À entrada para a receção ao Valência, e mesmo que apenas tenha uma quota parte de responsabilidade, Santiago Solari tinha noção de uma coisa: este é já o pior arranque do Real Madrid no campeonato em 17 anos. Só em 2001/02, com Vicente del Bosque ao leme dos merengues, é que a época começou tão mal no Santiago Bernabéu. Antes de jogar com a equipa de Gonçalo Guedes, o Real tinha 20 pontos em 13 jogos e estava no sexto lugar da liga espanhola, a seis pontos do líder Sevilha. Mesmo depois de um ótimo resultado a meio da semana — uma vitória no Olímpico de Roma que valeu o apuramento para os oitavos da Champions e o primeiro lugar do grupo –, não existia grande margem de manobra para Solari: era preciso vencer e ganhar terreno aos adversários, até porque, em caso de derrota, o Valência alcançava o Real Madrid na classificação.

Antes ainda do apito inicial, os problemas já eram de sobra. O treinador argentino não podia contar com Marcelo, lesionado por tempo indeterminado, nem com Kroos, que saiu da convocatória à última da hora com queixas no joelho direito. Para os seus lugares entraram Reguilón e Ceballos e Solari manteve a aposta em Marcos Llorente e Lucas Vázquez, que já tinham sido titulares em Roma. Do outro lado, Gonçalo Guedes e Ezequiel Garay eram titulares, Cristiano Piccini, lateral direito ex-Sporting, começava no banco, e García Toral lançava Kévin Gameiro no lugar do belga Batshuayi.

Os merengues entraram bem e com vontade de abrir o resultado nos minutos iniciais: Dani Carvajal, endiabrado no jogo de hoje, apoiava-se na segurança de jogar atrás de Modric e na capacidade defensiva de Vázquez para poder subir no corredor direito e criar situações de perigo. Foi exatamente assim que surgiu o primeiro golo do Real Madrid, logo aos oito minutos — após uma boa recuperação de bola de Llorente, Carvajal surgiu em terrenos avançados, tentou o primeiro cruzamento, insistiu e a bola acabou por ser desviada pelo lateral direito Daniel Wass. O dinamarquês de 29 anos, que chegou a fazer parte dos quadros do Benfica mas nunca jogou pelos encarnados, tentou intercetar o cruzamento do internacional espanhol e acabou por fazer auto golo. Ainda antes dos dez minutos de jogo, o Valência recuou tanto, defendeu tanto e baixou tanto as linhas que acabou por introduzir a bola na própria baliza.

O Real Madrid dominou por completo a primeira parte e a vantagem tangencial que o placard apresentava ao intervalo não espelhava a total supremacia dos merengues face à presença tímida do Valência. Marcos Llorente, que voltou a confirmar que atravessa um ótimo momento de forma, foi imperial no meio-campo e o grande responsável tanto pelas bem sucedidas transições entre setores como pela primeira linha de pressão que não permitiu à equipa de García Lorca aventurar-se pelo último terço do relvado.

Na segunda parte, todos aqueles que assistiram ao jogo no Santiago Bernabéu ou a partir da transmissão televisiva terão sentido que entraram numa realidade paralela. O Real Madrid voltou do descanso (demasiado) relaxado, convencido de que tinha o jogo na mão e de que seria apenas necessário controlar com bola. Já Santi Mina, que se assumiu como a principal referência ofensiva dos valencianos face à sofrível exibição de Gameiro, saiu do túnel de acesso ao relvado com vontade de fazer estragos. E tentou uma vez, duas vezes, três vezes: mas pela frente tinha Courtois, que escolheu este sábado para realizar uma das melhores exibições desde que deixou Londres para rumar a Madrid. O guarda-redes belga parou todas as investidas de Mina e depois do compatriota Batshuayi, que entrou para render o apagado Kévin Gameiro.

A insistência do Valência durou até aos 80 minutos. Solari cerrou fileiras com a entrada de Fede Valverde e a saída de Gareth Bale — ainda que obrigado, já que o galês saiu de campo lesionado — e os merengues conseguiram passar os últimos dez minutos de jogo com a bola controlada no próprio meio-campo e com os três pontos na mão. Até ao apito final, Lucas Vázquez ainda teve tempo de responder da melhor forma a uma assistência de Benzema e avolumar a vantagem para os dois golos de diferença. A jogada começou, como não podia deixar de ser, numa cavalgada impressionante de Dani Carvajal na ala direita: o lateral merengue assinou uma exibição notável, foi o melhor jogador em campo e assume-se cada vez mais como o líder sensato e assertivo de que o Real Madrid precisa nesta altura da sua história.

O Real Madrid venceu em casa o Valência, afastou os fantasmas que tinham ficado da derrota por 3-0 com o Eibar, subiu ao quinto lugar e está provisoriamente a três pontos do Sevilha e a dois do Barcelona, já que ainda nenhum dos dois entrou em campo esta jornada. O jogo ficou ainda marcado pela entrada de Isco, aos 81 minutos, depois da polémica que o internacional espanhol protagonizou a meio da semana. De forma surpreendente e aparentemente inexplicável, Isco não surgiu na convocatória de Solari para o decisivo encontro com a Roma. No dia seguinte, o jornal Marca explicava que o treinador terá ficado desagradado com o facto de o avançado não o ter cumprimentado no balneário depois da pesada derrota com o Eibar. De recordar que Isco, elemento importante do Real Madrid de Zidane, ainda não foi titular na era Solari.