Joseph Votel, o mais alto responsável militar norte-americano na estratégia de combate ao Estado Islâmico (EI), declarou publicamente não concordar com a estratégia de retirada de tropas dos EUA da Síria, anunciada pelo Presidente Donald Trump em dezembro. O general Votel, que emitiu essas declarações numa entrevista dada à CNN esta sexta-feira, a partir de Omã, garante contudo que irá cumprir as ordens que recebeu.

Questionado pela cadeia de televisão norte-americana sobre o que teria aconselhado ao Presidente em dezembro, Votel foi claro: “Esse não seria o meu conselho militar àquela altura. Falando francamente, não teria feito essa sugestão.”

O oficial norte-americano afirma que, embora o califado do EI tenha sido formalmente destruído, a organização terrorista ainda não está completamente esmagada. “Ainda tem líderes, ainda tem combatentes, ainda tem facilitadores, ainda tem recursos, por isso a nossa pressão militar continuada tem de persistir sobre esta rede”, afirmou o general. Mais concretamente, Votel explicou que o grupo ainda mantém uma influência forte sobre alguns, o que pode levar a novos ataques terroristas aos Estados Unidos ou a outros países.

Quando eu disser ‘derrotámo-los’, quero garantir que isso significa que eles não tem a capacidade de planear ou ordenar ataques diretos contra os EUA e os nossos aliados”, declarou. “Eles ainda têm esta ideologia muito poderosa e podem inspirar [pessoas]”, explicou o general.

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O oficial acrescentou ainda na mesma entrevista que as Forças Democráticas Sírias — rebeldes sírios, sobretudo curdos, aliados dos EUA no terreno — não têm ainda capacidade de enfrentar o grupo sozinhas. “Eles ainda precisam do nosso apoio e da nossa ajuda nisto”, disse Votel.

Rússia e Irão acham que retirada dos EUA da Síria são “boas notícias”

As declarações do general surgem um dia depois de o Presidente russo, Vladimir Putin, ter afirmado que a retirada dos EUA da região era um “passo positivo” para a região, já que ajudaria a permitir às forças militares de Bashar Al-Assad “restabelecerem o controlo” do país. As declarações de Putin, citadas pela Agência France-Press, foram feitas após um encontro com o Presidente iraniano, Hassan Rouhani, e o homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan. A Rússia e o Irão são atualmente aliados militares de Assad na guerra da Síria. A Turquia, que tem interesses na região relacionados com o combate aos curdos, está envolvido no conflito sírio com uma postura dúbia face ao regime de Assad.

Não temos grande otimismo face ao que os americanos dizem, mas se eles se retirarem, serão muito boas notícias”, acrescentou o Presidente iraniano.

No mesmo encontro, Putin acrescentou que, apesar de ver com bons olhos a decisão de Trump, ainda não tinha tido informações que confirmassem que a retirada das tropas norte-americanas está a acontecer. “Não sabemos o que vai acontecer a seguir, mas podemos dizer, neste momento, que ainda não ocorreram grandes mudanças naquele território”, afirmou, citado pela agência russa TASS.

A decisão de Donald Trump apanhou de surpresa muitos representantes militares e diplomáticos do Governo dos Estados Unidos já que, apenas quatro meses antes, um relatório do próprio país dava conta de que ainda permanecem cerca de 14 mil militantes do EI na Síria. O ministro da Defesa, Jim Mattis, apresentou a sua demissão na sequência do anúncio do Presidente, declarando que era melhor para a administração norte-americana ter um ministro “cujas ideias estão mais alinhadas” com as de Trump.