1988, Amadora, Escola Básica da Mina. Chegam as férias de verão e todos vão para a terra.

Todos? Não! Algures num subúrbio alfacinha, uma criança resiste e fica por Lisboa e pela Costa de Caparica (mas esperando sempre três horas para ir ao banho, claro). Aquele verão quente é passado entre as páginas de livros infantis e as frescas salas de cinema onde só falta mesmo a Festa na Aldeia, do Tati. Assim cresci, sem aldeia, sem velhinhas à janela, nem bailes da paróquia. Tudo o que guardo da minha infância são imagens da minha avó com poemas da Florbela Espanca, em riste, a dizer que isto é que é bom, e os discos de Zeca, Vitorino, ou Fausto, da minha mãe.

2018, Tomar, Cem Soldos. Desta vez, as férias de verão não chegam, mas isso não interessa nada porque há música portuguesa por todo o lado. Levei 12 anos a chegar aqui, a estes 8 palcos, a este querido mês de agosto. E que bem que se está no campo, e que bem que se está no Bons Sons. Começo pelo Festival de Bandas Imaginárias, projeto de Johnny e Catarina, onde palavras e ilustrações se cruzam e convidam cada um a criar a sua banda, a sua história, o seu passado. É a alegoria perfeita para o que encontrei em Cem Soldos: uma terra que nunca tive, pronta a ser imaginada.

Se em 1998 era um puto imberbe a descobrir a loucura alternativa do Sudoeste, se em 2008 me perdia no mundo da lusofonia emigrante na festa da Rádio Alfa, este ano encontro-me no Bons Sons. Aqui há céu estrelado, noites quentes mas ventosas, campo a perder de vista e música em cada esquina. Evitam-se as sobreposições de concertos, respeita-se a música e assim se descobre Quartoquarto, Miguel Calhaz ou se acaba deslumbrado com a personalidade cativante de Zeca Medeiros, que tanto enche o palco com a sua voz rouca como abraça aqueles que o chamam pelas ruas da aldeia.

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A proximidade entre artistas e público que encontramos no Bons Sons não é de forma alguma inovadora mas, como parece andar esquecida, acaba por ser muito do que torna este festival uma experiência única. E numa época de experiências, há que dizê-lo de forma provocadora: estamos fartos de rodas gigantes, precisamos de mais jogos do Hélder Sucena. Esqueçam o “Ó Elsa!”, “combinamos nos jogos do Hélder” é o novo hit do verão. Os jogos do Hélder estão espalhados por toda a aldeia e são um cativante regresso à meninice, só faltando a avó a chamar-nos para lanchar. Brincar é uma experiência obrigatória durante o festival, e fora dele, e posso garantir que até fica bem no Instagram.

Os concertos programados, e os outros que são improvisados, espalham-se pela aldeia, mas para alguns dos residentes isso nem é o mais importante:

“Não é pela música, jovem, é pela vida que isto dá à terra. Ninguém conhecia isto e agora até vem gente do Algarve”.

Se calhar até de todo o mundo, arrisco. Mas este cada vez maior interesse pelo Bons Sons (festival quase exclusivamente comunitário) também traz um lado negativo: e comida para todos? Com o avançar da noite, sobretudo na de sábado, em que a densidade populacional provocaria inveja a uma cidade indiana, ficou evidente que havia mais fome do que comida e a sorridente Margarida, autora de umas moelas bem saborosas, não iria conseguir alimentar todos, mesmo sendo a “que fica até mais tarde todos os anos. Acredite!” Acredito, todavia, também não duvido que o Bons Sons está a sentir algumas dores de crescimento e que o futuro trará o dilema: crescer? Crescer para onde?

Meu querido mês de agosto em Tomar:

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  • Almoço no restaurante do Chico Elias, ou como a Dona Céu faz comida de outro mundo.
  • Banho na Praia Fluvial de Montes, ou como os segredos estão sempre onde não está ninguém.
  • Jogos do Hélder, ou como o que interessa é participar. E cair. E molhar-nos. E rir. Muito.
  • Jantar na Casa das Ratas, ou como comida sem as Edison bulbs a iluminar continua a ser a melhor.
  • Road Tripas, ou como um doce cai sempre bem… e há melhor nome de food truck?

É domingo, acabo de fazer a visita orientada com cinco adolescentes da terra, e sinto que esta aldeia também é, em parte, minha. Sinto que conheço o Luís Sousa Ferreira, o cérebro; as outras pessoas do Sport Club Operário de Cem Soldos, os braços; cada um dos 600 habitantes da terra, o coração. Sinto até que conheço a falecida Dona Lurdes, a endinheirada que tanto deu à aldeia antes de se deixar levar pela loucura e tudo desperdiçar ao escavar ininterruptamente uma estrada, em busca de ouro escondido.

Porém, o tesouro só seria encontrado em 2006: Bons Sons. Com boas músicas e bons músicos, exceção feita a dois ou três nomes que vão e vêm como as modas dos tazos ou dos insufláveis, este festival confirma bandas como os Dead Combo, Linda Martini, Cais Sodré Funk Connection, ou artistas como Sara Tavares, Zeca Medeiros ou Norberto Lobo. São os fins de tarde com a companhia palavrosa de Luís Severo ou as noites que não queremos que acabem com a energia dos Paus, que escrevem a história e a futura mitologia deste festival e desta terra.

Bons Sons não é um festival de bandas imaginárias, não é resultado de uma comunidade imaginária, é real e é necessário. Criar um festival em Cem Soldos é compreender o que falta no interior português e preenchê-lo. É música portuguesa na aldeia, é viver a terra, é dar terra a quem não a teve, e nestes dias não foi apenas a minha infância que esteve em jogo com o Hélder. Ou se calhar até foi. Despedimo-nos com um sorriso sincero e malandro, e uma certeza: é com muita pena que deixamos Tomar para trás.