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Vaticano confirma que tem normas internas para lidar com padres que têm filhos

É um documento interno, secreto, que define a forma como a Igreja deve atuar em casos de padres que quebram o celibato e têm filhos. Informação foi confirmada pelo porta-voz do Vaticano.

O Papa Francisco atribuiu à Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores a tarefa de criar medidas apoiar filhos de padres católicos

AFP/Getty Images

O Vaticano tem um documento interno com normas sobre a forma como os bispos devem lidar com padres que têm filhos, noticia esta segunda-feira o jornal norte-americano The New York Times, citando o porta-voz interino do Vaticano, Alessandro Gisotti.

O porta-voz confirmou àquele jornal uma informação adiantada pelo irlandês Vincent Doyle, ele próprio filho de um sacerdote católico e presidente da Coping International, uma associação que se dedica a apoiar filhos de padres católicos em todo o mundo e a fazer lobby junto da Igreja para que reconheça e ajude estas pessoas.

Após ter criado a associação, lembra o The New York Times, um arcebispo mostrou a Vincent Doyle um documento interno do Vaticano com normas específicas para a atuação da Igreja nestes casos. Doyle ficou radiante. Era aquela a resposta que queria ouvir: a Igreja estava empenhada em atuar nestas situações.

Mas, quando pediu ao arcebispo se podia ter uma cópia daquele documento, ele disse-lhe que não, uma vez que era secreto.

O diretor interino da sala de imprensa da Santa Sé vem agora confirmar oficialmente a existência do documento. “Posso confirmar que essas normas existem. É um documento interno”, disse Alessandro Gisotti ao The New York Times. Em comentário ao jornal norte-americano, Vincent Doyle assegurou que este é “o próximo escândalo” da Igreja.

Em 2017, Vincent Doyle contou ao Observador como descobriu, aos 28 anos, ser filho de um padre católico que sempre tinha conhecido como “padrinho”. “Sempre soube que uma parte de mim estava ali, mas nunca a tinha entendido”, disse na altura Doyle.

Quando soube a verdade, sentiu-se “completo”. “Eu estava a ler uns poemas antigos, escritos pelo padre J.J., o meu pai biológico. Os temas eram muito parecidos com os meus, que também escrevia poesia como hobby. Ao ler um poema antigo que ele tinha escrito, um sentimento apoderou-se de mim. Uma série de suspeitas que eu tinha tido ao longo dos anos começaram a juntar-se e perguntei à minha mãe: ‘Ele era o meu pai, não era?’. Quando eu lhe disse estas palavras, ela começou a chorar e foi nesse momento que eu soube”, lembrou o irlandês.

“Por isso é que é importante dizer a uma criança se o seu pai é um padre. Não lhe estamos a dar um padre, estamos a dar-lhe parte da sua própria identidade. É injusto não dizer a verdade”, sublinhou Doyle, que passou a sua infância e juventude “em busca de sentido”, inclusivamente no interior da Igreja Católica. “Eu tinha passado muito tempo com o meu pai, e, depois da morte dele, inconscientemente associei a intimidade e proximidade que tinha com ele à Igreja. Sempre senti um chamamento para o sacerdócio, penso que uma parte de mim procurava inconscientemente o meu pai no sacerdócio.”

Determinado a lutar contra o estigma e contra o silêncio nestes casos, Vincent Doyle criou em 2014 a Coping International. Quer, assegura, que os filhos dos padres católicos tenham direito a ter um pai.

Doyle dedica-se a contactos com os bispos na Irlanda, no Vaticano e em todo o mundo no sentido de pressionar os responsáveis da Igreja para que encorajem os padres católicos a assumir as responsabilidades parentais quando têm filhos.

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