Ópera

Ópera junta jovens reclusos, músicos e cantores profissionais na Gulbenkian

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"Só Zerlina ou Così san tutte?" junta ópera, rap e teatro e vai estar em cena esta quinta e sexta-feira, inserido na programação Jardim de Verão da Fundação Calouste Gulbenkian.

Tiago Petinga/LUSA

Autor
  • Agência Lusa

Aos 26 anos, Mathieu Pinto vai pisar o palco do Grande Auditório da Gulbenkian, em Lisboa, pela segunda vez, oportunidade que surgiu no âmbito do projeto “Ópera na Prisão”, desenvolvido no Estabelecimento Prisional de Leiria, onde está detido.

O espetáculo “Só Zerlina ou Così san tutte?”, no qual se fundem ópera, rap e teatro, e que vai juntar em palco músicos e cantores profissionais e amadores, estará em cena na quinta e na sexta-feira, inserido na programação Jardim de Verão da Fundação Calouste Gulbenkian.

Mathieu, que esta tarde ensaiava com outros jovens reclusos no palco onde se estreou em 2016, é um dos quatro solistas de rap do espetáculo. Para ele, as rimas com batida começaram fora da prisão. “Escrevia rap, mas guardava para mim”, contou à Lusa.

Tiago Silva, de 23 anos, outro dos solistas de rap, também já rimava “lá fora”, onde a vida era “cantar, futebol e escola”, só “não dava tanto valor como hoje”. Para “Só Zerlina ou Così san tutte?”, os dois tiveram de aprender italiano — “para cantar em óperas” — e a colocar a voz, entre “várias coisas”.

Entre as outras coisas, Mathieu, tal Tiago e os restantes reclusos que estarão em palco, teve de “conhecer instrumentos, familiarizar[-se] com os sons, trabalhar teatro, as falas”. Isto porque, esta ópera “não é normal”. “Há partes em que, em vez de fazermos os chamados recitativos, fazemos teatro mesmo e é o que faz a diferença na encenação. Nós é que escrevemos as nossas falas”, explicou o jovem francês.

Estreado pela Sociedade Artística Musical dos Pousos (SAMP), em 2003, o projeto “Ópera na Prisão” funcionou durante três anos. Em 2014 regressou com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, integrado no programa Partis, que visa a integração social através das práticas artísticas. Cada edição – esta é a terceira – dura três anos.

“No primeiro ano eles conhecem-nos, aprendem o que é música clássica, levamos lá instrumentos e professores, e nós conhecemos o que é ‘afrobeat’, ‘trap’, ‘rap’ e essas cenas”, explicou o diretor artístico da SAMP, Paulo Lameiro, à margem do ensaio. Um ano depois, a equipa da SAMP desafia: “Vamos montar uma ópera”. “Dentro da prisão ensaiamos com eles, em italiano, decoram uma partitura inteira. E, fora, trabalhamos com as mães [familiares]. No final juntamo-nos, nesta semana muito intensamente, e apresentamos um espetáculo”, resumiu o responsável.

Paulo Lameiro sublinha, porém, que o espetáculo “não é o mais importante”. “[É] O mais importante para vós e para quem está a ver, mas o que é importante nisto é que estamos todos a energizar-nos”, disse.

Nesta edição do “Ópera na Prisão”, os jovens reclusos partilham o palco com os músicos da Orquestra Gulbenkian, com cinco cantores profissionais, com funcionários da prisão, onde estão detidos, e com familiares e amigos.

A ópera anterior contou com a participação de “60 reclusos e 20 familiares” e, esta, com a de “40 reclusos e 70 familiares, mães, namoradas, vizinhos, presidentes de Câmara, empresários, que ao receberem estas pessoas não podem receber só como uma quota — ‘deixa-me cá empregar meia dúzia de reclusos e estou a cumprir a minha obrigação social'”.

“Se fizerem isso, estão a descurar um potencial extraordinário, estes jovens são altamente criativos, muito resilientes, têm uma capacidade de resistência ao sofrimento extraordinária, têm uma vida que lhes ensinou competências extraordinárias”, afirmou Paulo Lameiro. O terceiro ano do projeto é para “aproveitar esta energia toda para estabelecer pontes com o exterior”.

Em relação ao impacto que a participação no projeto poderá ter no mundo exterior, Mathieu é cauteloso. “Se me vai ajudar lá fora ou não… veremos se aparece alguma coisa. Eu gostava, até pode ser na área do canto. Gostava que aparecesse alguma coisa para eu continuar”, disse. Mas fazer parte do projeto já teve impacto em Mathieu, sobretudo “em termos de crescimento”. “Da minha cabeça. Penso mais nas coisas antes de fazer, sou mais organizado, mais responsável, para com as outras pessoas e comigo mesmo, ajudou-me imenso nesse ponto de vista”, partilhou.

Também Tiago “gostaria de trabalhar em qualquer área da ópera, qualquer área”. “Cada vez gosto mais”, disse, acrescentando não saber se o que aprendeu com o projeto poderá interferir na vida “lá fora”, embora gostasse que assim fosse.

Para quem assiste ao espetáculo fica um recado: “Isto é para nos mudar mais a nós do que a eles [os 19 jovens reclusos do Estabelecimento Prisional de Leiria]”, diz a dado momento, a partir da plateia, Diogo, ex-participante do “Ópera na Prisão”.

Frase corroborada por Paulo Lameiro. “Este projeto tem-nos ensinado que, se queremos ajudar verdadeiramente estes jovens, não é na sua transformação, ao contrário do que parece. Nós temos de mudar muito mais, porque aquilo que motivou o estarem presos motivaria qualquer um de nós a estarmos presos também”, disse.

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