Há algumas coisas que podemos dar como certas nesta vida: o Natal é sempre em dezembro, os santos populares em junho, um jogo da seleção nacional é quase sempre uma dor de cabeça e o Rock in Rio tem sempre Ivete Sangalo. Este ano não foi diferente: o furacão da Baía voltou mais uma vez ao Parque da Bela Vista para fazer os portugueses tirarem “o pé do chão”. À oitava vez, podíamos questionar se valia mesmo a pena voltar a ouvir temas como “Sorte Grande (Poeira)”, “Festa” ou “Beleza Rara” e tentar imitar em vão os passos de dança de Ivete. Seria uma pergunta justa, mas frágil. É que quando Ivete mete o pé num palco, todas as dúvidas desaparecem — ali, no alto, ela é rainha, E o trono ninguém lho tira.

“Que saudades de estar aqui!”, disse a cantora de 46 anos, a segunda a subir ao palco no último dia do Rock in Rio Lisboa, este sábado. “Chamo a este país a minha casa!” Pela maneira como foi recebida, também não era para menos: o recinto encheu só para ela, com uma audiência dedicada e disposta a seguir todas as indicações da cantora — a saltar e a cantar sem parar. Apesar de Ivete ser rainha — com todo o direito –, há um pessoa que é capaz de lhe tirar o trono e o título. Como explicou a brasileira este sábado, cada artista tem o seu modelo — alguém em que se inspira, por ser “tão bom” e tão único. No seu caso, esse lugar é ocupado por Daniela Mercury, cantora brasileira que abriu as portas a artistas como ela própria. Não foi de espantar quando Ivete o anunciou, mas foi surpreendente quando a própria Mercury apareceu em palco.

25 fotos

“Canta comigo?”, perguntou a Ivete Sangalo antes de desfilar pela rampa que liga o palco principal à zona do público. Com a enérgica de sempre, Mercury rodopiou sem parar enquanto cantava uma das suas músicas mais conhecidas, “O Canto da Cidade”. Ivete Sangalo foi fazendo coro, mas o momento não era dela: era de Daniela Mercury. Terminado o tema, a cantora brasileira desapareceu como apareceu — num ápice —, deixando os fãs e a própria Ivete com pele de galinha. “Que maravilha! Fico toda arrepiada!”, comentou, antes de admitir que queria transformar a Bela Vista “num Carnaval”. E foi precisamente isso que fez — até ao final do espetáculo, que terminou poucos minutos antes do início do jogo de Portugal contra o Uruguai, Ivete Sangalo conseguiu mesmo trazer a Baía para Lisboa com temas como “No Groove”, “Pra Frente”, “Eva” ou “Tempo de Alegria”. Para quê contratar outro artista, quando se tem uma Ivete Sangalo?

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Pop ligeira cheia dos clichés do costume

Com apenas 21 anos, um único EP editado em 2015 e uma carreira construída sobretudo no cinema, Hailee Steinfeld estava longe de ser um dos nomes fortes (ou até conhecidos) do Rock in Rio. Ainda assim, foi a ela que coube a abertura do palco principal — o Palco Mundo — no último dia do evento. Porquê? A única justificação plausível é o facto de a norte-americana ter feito a abertura de vários concertos de Katty Perry (a cabeça de cartaz neste sábado) durante esta tour. Ou então a organização gosta muito de lantejoulas, que a cantora usou com fartura.

14 fotos

Tal como tinha sido anunciado, Steinfeld subiu ao palco pelas 16h30, hora e meia antes do previsto por causa das alterações feitas aos horários para a transmissão do jogo de Portugal contra o Uruguai. Surpreendentemente, o recinto já estava bastante composto, e a cantora teve teve a sorte de encontrar um público animado e cooperativo, que não se importou com o discurso cheio de clichés sobre a adolescência. Acompanhada por um grupo de bailarinos e vestida de lantejoulas da cabeça aos pés, Steinfeld falou muito, dançou ainda mais e apresentou um pequeno alinhamento que denunciou a falta flagrante de material para um palco como o do Rock in Rio.

Houve alguns pequenos êxitos, como “Starving” (que conseguiu chegar ao número 12 do top 100 da Billboard em 2016) e “Capital Letters” (da banda sonora de “Cinquenta Sombras de Grey”), uma cover acústica “Flashlight” (tema que Jessie J cantou para “Pitch Perfect 2”, filme onde Steinfeld participou), os elogios do costume a Lisboa — onde tudo é lindo –, aos lisboetas — todos lindos — e uma falta enorme de mais qualquer coisinha que desse para ficar na memória. Como diria uma outra convidada deste festival: “Já passou, já passou”.