns a Tesla iria enviar uma actualização de firmware Over The Air, para todos os Model 3, após a qual o modelo mais barato da marca americana iria travar ainda melhor do que o objectivo inicial e do que a concorrência”. Para Musk, é tudo uma questão “de calibração do algoritmo do ABS”.

Versão barata só mais tarde. Para não perder dinheiro

Durante a troca de informação com a CR e os clientes do Tesla, como sempre via Twitter, o CEO referiu-se ainda ao início da produção da versão mais acessível do Model 3, aquela com a bateria normal (a de 60 kWh e não a Long Range de 75 kWh) que será proposta nos EUA por 35.000 dólares, cerca de  29.900€. Argumentou Musk que avançar já com a fabricação da versão mais barata “seria um suicídio financeiro e poderia conduzir à morte da Tesla”.

Afirmou ainda o responsável pelo fabricante que, depois dos atrasos iniciais com o incremento da produção, “a Tesla necessita de atingir o volume de 5.000 unidades por semana e manter este nível durante um período de três a seis meses, exclusivamente com as versões mais caras (a versão Long Range com o Pack Premium é proposta por 49.000$ e o Model 3 mais rápido, com dois motores e o nível mais completo de equipamento é transaccionado por 78.000$), antes de começar a enviar para os clientes o Model 3 baixo de gama”, versão que deverá reunir o maior número de encomendas, entre as cerca de 500.000 acumuladas, mas que obviamente gera margens de lucro inferiores.

Enquanto no próprio site da Tesla o prazo de entrega do Model 3 com a bateria standard, o tal de 35.000$, era actualizado para “entre 6 a 12 meses”, Musk aproveitava que anunciar uma boa nova (relativa) para os clientes do Model 3 mais barato. Afirmou o CEO que a versão mais simples e acessível do modelo chegaria mais tarde, mas já com o novo software que gere o ABS, que permite que a partir de 60 milhas por hora (96,54 km/h), o Model 3 consiga parar sempre em cerca de 40 metros, em vez de apresentar oscilações entre os 40 e os 46 metros, como agora acontece. No fundo, o mesmo software que vai ser actualizado Over the Air, durante as próximas semanas, para todos os Model 3 já produzidos.