Estação após estação, o Sangue Novo é o espaço dedicado aos jovens designers, acabados de sair da faculdade ou simplesmente numa fase muito inicial da carreira. A 51ª edição da ModaLisboa não foi exceção e deu início ao calendário de desfiles esta sexta-feira, ao fim da tarde, com o já conhecido concurso. Dez criadores apresentaram as suas mini coleções para o verão de 2019, numa altura em que o formato da competição se reinventa. A plataforma ganha dimensão internacional — metade dos participantes que viram as suas candidaturas bem sucedidas são estrangeiros — e vai funcionar, pela primeira vez, como uma eliminatória. Dos dez criadores, seis sagraram-se finalistas. Cada um deles recebe agora um apoio de 1000 euros para desenvolver a próxima coleção. Em março, numa nova edição da ModaLisboa, voltam a desfilar para que se apure o vencedor.

Numa passerelle que se encheu de pronto-a-vestir usável com a pegada criativa de cada um dos designers a concurso, Archie Dickens, Carolina Raquel, Opiar, Rita Carvalho, The Co.re e Federico Protto foram os finalistas da noite. Archie Dickens apresentou uma coleção que deambulou entre o preto e o branco. As malhas foram o vocabulário comum a praticamente todos os coordenados. Multiformes e tecnicamente manipuladas, ora revelaram as curvas e contracurvas do físico masculino, ora alargaram a silhueta natural do homem. Com inspiração na natureza, no meio aquático mais precisamente, “Forma de Vida” evoluiu organicamente na sala de desfiles.

Carolina Raquel © João Porfírio/Observador

Carolina Raquel, outra finalista, outra manipuladora de formas e volumes. O trabalho apresentado tinha laivos de Alexandra Moura (não admira, já trabalhou no atelier da criadora, mas também com Christopher Kane, Roksanda e Simone Rocha) — de certa forma, um casamento entre o bucólico e romântico e o desportivo e tecnológico. Das mochilas de escala aumentada e dos casacos em neoprene pendurados nos ombros aos brocados e as laçadas, Carolina soube prender a passerelle e o júri e dar um cunho próprio à sua fonte de inspiração. Carolina Raquel vai ainda estar no festival Fashion Clash, em Maastricht., onde representará uma nova geração de criadores de moda portugueses.

Opiar © João Porfírio/Observador

Opiar, etiqueta criada por Artur Dias, empolgou-nos à séria. Prometeu cidadãs de uma cidade que levita sobre as nossas cabeças, mas deu mais do que isso. Levou mulheres poderosas para o Pavilhão Carlos Lopes, num estilo que pode ser descrito como boho apocalítico. Padrões florais, xadrez, couro, botas de cano altíssimo e silhuetas longas fizeram da coleção “Rapture” uma espécie de Mad Max, versão alta-costura.

Rita Carvalho © João Porfírio/Observador

Rita Carvalho está longe de ser uma cara nova no Sangue Novo (já participou em duas outras edições), mas desta vez conseguiu convencer os jurados do concurso com “Não Degenera”. Também nesta coleção encontrámos algo de romântico e campestre (sim, Rita também já colaborou com Alexandra Moura). Os vestidos, principalmente, ganharam personalidade com bolsos XL, franzidos e mangas em balão.

The Co.re © João Porfírio/Observador

The Co.re junta duas criativas, Rachel Regent e Inês Coelho. Na coleção “Modern Daze”, partiram do cenário de um hospital psiquiátrico dos 50, conectando essa imagem perturbadora com a ansiedade dos nossos dias. Como é que o passaram para a roupa? Cintas all over, pequenas peças que fizeram lembrar partes de armaduras almofadas e coletes de forças. Ao mesmo tempo, apostaram em jogos de camadas e de sobreposições de transparências, por vezes, tudo numa única peça. Além de ter garantido presença na próxima edição do Sangue Novo, em março de 2019, a dupla conquistou ainda o prémio The Feetting Room, que garante a produção da coleção e a venda nas duas lojas da marca, em Lisboa e no Porto.

Federico Protto © João Porfírio/Observador

A sexta vaga foi ocupada por Federico Protto. Através de dez coordenados, o designer uruguaio passou na perfeição a imagem de uma festa de excessos e de convidadas de escala sobre-humana. Os tules volumosos contrastaram com tecidos cheios de elasticidade, moldados ao corpo feminino.

Fora da lista de finalistas ficaram o chinês Pu Tianqu, e a sua farda de repartição de finanças 2.0, Saskia Lenaerts, com uma reflexão sobre o colonialismos, Víctor Huarte, com uma junção de folclore clássico e modernidade, e Vítor Antunes, na vida de excessos de um rapaz do campo que chega à cidade. O concurso Sangue Novo inaugurou mais uma edição da ModaLisboa. Ainda esta sexta-feira, no Pavilhão Carlos Lopes, desfilam os criadores David Ferreira, Valentim Quaresma e Ricardo Preto.

Artigo atualizado domingo, dia 14, às 21h20, com a informação correta sobre a vencedora do prémio Fashion Clash, Carolina Raquel.