O que veio primeiro, a música ou o vinho? A resposta a esta pergunta ninguém sabe. Nem Pierre Aderne — o artista que há sensivelmente dois anos abençoou Lisboa com concertos privados, secretos até — nem Dirk Niepoort, o conceituado produtor de vinhos e amante do projeto desde o começo. O “Wine Album” que está agora a chegar às garrafeiras portuguesas é a estreia discográfica da “Rua das Pretas”, esse sarau musical e vínico que começou na sala de jantar de Pierre, na rua com o mesmo nome, e que com o tempo e a afluência de curiosos passou para um palacete no Príncipe Real, também em Lisboa. Os concertos meio improvisados, sempre com artistas convidados e acompanhados de copos cheios, passaram do sofá para um disco que é uma coleção de canções de amor com referências inevitáveis ao vinho.

Foi “num momento de folga”, na varanda da Quinta de Nápoles no Douro de Dirk Niepoort, que surgiu a ideia de criar um álbum, um disco de carreira para um projeto que nasceu — e mais cresceu — de forma espontânea. Numa dessas noites de conversas regadas por rótulos da casa, os amigos de longa data cozinharam a “trilha sonora do vinho”. O disco de dez temas (o 11º, de Carlos Paião, é faixa bónus) envolveu a participação de 16 artistas — entre compositores, interpretes e músicos — e foi desenhado em Nova Iorque, nos dez dias em que uma trupe (Pierre e Dirk incluídos) viveu em comunidade num apartamento em Greenwich Village. O produtor, versado noutras artes que não a música, “brincou de sommelier e de cozinheiro” e foi abrindo garrafas e inventado pratos nas horas de reunir à volta da mesa — momentos propícios para a feitura de letras e para a discussão de filosofias de vida, tal como recorda ao Observador. Dois meses depois, fez-se o regresso a Lisboa e, numa casa na Bica, finalizaram o álbum no estúdio Namouche.

A Rua das Pretas começou na sala de jantar da casa de Pierre Aderne e depressa passou para um palacete no Príncipe Real, em Lisboa. © Alfredo Matos / Nicole Sanchez

O disco que nasce desta profusão musical é vendido com vinhos exclusivamente idealizados por Dirk. “Os vinhos são a ferramenta de venda da música”, assegura Pierre Aderne. “Sinto que a música está muito mais perto de uma garrafeira do que de uma loja de discos”, continua. Os quatro vinhos disponíveis, que não sabem e não podem viver sem o disco, são um Nat’Cool branco da região dos Vinhos Verdes, “com duas fermentações em garrafa como se fazia antigamente”, um vinho turvo, não filtrado; um Nat’Cool Baga da Bairrada e dois vinhos do Douro, um branco e um tinto, blend de lotes criados ao gosto de Dirk Niepoort (à exceção do Douro tinto, que é de 2016, todos os vinhos são da colheita de 2017). Se cada vinho foi pensado com cuidado, o mesmo pode ser dito dos rótulos criados por artistas plásticos, portugueses e brasileiros — a título de exemplo, os vinhos do Douro têm trabalhos do colorista brasileiro Gonçalo Ivo. “A ideia é que haja uma relação entre a arte e o vinho do princípio ao fim, não só com a música”, conta Pierre. “A ideia é usar o meio do vinho para vender discos. No meio da música já ninguém compra discos”, completa Dirk.

De referir que o conceito Nat’Cool criado por Dirk Niepoort diz respeito a um “movimento português” que procura fazer vinhos mais leves.

“Não queremos fazer o melhor vinho do mundo, mas sim o mais natural possível, sem fundamentalismos. É mais uma questão de atitude, de fazer coisas que dão gozo beber.”

A explicação importa, uma vez que, futuramente, há o objetivo, ainda por amadurecer, de formalizar uma espécie de “Nat’Cool records”.

O disco está à venda por 18 euros, num pack que inclui uma garrafa criada pelo produtor Dirk Niepoort

Há mais de um ano que os saraus musicais e vínicos — que, em boa verdade, arrancaram na cidade do Rio de Janeiro, no Brasil — se mudaram para o Príncipe Real. Ao todo, tendo em conta os espetáculos em solo português, mais de 140 artistas do universo lusófono ou a ele ligado (nem que seja por mera adoração) foram convidados a participar na Rua das Pretas e cerca de 4.000 pessoas já assistiram, de copos na mão, aos concertos intimistas.

O fio condutor foi sempre o vinho, com vários produtores a marcar presença nas reuniões quase semanais — Luis Cerdeira (Soalheiro), Tiago Dias Da Silva (Quinta Maria Izabel), Francisco Bento dos Santos (Monte D’oiro), Julia Kemper, Rita Nabeiro (Adega Mayor) ou Antonio Maçanita. Todos os sábados de janeiro há evento e Lisboa já não é cidade privilegiada — há novos destinos na calha, como Porto, Paris e Nova Iorque. “A história da Rua das Pretas acabou por se tornar num Buena Vista Social Club”, atira Pierre Aderne, fazendo referência ao clube de dança e atividades musicais que cativou vários artistas em Havana, Cuba, na década de 1940.

O “Wine Album” — que beneficia do triângulo artístico Pierre Aderne, Brian Cullman (cantor, compositor e jornalista musical nova-iorquino) e Tanner Walle (músico do Kansas) — é produzido por Hector Castillho, que no bolso já leva alguns Grammys Latinos. Está à venda por 18 euros (disco mais uma garrafa) em garrafeiras de mais de 40 países, incluindo as portuguesas Garrafeira Nacional e Garrafeira de Campo de Ourique, em Lisboa (há a intenção de chegar à Garage Wines, em Matosinhos, e à Garrafeira Tio Pepe, no Porto), mas também em plataformas digitais — Spotify, Apple Music, Amazon ou Deezer.