Óscares

Vinnie Jones, o médio defensivo que passou das faltas em campo para os homicídios no cinema

892

Viu o amarelo mais rápido de sempre. Foi expulso 12 vezes. Agarrou os testículos de Gascoigne num jogo. Agora Vinnie Jones contracena com Arnold Schwarzenegger, Nicholas Cage e Angelina Jolie.

No fim de carreira, a jogar pelos Queen Park Rangers, Vinnie Jones, ao centro, inicia uma luta com Steve Claridge, do Wolves

Alex Livesey/Allsport/Getty Images

446 jogos, 38 golos, 44 amarelos e 12 expulsões (oito por vermelho direto). Vinnie Jones é um recordista: mais vermelhos na Premier League em 1995/96 e 1996/97; mais vermelhos na qualificação para o Europeu de 1996; mais amarelos na Liga Inglesa de 1992/93; o amarelo mais rápido de sempre na história do futebol, logo aos 3 segundos de jogo.

Vinnie Jones era um médio defensivo, no mínimo, duro. Fez carreira no Wimbledon, nos anos em que o plantel era conhecido como Crazy Gang, pela atitude bad boy dos jogadores, aliada a um estilo de jogo ultra físico. Em Inglaterra passou pelo Chelsea (muito antes da era Roman Abramovich), Leeds United, Wealdstone e Sheffield United e pelo Queens Park Rangers. Fez nove jogos pela seleção do País de Gales, uma honra ridicularizada por colegas de profissão, como o internacional inglês JimmyGreaves: “Matem-me. Já tivemos cocaína, subornos e o Arsenal a marcar dois golos em casa. Mas quando achámos que já não havia mais surpresas no futebol, o Vinnie Jones é um jogador internacional“.

Ao longa de uma carreira de 15 anos (de 1984 a 1999) o jogador assumiu-se como um anti-herói, dedicado a um estilo de jogo diametralmente oposto ao do jogador rápido, atlético e tecnicamente dotado que apaixonava os fãs. No documentário “Soccer’s Hard Men”, de 1992, o então jogador do Wimbledon explica como travar um atacante agarrando-o pelos cabelos, pisando-lhe o tendão de Aquiles ou dando-lhe uma cotovelada. Era descrito como um “aprendiz da escola da intimidação”.

Os comentários valeram uma multa recorde da Federação Inglesa (cerca de 200 mil euros ao câmbio atual) por “trazer desonra” à modalidade. O Wimbledon proibiu a venda do filme nas lojas da equipa e o então presidente do clube, Sam Hammam, condenou o depoimento do jogador: “O Vinnie Jones tem o cérebro de um mosquito”.

A agressividade que valeu a Vinnie Jones atenção mediática até hoje

O estilo físico, completo com entradas que acabavam muitas vezes em lesões para os adversários, deu uma reputação de jogador “sujo” a Vinnie Jones. Uma pisadela a Dane Whitehouse, do Sheffield United, valeu-lhe o amarelo mais rápido de sempre, aos três segundos de jogo. Passava na altura a sua única época no Chelsea, vindo, precisamente, do Sheffield United. Anos depois desse jogo de 1991, Vinnie Jones refletiria sobre o incidente na sua autobiografia: “Devo ter entrado muito alto, muito inseguro, com muita força ou muito cedo, porque depois de três segundos era impossível ser uma entrada tardia!”.

Mas o momento mais mediático da carreira futebolística de Vinnie Jones fora em 1987, na sua primeira passagem pelo Wimbledon. Num jogo frente ao Newcastle United, Vinnie Jones travou Paul Gascoigne de uma forma que traria eternos eufemismos à cobertura mediática do incidente: agarrando o atacante adversário pelos testículos. “Nunca o tinha feito antes, e não voltei a fazer, mas funcionou”, diria o “trinco”, já depois de se reformar, ao The Sun.

