Ética e sustentabilidade, duas palavras que nos habituámos a associar à moda e à comida, mas não aos salões onde cortamos, pintamos e cuidamos do cabelo. Para Ana Fernandes, dona do recém-inaugurado Fhair, estender essas preocupações ao trabalho de cabeleireiros e hairstylists sempre fez todo o sentido.

“Fazia-me imensa impressão a quantidade de químicos que estavam sempre em contacto com a minha pele, que me entravam para os pulmões. Tinha de haver uma alternativa”, conta. A ideia de abrir um salão orgânico surgiu há sete anos e nunca mais lhe saiu da cabeça. E, ao contrário das odisseias habituais de quem se prepara para montar um negócio — procurar um espaço, planear a decoração, reunir uma equipa –, o trabalho de casa de Ana levou-a a viajar pela Europa em busca de produtos que respeitassem, não só a saúde de profissionais e clientes, mas também o ambiente.

Ana tirou três anos só para experiências. “Testei tudo em mim e nas minhas tias. Tiveram de ter muita paciência”, prossegue. No final, a marca italiana Davines foi a que melhor se saiu. Depois de experimentar os produtos e de voar até Parma para conhecer a fábrica, estava pronta para começar a desmontar o mito de que as soluções orgânicas são menos eficazes. “Ana, isto vai cobrir os brancos?”, perguntaram-lhe as primeiras clientes. “Eu nunca poderia comprometer o meu trabalho, a parte técnica, por causa dos produtos”, esclarece.

Depois de anos no Griffe Hairstyle, Ana Fernandes abriu o seu próprio salão © André Dias Nobre/Observador

Mas afinal, o que é que distingue estes champôs, cremes e tintas dos produtos convencionais? Em primeiro lugar, a composição, claro. Além de serem praticamente todos veganos, não contêm qualquer ingrediente proveniente do petróleo. Ana explica que as fórmulas continuam a ter resquícios químicos — cerca de 3% em oposição aos 90% de um produto comum –, mas que, mesmo esses, são extraídos de princípios ativos naturais e não criados em laboratório.

Mas em Parma, Ana também encontrou outro nível de sustentabilidade. “Além de todos os químicos, ainda há a questão da escassez de muitos dos ingredientes usados. É o caso do argão, por exemplo”, explica. Como é que a Davines resolveu a questão? Trabalhando com quintas locais que asseguram a produção controlada das espécies imprescindíveis para cada receita.

De calças de ganga rasgadas e t-shirt dos AC/DC, Ana está longe de ser a ambientalista clássica. Está mais para “punk chunga”, como a própria diz. “Fumo, não sou vegetariana, mas a sustentabilidade é mesmo o caminho”, admite. Além do estilo roqueiro, a proprietária do Fhair também traz um currículo invejável, para não falar num percurso profissional muito linear. Depois de ter abandonado o sonho de ser bailarina, ainda durante a adolescência, tentou a comunicação e o marketing, uma área que não a convenceu. Como produtora, singrou no mundo da televisão e por lá ficou, até ao dia em que decidiu ir trabalhar com a irmã, Helena Vaz Pereira, proprietária de um dos mais reputados salões de Lisboa, o Griffe Hairstyle. E se no princípio estava longe de se interessar pelo mundo dos cabelos, meses depois descobria uma nova paixão, a coloração. O corte e o styling vieram por arrasto. Três anos depois, mudou-se para Londres. Durante um ano, trabalhou em dois salões de topo e ainda se aventurou nos bastidores da semana da moda londrina.

Molduras recicladas e plantas naturais — a ética e a sustentabilidade são os lemas do Fhair © André Dias Nobre/Observador

De regresso a Lisboa, a ideia de ter o seu próprio espaço começou a ganhar força. O Fhair abriu há menos de um mês, no Cais do Sodré. Depois dos restaurantes, dos bares e das lojas, a esta zona ribeirinha só faltava mesmo um cabeleireiro cheio de pinta. Os valores da ética e da sustentabilidade também foram aplicados à decoração, das bancadas que aproveitam peças de velhas canalizações às plantas naturais dispostas logo à entrada. Para já, o salão ainda não é alimentado a energia renovável, embora seja esse o plano a médio prazo. “Nunca vou ter o lucro que os outros têm”, admite. Ana explica que montar um salão com esta filosofia sai mais caro do que fazer as opções mais convencionais. Falamos de iluminação LED, de eletrodomésticos de baixo consumo, detergentes amigos do ambiente e de um rol de material que a proprietária fez questão de comprar nas drogarias do bairro.

O Fhair abriu em meados de maio, no Cais do Sodré. Além de cabelos, também tem serviço de maquilhagem © André Dias Nobre/Observador

Fhair Organic Hair Studio

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Morada: Rua da Moeda, 12, Lisboa
Telefone: 93 788 7848 e 21 803 1400
Preços: corte a partir de 35€, brushing a partir de 20€ e coloração a partir de 65€
Horário: De terça a sexta-feira, das 10h às 20h, e sábado, das 10h às 17h

À responsabilidade social, há que juntar meia dúzia de pequenos truques. Enquanto as luvas biodegradáveis não chegam, cada um dos quatro cabeleireiros da equipa tem o seu próprio par e secar num pequeno estendal. Para garantir que até as folhas de alumínio são recicladas, é importante juntá-las numa bola antes de irem para o lixo. Além de cabelos, o Fhair também tem serviço de maquilhagem, só com produtos orgânicos, à semelhança do que acontece com a manicure. Está tudo a postos, só falta mesmo encontrar a pessoa certa. Ana é a primeira a reconhecer que a preocupação dos clientes, quer com a pegada ecológica das idas ao cabeleireiro, quer com a própria saúde, está a crescer. Além dos clientes fiéis que trouxe para o Cais do Sodré, a verdade é que há toda uma nova clientela a chegar por ter ouvido falar no “novo cabeleireiro orgânico” da cidade.

Numa das paredes do salão, está uma espécie de brasão em madeira, um presente do artista Mário Belém para dar alguma personalidade ao novo espaço. Na peça pode ler-se a expressão “Cortar o mal pela raiz”, uma missão que Ana leva à letra no combate ao desperdício e à ineficiência. Se a sustentabilidade é mesmo o futuro, então, um dia, todos os cabeleireiros vão ser assim.