Crítica de Música

Que bonita pode ser a desventura com Julia Jacklin

"Crushing” é o segundo álbum da australiana e é um ótimo exercício de observação das pequenas coisas e como elas tendem a agigantar-se. Fazer disto tudo canções com esta categoria é uma arte bonita.

Autor
  • Ricardo Lima Esteves

A Austrália é um país interessante. Assim, ao olho destreinado, parece uma impossibilidade solarenga, onde toda a gente aparenta ser demasiado feliz, apesar de cada vez que alguém entra na água ficar imediatamente rodeado de várias espécies diferentes de animais que nos querem comer. Para esse olho destreinado é então sempre surpreendente quando o país nos oferece estas subtilezas existenciais como as prestações de Hugh Jackman em musicais, grande parte da carreira de Nicole Kidman ou o segundo disco de Julia Jacklin.

A capa de “Crushing”, de Julia Jacklin

Tal como nas tiradas indie do espírito deliciosamente mordaz de Courtney Barnett, temos aqui provas suficientes para considerar estes estereótipos bastante patetas. Crushing é então o segundo disco de Julia Jacklin. Com 28 anos, esta força saída do indie-rock-folk-sensível australiano que está cá para nos cantar a complexidade esmagadora que é o fim de uma relação. Se a descrição parece deprimente, é porque é um bocado (ou bastante) e se for esse o estado de espírito com que partimos para este disco, ele está perfeitamente pronto para nos receber de braços abertos nessa tristeza. Mas a subtileza reside nos pontos solarengos que Jacklin consegue encontrar nos momentos difíceis. É a leveza que às vezes acontece no fim das coisas importantes, acompanhada pela capacidade de saber sofrer e perdoar ao mesmo tempo.

Não há aqui portanto nenhuma militância do miserabilismo. O que há, sim, é a observação dos pequenos detalhes. Torna-se logo evidente no primeiro tema, “Body”, em que as tensões de uma viagem de avião servem para retratar as incertezas sobre os comportamentos de quem a acompanha. É uma boa introdução para descrever este final de relação da forma mais visual que o formato canção pop permite. É também, de forma bastante feliz, um dos arranjos mais despidos de todo o disco. E depois transforma-se num medo da chantagem digital possível nos tempos do #MeToo, mas sem chavões nem exageros, só coisas boas que nunca deixam de servir a problemática.

Este questionar do patriarcado é um dos espectros constantes neste segundo trabalho. Em “You Were Right”, Jacklin canta-nos o quão mais fácil é desfrutar de pequenos prazeres como música ou um bom restaurante quando desaparece a micro-agressão de alguém que nos diz “gosta disto!”. Em “Good Guy” tudo isto se transforma num regatear de emoções e um dos momentos de maior fragilidade deste registo. E depois em “Don’t Know How To Loving You” temos outra das faixas bastante contidas do disco para abordar a diferença entre o “à vontade” e o “à vontadinha” na longa (ou não) vida a dois.

É preciso procurar bem para encontrar falhas por estes lados, mas se há algo que se pode pegar será alguma falta de espírito inventivo nos momentos que pretendem ser mais vivos, como “Pressure To Party” ou a já mencionada “You Were Right”, canções que tendem a ficar algo diluídas em guitarras e ritmos algo banais de banda indie do palco secundário às seis da tarde num festival perto de si. Mas são momentos que são muito bem balançados pelas faixas mais viradas para dentro como “Turn Me Down” ou o maravilhoso exercício folk que é “Convention”.

Numa entrevista de 2016, Julia Jacklin dava a entender que escreve melhor quando se sente preocupada ou inquieta, mas que é um estado de espírito que está sempre à procura de alterar. Numa altura em que a introspeção parece uma moeda em constante desvalorização, essa luta interna tão bem cantada em trabalhos como este Crushing é incrivelmente bem-vinda.

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