“Isto não é um unicórnio”, tal como aquilo não era um cachimbo, e na volta uma lata de tomate é só uma ideia incrível que alguém teve antes de nós. A alusão a Magritte ou Andy Warhol, e ainda ao famoso urinol de Duchamp, são algumas referências do projeto artístico que pretende averiguar até onde pode chegar uma obra como esta, de Gigón, em Espanha, consagrada pelas paredes de um museu ou esquecida no fundo de um caixote do lixo.

Neste caso, e para começar, passando de mão em mão, correndo quilómetros e reforçando o seu valor material. Tudo para refletir sobre um dos territórios mais incertos. “Há algo mais subjetivo que a arte? Por que é que onde alguns só veem umas quatro torpes linhas outros pagam milhões para as terem penduradas na parede? A arte consegue ser mais subjetiva que um prato de marisco ou um bom vinho. Há gente que não gosta de lagosta e gasta fortunas por uma pilha de ladrilhos empilhados no meio da sala”, nota Eduardo Naves Alberdi ao Observador.

Foi em novembro que o jornalista, que em televisão ficou conhecido por trabalhos como o Rei da Reciclagem, lançou o quadro com um unicórnio nesta aventura, com partida das Astúrias, para uma experiência tão “inútil” como “filosófica”, e com um desfecho imprevisível. Definiu que a peça valia então 10 euros na sua casa de partida e em cada escala iria acrescentando ao seu valor essa quantia.  Por exemplo, depois de passar por dez mãos diferentes, a peça ascende aos 100 euros. Refira-se ainda, para sermos um pouco mais rigorosos, que a figura representada não é mais que um balão esvaziado, e amarfanhado, fruto de uma tarde bem passada na feira.

“De um ponto de vista pessoal e profissional, a arte sempre me interessou, mas com o anos surgiram-me algumas dúvidas: quem está autorizado a decidir o que é arte? Qual é o seu valor real?. Foi assim que pensei em criar uma obra que fosse crescendo com o tempo, itinerante e colaborativa, cujo êxito dependeria do interesse de cada proprietário efémero”, descreve Alberdi, resumindo o conceito no site que acompanha o projeto, com ligação direita ao Instagram.

Ali é possível seguir a par a passo as andanças deste unicórnio, uma das criaturas mais populares dos nossos tempos, neste caso particular numa versão 30×40 centímetros, para que a mitologia seja portátil. Diga-se que desde 17 de novembro de 2018 o quadro circulou pela região das Astúrias, entrou em 2019 em Barcelona, onde acabou por ser captado pela fotógrafa e ilustradora Sandra Montesinos, e agora passou a fronteira pela mão de Maria Luna, que se divide entre o Algarve e Huelva. No total, já leva nas pernas mais de 2 mil quilómetros, e a maratona promete continuar. “No início temia que me apelidassem de “louco” e que começassem a bloquear o meu número de telefone, depois de pedir a amigos para receberem…um unicórnio. Tive a sorte de a resposta ser sempre surpreendente. Há muita gente a escrever no Instagram que quer ter a custódia do quadro.

E se alguém estiver interesse em juntar-se à corrente de acolhimento temporário ou mesmo comprá-lo pelo caminho? Bom, basta aceder àquela rede social e sondar os seguidores. Se o feedback for positivo ao processo de aquisição, a venda será concretizada — o valor reverterá para a Associação Espanhola de Luta contra o Cancro. Entretanto, não custa esperar que o destino da peça seja tão garrido como as cores do balão. “Desejo apenas que não acabe no lixo. Se sonhar alto imagino que termine na parede de um museu prestigiado, vigiado por um funcionário de uniforme e fotografado compulsivamente por milhares de fanáticos de arte conceptual-emergente.”