Cinema

“Do Jeito que Elas Querem”: quatro Fórmula 1 numa pista de “karts”

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A comédia romântica de Bill Holderman não consegue estar à altura do quarteto de veteranas atrizes que a interpreta e que merecia muito mais que isto. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

Além de fazer uma promoção descarada dos livros da trilogia pseudo-erótica As Cinquenta Sombras de Grey, de E.L. James, “Do Jeito que Elas Querem”, de Bill Holderman, parece-se vezes demais com aqueles programas de canais do tipo Fine Living, que promovem o exibicionismo de estilos de vida afluentes, hotéis de cinco estrelas e casas de sonho. Por ele circulam quatro atrizes (Diane Keaton, Jane Fonda, Candice Bergen e Mary Steenburgen) mais do que respeitáveis, agarradas a um fiozinho de história. É sempre um gosto estar na companhia delas e vê-las compartilhar um filme. Mas é triste — e significativo — que Hollywood não consiga melhor pretexto para as juntar do que uma tão frívola, inerte e chilra confeção cinematográfica como “Do Jeito que Elas Querem” (“TheBookClub”, no original). É como pôr quatro Fórmula 1 numa pista de “karts”.

[Veja o “trailer” de “Do Jeito que Elas Querem”:]

Keaton, Fonda, Bergen e Steenburgen interpretam amigas na terceira idade, ricas, com vidas confortáveis e carreiras de sucesso, que se conhecem desde os anos 70 e que todos os meses se juntam para comentar um livro que escolheram ler e beber vinho. Diane (Keaton) enviuvou recentemente de um marido fiel mas aborrecido e as duas filhas querem que vá viver com elas para o Arizona; Sharon (Bergen) é juíza, separou-se do marido que a trocou por uma rapariga nova e desde aí nunca mais quis nada com o sexo oposto; Vivian (Jane Fonda) é dona de um hotel de luxo e tem relações sem compromisso com os homens que lhe apetece; e Carol (Steenburgen) tem um restaurante e um marido recém-reformado que se esqueceu que há que animar a rotina conjugal com algum picante.

[Veja a entrevista com Diane Keaton:]

Aparentemente, apenas a personagem de Steenburgen precisaria de alguma ajuda, já que as outras amigas parecem satisfeitas e realizadas tal como estão. Mas o filme não pensa assim, e por isso a leitura dos livros de E.L. James (que faz uma aparição-relâmpago a certa altura) leva-as a concluir que na realidade não são felizes, que têm que voltar a conhecer homens e reativar as suas vidas sentimentais e sexuais. Assim, e enquanto Diane começa a ser cortejada por um piloto milionário (Andy Garcia) e Vivian vê aparecer-lhe no caminho uma paixão do passado (Don Johnson), Sharon inscreve-se num site de encontros na Internet e começa a sair não com um, mas com dois homens (Richard Dreyfuss e Wallace Shawn). Carol, em desespero, recorre ao Viagra metido à sorrelfa na bebida do marido (Craig T. Nelson).

[Veja a entrevista com Jane Fonda:]

A falecida Nora Ephron ou Nancy Meyers chamariam um figo a esta premissa. E arranjariam maneira de elevar o filme à altura do quarteto de acrizes e de o transformar numa comédia romântica com um mínimo de distinção e sentido de humor. Bill Holderman, que se estreia aqui na realização, e a sua co-argumentistaErinSimms, limitam-se a meter as quatro protagonistas em situações palidamente cómicas, através de gags de embaraço familiar, social, íntimo ou doméstico (Diane apanhada pelas filhas e pelo genro com o namorado numa piscina, Sharon enrolada com um dos pretendentes no banco de trás de um carro como se fosse uma liceal) e pô-las a dizer tiradas e piadolas com segundos sentidos e alusões sexuais básicas ou cansadas. Quem quiser ver comédia “maliciosa” sofisticada, tem que ir bater a outra porta.

[Veja a entrevista com Candice Bergen:]

Keaton, Fonda, Bergen e Steenburgen (esta ainda tem uma cena divertida em que improvisa um sapateado ao som de Meatloaf), sempre mantendo a dignidade e a compostura profissional, interpretam os seus papéis de olhos fechados e com uma perna atrás das costas, e os cavalheiros que lhes fazem a corte são ainda mais subaproveitados que elas. O resto desta comédiazinha peso-mosca é voyeurismo de lifestyle sem preocupações de orçamento. As minhas duas estrelas são para não deixar este quarteto de estimadíssimas senhoras e atrizes com currículos à prova de bala ir para casa em branco. “Do Jeito que Elas Querem” não é um filme do jeito que elas merecem.

[Veja a entrevista com Mary Steenburgen:]

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