Ideias não lhe faltam, de tal forma que em casa tem uma gaveta de coisas inacabadas, entre a de serigrafias e a de trabalhos antigos. Não são só ideias de ilustrações e de livros, são formatos diferentes, coisas mesmo estapafúrdias, se for preciso. Em 2017, por exemplo, construiu uma caixa de cartão que simulava uma máquina de tirar fotografias tipo passe. Chegou a fazer feiras e e a instalar-se na Rua das Flores, uma das mais movimentadas do Porto, dentro da caixa e com um banquinho. A ideia era desenhar um retrato em três minutos de quem quisesse sentar-se à sua frente. Quando acabava, passava o desenho por uma fresta, como uma impressora com braços.

Falar do trabalho de Joana Estrela é falar de uma ilustradora premiada que publica numa das mais importantes editoras de livros infantis, a Planeta Tangerina, mas também de uma portuense que se move no mundo alternativo da auto-edição, sem pudor de sair à rua dentro de uma caixa ou de distribuir as suas zines.

O primeiro livro publicada na Planeta Tangerina explora a relação com a irmã.

Em comum, tudo o que a move tem a ver com ilustração, e hoje quando pensa nisso percebe que foi assim desde miúda, ainda em Penafiel. “Sempre gostei muito de livros e até achava que queria ser escritora, mas muitas vezes tinha ideias para histórias e ficava só a desenhar as personagens”, conta a ilustradora de 28 anos. Graças ao trabalho de uma mãe extremosa, que guardou tudo dentro de micas com as respetivas datas, alguns dos desenhos dessa altura foram parar ao livro Mana, publicado em 2016 depois de vencer o I Prémio Internacional de Serpa para Álbum Ilustrado, e que explora a relação com a irmã mais nova através de páginas cheias de riscos e de mimos como: “Querida irmã, não sei bem de onde vieste, mas de certeza que és extraterrestre”.

O prémio em Serpa foi o que lhe permitiu chegar à editora, depois desse veio outro (o de Melhor Desenhador Português de Livro de Ilustração na BD Amadora), e neste momento Mana já tem uma segunda edição portuguesa e uma coreana, francesa e espanhola. O próprio catálogo cresceu, com a publicação de A Rainha do Norte em 2017, também na Planeta Tangerina. Esse livro marcou duas estreias: uma primeira incursão no tradicional “era uma vez”, para contar a história de um rei mouro que se apaixona por uma criada vinda de um país longínquo (a partir da lenda das amendoeiras em flor), e o uso de muito mais cores, preenchidas a computador depois dos desenhos serem feitos à mão, a forma como normalmente trabalha.

A zine “Tranglomango” anda à volta de uma lengalenga.

Ter uma editora — para quem Joana Estrela está neste momento a ilustrar outros livros — não significa, no entanto, que a autora tenha abandonado a produção independente, muito longe disso. “Sempre fiz auto-edição e acho que essa é uma maneira do trabalho ir para outros sítios”, diz, “sobretudo se forem projetos mais alternativos”.

A mais recente saiu no final do ano passado e é sobre uma lengalenga, mas a verdade é que as zines (publicações auto-editadas normalmente de pequena circulação) começaram ainda na Faculdade de Belas Artes do Porto, onde Joana Estrela tirou o curso de Design e reuniu as coisas mais engraçadas que foi ouvindo num livrinho chamado Hoje Não Janto Rissóis. Depois do curso, e uma vez que não arranjava trabalho e só via os colegas designers a emigrarem, foi fazer voluntariado para uma associação LGBT na Lituânia. Esteve lá um ano e isso também deu uma novela gráfica a que chamou Propaganda, da qual fez 300 cópias numeradas.

Para além dos livros, Joana Estrela também já fez etiquetas de novelos e pins para a Retrosaria de Rosa Pomar.

De regresso a Portugal voltou ao tema, desta vez para participar num concurso da associação ILGA que pedia livros para crianças com uma temática LGBT. “Não ganhei, por isso imprimi-o eu”, diz despachada, enquanto mostra o livro Os Vestidos do Tiago. “Não queria partir do princípio que sei sobre os problemas ou questões que alguém vai enfrentar quando é criança LGBT, por isso pensei mais na questão de género e tentei escrever sobre um ponto de vista que me lembro de pensar na primária, e que é: os rapazes não podem usar as mesmas coisas que nós, coitados, têm muito menos variedade de roupa. É um livro que é muito positivo porque é sobre um rapaz que gosta muito de vestidos e não há problema nenhum, não há drama.” Joana não ganhou o concurso mas passado um ano recebeu uma mensagem da associação Amplos a dizer que usavam o livro nas sessões com pais de miúdos transexuais. Pouco depois foi contactada pela editora de ilustração independente Sapata Press, que queria reeditar o livro. Dito e feito: Os Vestidos do Tiago ganharam uma capa amarela e estão de volta às livrarias especializadas como a It’s a Book, em Lisboa, mesmo a tempo de fazer chegar um exemplar ao atual governo brasileiro.

A nova capa de “Os Vestidos do Tiago”, agora reeditado.

O Porto, onde vive, também já deu que imprimir. Para as crianças, fez um poster desdobrável para colorir com as principais atrações da cidade, entretanto esgotado. Para os turistas mais alternativos desenhou um mapa de sítios para chorar, com 10 locais recomendados, da Casa da Mariquinhas ao cemitério Prado do Repouso. “Na altura estava a viver com mais pessoas numa daquelas casas velhas em que se ouve tudo e sentia que não podia chorar à vontade”, conta. “Queria fazer um mapa destes para Lisboa mas ninguém me dá sugestões, só tenho a Gulbenkian.”

Depois de uma campanha de crowdfunding para garantir o primeiro ano, neste momento é também uma das editoras de um pequeno jornal sobre a freguesia onde mora, o Bonfim, e uma vez por mês co-organiza o Drink & Draw, encontros em que, como diz o nome, se bebe e desenha ao mesmo tempo.

O mapa de sítios para chorar no Porto é impresso em risografia.

No mundo ilustrado de Joana Estrela, até os hobbies podem servir para aumentar o portefólio. Foi o que aconteceu com o tricot. Desafiada por Rosa Pomar, a maior especialista em malhas portuguesas do país, desenhou etiquetas para novelos de lã e ainda pins, autocolantes e sacos de pano, à venda na Retrosaria, em Lisboa.

Quanto a vê-la dentro de uma caixa, sentada no meio da rua, quem sabe novamente para o ano. Por agora, Joana Estrela anda atarefada a partir canecas para desenhar os cacos de forma realista num diário gráfico. Tudo em nome da ilustração.

Artigo publicado originalmente na revista Observador Lifestyle nº 3 (novembro de 2018).