A agressividade de Vinnie Jones valeu capas de jornal, à época, e está hoje espalhada pela internet em compilações com alguns dos momentos mais violentos do jogador. O estilo serviu para conquistar a Segunda Divisão e a Terceira Divisão inglesas, com o Leeds United e o Wealdstone, respetivamente, e uma Taça de Inglaterra em 1988 (numa vitória histórica do Wimbledon, por 1-0, frente ao então campeão Liverpool). Com o Wimbledon jogou nas primeiras seis épocas da atual Premier League (que adotou o atual formato a partir de 1992), conquistando algumas das melhores classificações de sempre do clube.

O defesa deixou o futebol para ser ator

Em 1997, Vinnie Jones transferiu-se do Wimbledon para o Queens Park Rangers, acumulando funções como jogador e treinador adjunto. Depois de duas temporada com pouca utilização (mas em que chegou a sete amarelos em 11 jogos) queria assumir o cargo de treinador principal do clube, com a saída de Ray Harford no final da época. Foi outro treinador do clube, Iain Dowie, a ficar com o lugar e Vinnie Jones deixou o futebol para participar no seu primeiro filme: Lock, Stock and Two Smoking Barrels, uma comédia criminal em que ficou com o papel do mafioso Big Chris. Em 2019, 20 anos depois, arrepender-se-ia da mudança, em declarações ao Planet Football: “Gostava de ter ficado no futebol. Sair é o maior arrependimento da minha vida”.

Mas estava dado o passo para uma das mais bem sucedidas transições de sempre de um ex-jogador para fora do mundo futebolístico. Em 2000 tinha um papel de destaque como Spynxh em Gone in 60 Seconds, com Nicholas Cage e Angelina Jolie. Como um criminoso especializado em combate mano-a-mano teve direito a uma única fala – era uma personagem muito presente mas muito silenciosa. “Nunca substituiu o futebol mas deu-me uma energia diferente”, explicou Vinnie Jones à mesma publicação, continuando: “É difícil compensar a energia que o futebol dá. Percebo por que é que tantos jogadores têm dificuldades quando acabam as carreiras, porque jogar golfe todos os dias não é um substituto”.

O estilo em campo influenciou a vida no ecrã e Vinnie Jones representou muitas vezes brutamontes, criminosos e mafiosos, que se destacavam mais pela presença física do que pela força intelectual. Foi guarda-costas de John Travolta em Swordfish (2001), estrela de Mean Machine no mesmo ano – como um ex-jogador de futebol virado presidiário – e hooligan do Manchester United em EuroTrip, de 2004. A lista continua entre dezenas de filmes que lhe deram reputação no mundo cinematográfico pela sua presença marcante no grande ecrã, em que se revelou um ator competente, mesmo que longe do território dos Óscares. Na vida privada também chegou a ter problemas por causa do mau feitio. Chegou a ter de adiar uma gravação para se apresentar em tribunal por agredir um vizinho.

Durante os anos seguintes passou pela televisão como ator (incluindo no remake de MacGyver) e como ele mesmo (no Big Brother Celebridades – ficou em terceiro – e a a apresentar uma série documental sobre a ação da polícia inglesa, Police Interceptors). Em 2002 aproveitou para lançar o álbum Respect. Já tinha publicado o single Wooly Bully em 1993.

Deu voz a um cão em Madagáscar 3 (2012), trabalhou com Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger em Escape Room (2013), foi Juggernaut para X-Men: The Last Stand (2006) e chegou a representar um assassino mudo num thriller produzido no Cazaquistão. Mas Vinnie Jonnes não se converteu por completo a ser um assassino nos ecrãs: “O que aconteceu na minha carreira como ator foi incrível, mas eu trocava-o a qualquer momento pela oportunidade de estar em campo todos os dias, como jogador ou como treinador, com os meus rapazes”. O histórico “homem falta” ainda sonha voltar a aterrorizar equipas inteiras de futebolistas.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Cinema

Consumismo cinematográfico

Ana Fernandes

Não estaremos a perder a magia do cinema? E o gosto pelos clássicos que notoriamente influenciaram os filmes que vemos hoje em dia? Estamos a consumir cinema como se de "fast food" se tratasse...

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)