Jipes há muitos, mas poucos são capazes de enfrentar uma sessão de todo-o-terreno puro e duro. Estamos a referir-nos ao Jimny, um modelo pequeno e barato que é capaz de ultrapassar os mesmos obstáculos do mítico Jeep Wrangler e do extinto Land Rover Defender e conseguir regressar inteiro a casa, sem queimar a embraiagem e sem ficar atascado na lama, ou preso numa pedra mais alta que seja necessário escalar. É exactamente este o principal trunfo do Suzuki Jimny, desde que surgiu em 1970, modelo que agora conhece a sua 4ª geração.

É certo que nem todos os condutores que gostam de jipes robustos os colocam regularmente à prova em pisos degradados e situações limite, em termos de dureza ou inclinações, mas são muitos os condutores que respeitam os seus veículos não só pelo que fazem com eles, mas sim pelo que eles têm capacidade de fazer, caso surja a necessidade ou a ocasião. Na prática, os clientes dos jipes “durões” acabam por não ser muito diferentes dos condutores que adquirem os possantes e eficazes Ferrari, pois se todos eles adoram os mais de 300 km/h que são capazes de atingir, a facilidade com que passam pelos 100 km/h em pouco mais de 3 segundos ou os incríveis power slides que o eficaz chassi permite, a realidade é que poucos, muito poucos, se entregam a esses prazeres com regularidade.

Como é por fora?

A 3ª geração do jipe da Suzuki parecia substancialmente mais moderna do que esta nova, mas há duas explicações para isso. Primeiro, porque a marca japonesa decidiu fazer um regresso às origens e apostar numa estética nitidamente rétro, com o outro motivo – obviamente não admitido pela marca – a estar relacionado com as semelhanças com o Classe G da Mercedes, de linhas quadradas que lhe reforçam o aspecto robusto. Essencialmente a Suzuki decidiu que o que é bom para o mais durão dos jipes da Mercedes, serve também para ela, ainda que obviamente à escala, na dimensão, luxo e, claro está, preço. Até os faróis redondos, com a assinatura em LED, faz lembrar (mesmo) o Classe G alemão.

Com apenas 3,48 m de comprimento (valor que chega a 3,65 m com o pneu sobressalente colocado na tampa da bagageira), o Jimny é dos SUV mais pequenos do mercado, pois ao pé dele, até o Fiat Panda  (3,70 m), o Fiat 500X (4,26 m) ou o Jeep Renegade (4,24 m) parecem grandes. Mas aqui o importante não é o tamanho, é a filosofia, que faz dele o companheiro ideal para andar à vontade por montes e vales, sem qualquer preocupação. Para isso, o Jimny mantém-se fiel ao chassi de longarinas, com a carroçaria aparafusada, e aos dois eixos rígidos, tudo pronto a conseguir encaixar toda a pancada a que o condutor o queira submeter, sem queixumes.

… e por dentro?

Em menos de três metros e meio de automóvel, ligeiramente menos do que num Fiat 500 (3,57 m), não há muito que se consiga enfiar lá dentro. Ainda assim a Suzuki conseguiu melhorar o espaço do Jimny anterior, pois os dois lugares à frente são bons, em termos de espaço e com uma posição correcta ao volante, para os dois assentos traseiros serem mais simples, mas ainda assim com um espaço decente, especialmente se quem vai à frente não recuar excessivamente o banco. A vantagem é que ao fornecer apenas dois lugares traseiros, o jipe oferece bastante espaço livre em largura.

Quando nos debruçamos sobre a bagageira, percebemos de imediato onde é que os japoneses foram buscar o espaço para oferecer ao habitáculo do Jimny, uma vez que com os quatro lugares operacionais, atrás do banco traseiro não cabe muita coisa, com o fabricante a anunciar 85 litros. Olhando bem para o espaço (sem tapa bagagens), é possível conseguir ali alojar o equivalente a quatro mochilas, com algum esforço seis, daquelas simples com até um palmo de espessura e que se possam apertar sem partir o que está lá dentro.

Mas a Suzuki aposta que os seus clientes são jovens e vão sobretudo deslocar-se a dois, situação em que se pode rebater o banco traseiro, criando um espaço amplo e, para cúmulo, revestido com um plástico robusto fácil de lavar, ideal para quem tem cão, ou alguma tralha para transportar. E como o banco da frente rebate por completo, dá para fazer uma cama (é mais uma caminha), mais que não seja para dormir à porta da faculdade depois de uma noite de… “estudo”.

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Os materiais apresentam uma montagem sólida, apesar de não serem macios (preço oblige), e a prova é que durante a incursão por todo-o-terreno não ouvimos um grilar ou qualquer outro tipo de ruído parasita, o que mesmo tendo presente que os veículos eram relativamente novos, é um bom indício, tanto mais que o tratamento que lhe demos, nós e os que nos antecederam, foi tudo menos soft.

O ecrã digital ao centro (exclusivo das versões mais bem equipadas JLX e Mode 3) confere ao novo Jimny um ar moderno, que o seu antepassado não tinha, além do acesso a um sistema multimédia bastante funcional, com fácil associação a smartphones.

Anda bem em estrada e na cidade?

