Implantes mamários que se rompem, provocam dor, desfiguram ou provocam reações alérgicas. Estes são os principais problemas identificados neste tipo de dispositivo médico, usados tanto por questões de saúde como por questões estéticas. Os riscos estão identificados há mais de uma década, mas até agora as autoridades têm falhado na resolução do problema, noticiou o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação.

A falha pode estar na facilidade com que se autoriza a comercialização de dispositivos médicos em geral e de implantes mamários em particular. Para o consórcio de jornalistas, o problema está também na incapacidade de as autoridades reguladoras da saúde punirem os fabricantes que não cumprem as regras de segurança nos produtos que fornecem.

A acrescer aos efeitos adversos já referidos, há suspeitas de que os implantes mamários com textura (em oposição aos lisos) podem estar associados ao aparecimento de um tipo de linfoma — o linfoma anaplásico de células grandes —, revelou o jornal britânico The Guardian. Em termos globais, há registos de 615 casos de cancro e 16 mortes associados aos implantes mamários, sobretudo aos implantes com textura.

Em 2011, rebentou em França o maior escândalo com implantes mamários: a empresa Poly Implant Prothese (PIP) usava silicone ilegal nos implantes que produzia. Havia cerca de 300 mil mulheres, em todo o mundo, que tinham colocado este tipo de próteses. Destas, mais de 5.000 acabaram por apresentar queixa depois da rutura dos implantes. Em Portugal, entre 1.500 a 2.000 mulheres podem ter usado este tipo de implantes, 80 deles rebentaram.

Os acontecimentos em França revelaram os riscos deste tipo de dispositivos médicos e tiveram um impacto global. Ainda assim, na última década mais de 10 milhões de mulheres em todo o mundo receberam implantes mamários. Mas, segundo o jornal britânico The Guardian, continuam a existir razões para preocupação para a forma como estes produtos são aprovados para uso médico.

O jornal cita uma investigação do regulador de saúde holandês que, há dois anos, verificou que os 10 principais fornecedores de silicone para implantes mamários na Europa não cumpria as medidas de segurança e testes dos produtos exigidas. Em muitos dispositivos foram identificados produtos químicos que não estavam discriminados na lista de componentes. Um dos casos tinha mesmo silicone industrial como os dos implantes franceses PIP. Além disso, metade das empresas não forneciam informação suficiente sobre o risco dos produtos. As autoridades europeias não impediram as empresas de continuarem a vender estes produtos, revela o consórcio de jornalistas.

Entre as preocupações com os implantes mamários estão o risco de desenvolvimento de cancro na ferida que se forma à volta da cápsula do implante. Quando o problema é identificado precocemente, as mulheres podem retirar o implante e recuperar totalmente. Mas se não for tratada convenientemente, o linfoma, que começa com dor e inchaço, pode espalhar-se pelo corpo e colocar a vida da pessoa em risco.

Ainda não há confirmação que este tipo de cancro seja causado pelos implantes com textura — nem tão pouco pelos implantes em geral —, mas em França, onde 85% dos implantes têm textura, o regulador de saúde recomendou que os cirurgiões usem preferencialmente implantes lisos até que a situação seja investigada. No Reino Unido, onde a maioria dos implantes também tem textura, o regulador de saúde estima que uma em cada 24 mil mulheres esteja em risco de desenvolver cancro. A FDA (autoridade norte-americana do medicamento) alerta que uma em cada cinco mulheres terá de remover o implante, devido a complicações, dentro de 10 anos depois de ter sido colocado.