No dia em que George Solitário morreu também desapareceu da superfície da Terra a espécie de tartarugas Chelonoidis abingdonii. Mas seis anos e meio depois de ter morrido, ao fim de um século de vida, a última tartaruga-das-galápagos-de-pinta do planeta ainda tem mistérios para desvendar. O genoma dela já foi completamente sequenciado e apresentado na revista científica Nature Ecology and Evolution. Agora, os restos mortais de George Solitário vão regressar às Galápagos esta terça-feira e ser guardados no centro de investigação de Santa Cruz.

Quando George Solitário morreu, o cadáver da tartaruga foi enviado para Nova Iorque para ser preservado por especialistas em taxidermia, que se dedicam a reproduzir ou a conservar os corpos de animais para que sejam utilizados em exposições. Longe das montras, a missão de George Solitário era outra: uma equipa de cientistas espanhóis sequenciou o genoma do último exemplar desta espécie e comparou-o ao da tartaruga-gigante-de-seychelles, um primo distante de George. O objetivo é descobrir o segredo da longevidade destes animais e perceber como é que são tão resistentes a infeções e ao cancro.

Graças a essa comparação, há uma conclusão que já podemos tirar sobre a vida das tartaruga-das-galápagos-de-pinta na ilha. Não foi só por causa da chegada dos humanos às Galápagos que a população deste animal diminuiu: na verdade, ela já tem vindo a diminuir muito antes de a ilha começar a ser explorada. Até agora, julgávamos que estas tartarugas tinham entrado em extinção porque os humanos levaram para a ilha outras espécies, como os ratos, que caçavam os ovos delas. Como as tartarugas da espécie de George Solitário eram muito grandes e tinham um metabolismo muito lento, elas reproduziam-se menos vezes e não conseguiam compensar as perdas de tartarugas com novas crias.

Isto faz sentido porque, na natureza, as espécies que se reproduzem menos vezes tendem a ter uma esperança média de vida maior. No entanto, depois de comparar a informação genética de George Solitário à de uma tartaruga-gigante-de-seychelles, os cientistas descobriram outros pormenores sobre a história destes animais: há pelo menos um milhão de anos que a população de tartaruga-das-galápagos-de-pinta vinha a diminuir, algo que é mais comum em espécies de grande porte que vivem num espaço confinado, que se reproduzem infrequentemente e em que a escolha de parceiros para acasalar é mais litimada. Isso explica porque é os animais da espécie de George Solitário são muito maiores que os antepassados dele.

Estudar a longevidade

Há muito que se estudam os animais com maior esperança média de vida, mas estudar as tartarugas trouxe mais detalhes sobre a longevidade na natureza. Agora sabemos que, entre os genes com seleção positiva — quando uma mutação torna uma espécie mais apta a sobreviver — nestas tartarugas gigantes, alguns também estão presentes em humanos que vivem mais tempo do que o normal. No entanto, depois de estudar 891 genes relacionados com o sistema imunológico das tartarugas, os cientistas descobriram que há duplicações em genes de tartaruga que não existem em humanos. E que há mais genes supressores de tumores em tartarugas gigantes do que nos vertebrados em geral.

Agora que já se desvendaram alguns dos segredos de George Solitário, o corpo da tartaruga vai regressar a casa, as Ilhas Galápagos. O Parque Nacional das Galápagos está a preparar uma festa para a tartaruga ao inaugurar uma exposição chamada “La Ruta de la Tortuga” no Centro de Reprodução Fausto Llerena em Santa Cruz. Tudo para celebrar a vida de George Solitário que, quando foi encontrado em 1971 após a espécie ter entrado em extinção por causa da caça dos marinheiros, foi mantido em cativeiro durante 40 anos. Nunca se pode reproduzir porque os cientistas nunca conseguiram encontrar fêmeas de espécies semelhantes às tartarugas-das-galápagos-de-pinta. George Solitário morreu a 24 de junho de 2012.