Na cidade não tem qualquer problema, sendo mesmo mais confortável do que anteriormente, pois a carroçaria passou a ser fixada em blocos de borracha com maior capacidade de absorção, o que filtra grande parte das vibrações fruto do piso irregular. Não é muito confortável – os veículos com chassi de longarinas raramente o são -, mas não assusta ninguém e as novas ajudas dão o seu contributo, do sistema de reconhecimento de sinais de trânsito ao aviso de saída involuntária de faixa de rodagem, passando pelo Dual Sensor Brake Suport, que acciona os travões caso o condutor esteja distraído, para evitar um embate no carro da frente, ou o atropelamento de peões. A direcção é leve, como é habitual nos modelos que montam soluções de esferas recirculantes (como o Defender e o Wrangler), que em compensação são inquebráveis e aguentam todo o tipo de esforço, sem passar vibrações ou pancadas ao condutor.

O Jimny já foi testado pelo Euro NCAP e mereceu apenas três estrelas, num máximo de cinco. Foi penalizado sobretudo por possuir poucos sistemas electrónicos de ajuda à condução e por a sua frente não ser suficientemente “macia” para evitar danos nos peões ou ciclistas. Mas não só não é fácil montar estruturas deformáveis num veículo com as rodas tão próximas das extremidades da carroçaria, como o chassi de longarinas não é o ideal para se deformar contra objectos muito leves.

Em estrada, este jipe da Suzuki desembaraça-se bem, pois é leve (somente 1.090 kg), tendo nós conseguido rodar abaixo dos 6 litros a 100 km/h, e a pouco mais de 7 litros de média em auto-estrada, a 120 km/h. Acima desta fasquia começa a ser complicado, pois a velocidade máxima é de 145 km/h (com caixa manual de cinco velocidades, pois com a automática de quatro fica-se pelos 140 km/h), que ele atinge facilmente, mas não com o mesmo nível de consumos. Contudo, o comportamento continua previsível e fácil de controlar, sendo limitado em piso molhado por montar pneus 195/80 em jantes 15 e com características mais adaptadas à terra, pedras e lama, do que ao asfalto liso.

E no TT é mesmo bom?

É. A circular fora de estrada é onde o Jimny mostra aquilo para que foi concebido. Já mencionámos o chassi de longarinas e os eixos rígidos, o que lhe garante robustez (o primeiro) e um generoso cruzamento de eixos (o segundo), óptimo para manter as rodas em contacto com o solo a atravessar valas, mas a tudo isto é forçoso juntar um sistema 4×4 engrenável, com caixa de transferência (que garante sempre potência nos dois eixos) e redutoras, para facilitar a ultrapassagem de obstáculos mais “agrestes” sem desgastar a embraiagem.

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Para nos apercebermos do potencial do seu novo pequeno jipe, a Suzuki desafiou-nos a enfrentar uma pista natural, desenhada numa propriedade nos arredores de Madrid. As subidas íngremes sucediam-se a descidas igualmente estimulantes, polvilhadas por valas e grandes inclinações laterais, onde era necessário sangue-frio ou uma grande confiança nas aptidões do modelo.

Depois da fase inicial, em que conduzimos apenas com tracção traseira, rapidamente passámos às 4×4, sendo que a passagem se pode realizar accionando a alavanca, mesmo com o carro em movimento, bastando que as rodas da frente vão a direito. Já com quatro rodas motrizes, o Jimny revela-se mais bem comportado, sendo evidente o benefício de que a 4ª geração usufrui face à anterior, pois se o sistema 4×4 é o mesmo, beneficia de alguma electrónica para limitar as perdas de tracção, tornando o conjunto espantosamente eficaz.

À medida que a pista aumentava de dificuldade, nós recorríamos ao armamento, que é como quem diz, às redutoras, o que permite ao pequeno jipe quase trepar paredes. Ajudado por uns pneus que são bons para terra (e resistentes, para evitar furos), o Jimny sobe com uma facilidade incrível, mesmo quando mal tocávamos no acelerador. E quando hesitávamos, o sistema de arranque nas subidas facilitava-nos a vida, um pouco à semelhança do que acontecia nas descidas, onde outro sistema electrónico assegura que mesmo os menos experientes possam encarar uma forte pendente sem descer de rodas bloqueadas e sem controlo no veículo.

Foi igualmente nestas condições que nos apercebemos dos bons ângulos TT do modelo nipónico, pois 37º de ataque, 49º de saída e 28º de ângulo ventral deixam até o impressionante Wrangler, actualmente a referência, a quilómetros. Só na passagem a vau o Jimny (210 mm) não é tão impressionante. E o motor 1.5 atmosférico a gasolina, com 102 cv, que se revela muito mais agradável de utilizar do que o antigo 1.3, é um parceiro interessante, que uma vez recorrendo às redutoras dá mostras de uma força notável.

Quando chega e por quanto?

A boa notícia é que o Jimny já cá está. Começa a ser entregue ainda este mês aos clientes e por valores baixos, a arrancar nos 21.483€ para a versão JX, a mais acessível. O nível intermédio (JLX) está à venda por 23.238€, ou mais cerca de 2.000€ se optar pela caixa automática, para a versão mais equipada, denominada Mode 3, ser proposta por 25.219€.

A má notícia é que se o Jimny é bom, a realidade é que há poucos, pois o sucesso que o modelo está a conhecer no Japão levou a marca atrasar as entregas na Europa (só vão entregar 20% do que estava acordado e encomendado), pelo menos em volume. Assim, a Península Ibérica vai receber apenas 400 unidades até Março, sendo que os nuestros hermanos não deverão passar para o lado de cá da fronteira mais de 80 a 90 unidades.

A partir de Abril, quando o mercado japonês ficar equilibrado, o Jimny deverá começar a chegar em maior volume, permitindo colocar no mercado ibérico entre 2.000 e 3.000 jipes por mês. O novo modelo será comercializado em Portugal com garantia de cinco anos (três da fábrica e mais dois através de um seguro suportado pelo importador), para um total de 150.000 km.