Há dez anos, uma espécie de ratos travou a mais ambicionada estrada de Vimioso que encontrou uma alternativa para encurtar distâncias com Bragança e novos obstáculos, como uma barragem que o concelho não avista e uma planta silvestre protegida.

Ainda durante o mês de julho deve ser posto em discussão pública o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) de um novo traçado que, até chegar a esta etapa, já sofreu um desvio para evitar uma zona de proteção da barragem do Baixo Sabor e esbarrou no caminho com uma colónia de plantas que gozam de proteção europeia.

O presidente da câmara, Jorge Fidalgo, espera que, apesar de tudo, o processo corra bem e lembra que esta ligação “é fundamental” para resolver o problema da acessibilidade de Vimioso, mas não só: a nova estrada servirá “um terço do distrito de Bragança” e poderá, inclusive, acabar com as voltas por Espanha nas viagens entre Bragança e Miranda do Douro.

O concelho de Vimioso não é servido por nenhuma das estradas estruturantes do Nordeste Transmontano e há mais de uma década que anda às voltas com a melhoria da ligação à autoestrada A4, em Bragança, atualmente feita pela nacional 218-2, que atravessa o rio Maças num percurso sinuoso. Vimioso ambicionava encurtar para perto de metade a viagem de quase 50 quilómetros até à capital de distrito com uma nova estrada por Pinelo e Outeiro, travada há quase uma década pela presença do rato Cabrera, uma espécie protegida pela União Europeia.

Em 2015, o Governo anunciou a abertura de um concurso para um novo traçado mais longo, por Carção, que, embora mais longo, vai encurtar também a distância, melhorar a segurança e fica mais barato, com um custo na ordem dos 20 milhões de euros.

A promessa que o presidente da câmara tem, como disse à Lusa, da empresa Infraestruturas de Portugal (IP), “é de que no mês de julho será entregue o EIA na Agência Portuguesa do Ambiente (APA) para o colocar em discussão pública”. Jorge Fidalgo espera que “tudo corra bem”, depois de terem aparecido mais alguns obstáculos ambientais na preparação do processo, como uma planta descoberta pelo padre e botânico amador Miranda Lopes, natural do concelho, que morreu em 1942.

A planta que cresce nas rochas e dá uma flor parecida com as “bocas de lobo” foi batizada com um nome em homenagem ao prior, “Antrrhinum Lopesianum”, e a sua presença nas encostas do Maças obrigou a pedir um parecer ao especialista e professor do politécnico de Bragança, Carlos Aguiar, a justificar a compatibilidade da estrada com a planta protegida.

Para além de toda a zona ser Rede Natura 2000, “a construção da barragem do Baixo Sabor, veio colocar ainda mais pressão sobre todos os territórios que estão a montante” e Vimioso é um deles, como disse o autarca. “A bacia do Baixo Sabor está a 400, 500 metros do nosso concelho, não estamos a tirar proveito nenhum daí, mas o nosso território ficou com alguns condicionalismos relativamente aos impactos ambientais que o Baixo Sabor colocou”, sustentou.

Segundo explicou, a EDP definiu no concelho de Vimioso “cinco zonas de proteção do património natural, sem dizer nada à câmara municipal” e uma dessas zonas é próxima da nova travessia, o que obrigou a desviar o traçado. Só a Declaração de Impacto Ambiental ditará se é ou não aprovada a travessia que não servirá apenas Vimioso.

“Eu tenho sempre sublinhado que esta estrada não é para servir só Vimioso. Serve um terço do distrito de Bragança. Serve Freixo de Espada à Cinta, serve Mogadouro, serve Vimioso, serve Miranda do Douro, serve quatro concelhos do nosso distrito”, vincou.

O novo trajeto poderá contribuir para acabar com as voltas por Espanha para ir de Bragança a Miranda do Douro e vice-versa. Contudo, o autarca espera também arranque no início do próximo ano com a construção da autoestrada de Zamora Quintanilha, que facilitará a acessibilidade do concelho a Portugal e Europa.

“Há empresas que podem investir em Vimioso se tiverem uma boa acessibilidade porque estão a investir no mercado nacional e europeu. Ficamos aqui mesmo à porta de Espanha, nenhum concelho tem essa proximidade como nós temos”, afirmou.